terça-feira, 5 de abril de 2016

Fellini "Amor louco" (Wop Bop, 1990)


                  O Fellini começou lançando sinais de sua passagem meteórica pela vida musical no underground brasileiro dos 80’s. Enganaram seus entusiastas com títulos de despedida e sobrevidas das quais nem os próprios integrantes pareciam acreditar.

                     Gravaram três discos pela Baratos Afins e logo conquistaram o título de banda cult do rock nacional, até porque não tinham pares em sua sonoridade, fruto de um amontoado de sons vindos do pós-punk/pré-new wave e com referências brasileiras das quais poucas bandas estavam interessadas naqueles idos.

                   Tudo isso, somado ao talento literário do compositor Cadão Volpato, ainda não torna capaz uma definição simples da música do Fellini, quem sabe no primeiro disco, o ótimo “O adeus de Fellini”, de 1985.

                 Entretanto, algo no Fellini era facilmente perceptível: o modo de produção caseiro, de baixa fidelidade, e o uso do porta-estúdio Tascam, também conhecido como o quinto Fellini, em 1985, promovido a terceiro, em 1986, e abandonado em 1989, ano em que foi gravado o “Amor louco”.

                   Lançado em 15 de fevereiro de 1990, o quarto disco do Fellini é tido como o melhor disco da banda. Diferente dos anteriores, o álbum não faz alusão à despedidas e trouxe a chancela de um novo selo, além da volta do guitarrista Jair Marcos e a presença de um produtor/engenheiro de som, o RH Jackson.
          “Comecei a produzir o disco colocando as bases e bolando uma certa estética acústica pro disco. O trabalho de estúdio se estendeu, provavelmente porque estávamos nos divertindo muito, mas eu tinha uma viagem marcada pra Índia. Então demos um tempo nas gravações, com eles só gravando o estritamente necessário. Um dia o Thomas Pappon me ligou em Dheli me intimando a voltar e acabar o disco. Quando voltei, achei as gravações muito boas e pra terminar foi rápido. Eles sabiam muito bem o que estavam fazendo” (RH Jackson)
               O repertório reuniu a melhor safra de canções do Fellini. Algumas testadas ao vivo antes de ganharem registro definitivo, caso de “Chico Buarque song”, repleta de sons de violões sob versos românticos, todos em inglês. Idioma que também traduz os três versos de “Love till’ the morning”, momento mais eletrônico/dançante do disco.
         “O “Amor louco” foi sucesso de crítica, mas não de vendas. Acho que o grande diferencial são as letras e, na época, um certo toque de Samba e Bossa Nova ainda era novidade” (Ricardo Salvagni)
Bizz, edição 58, maio de 1990
              A maioria das canções tem estrutura baseada em violões, baixo marcado e economia na programação de batidas eletrônicas. As letras de “Clepsidra” e “LSD” se relacionam com memórias do autor, característica do texto do Cadão Volpato, que parece transformar cada disco do Fellini em um álbum de fotografias.

             Também é o disco em que o quarteto mais se envolve com o Samba, ouça “Cidade irmã”, “Kandisky song” e “Samba das luzes”. “Cittá piu bella” é a mais densa, um blues carregado com refrão em italiano. Sim, volta e meia eles inseriam outro idioma no meio, mesmo valorizando o texto em português.
           “Tudo era tão intuitivamente mental que o espaço para o produtor permitia experimentações. Sou orgulhoso de ter participado desse álbum, um misto de sonoridade ‘Roquerural’ e Violent Femmes pra fazer “Bossa Nova” (risos). O desafio era manter o Fellini das gravações anteriores sem provocar alterações no conceito da banda. O “Amor louco” não deixava de ser Lo-Fi só era um pouco mais complexo, foi gravado pelos mesmos artistas, da mesma maneira, mas ali tinha um material apaixonante!” (RH Jackson)
A produção ocupou cinco meses de um estúdio de 16 canais, contabilizando mais de 100 horas de gravações. Algo inédito para uma banda que economizava tempo de produção e que raramente deixava sobras. A tiragem de mil LPs encomendada pela Wop Bop à RCA foi parcialmente atendida, pois rendeu 880 unidades do “Amor louco”, um risco que os selos independentes corriam ao encomendar prensagens às grandes gravadoras.
              “O Thomas Pappon tem carisma e poder de persuasão. Ele negociou com o meu sócio, o Antonio Albuquerque, o lançamento do disco pela Wop Bop. Nós não acompanhamos nada da produção do “Amor louco” e o que eu conhecia do Fellini eram aqueles discos (mal) gravados do selo do Luiz Calanca. Lembro-me de ter ficado impressionado quando soube que a gravação seria “digital”. Resultou em um álbum muito bom, provavelmente o melhor editado pelo selo, mas que merecia melhor sorte. Devia ter sido editado por uma gravadora "de verdade", não era o caso da Wop Bop.” (René Ferri)
Bizz, edição 65, dezembro de 1990
               

         O "Amor louco" teve excelente repercussão enquanto lançamento. Não gerou hit de rádio, muito menos alavancou a carreira da banda que já não tinha pretensões comerciais. Mas garantiu ao Fellini shows memoráveis, como aconteceu em Porto Alegre e no Brazilian Rock Night, ambos em 1990, no qual só puderam viajar para Nova Iorque apenas Cadão e Thomas (leia ao lado).
Em 2000 o disco voltou à ordem do dia remasterizado em CD, iniciativa de Alex Cecci (Estúdio YB e baterista com gosto pela surf music e swing jazz) e da RDS Fonográfica que reeditou quase todo o catálogo da Wop Bop. Dessa vez foram prensadas mil cópias, evaporadas rapidamente.
 
                 
         A edição do “Amor louco” em CD acompanhou seguiu a edição original em cassete e trouxe os bônus presentes na fita k7, “É o destino” e “Aeroporto”. A última foi retirada da derradeira aparição televisiva do Fellini, no Programa Livre. É essa edição que você pode conferir nos links abaixo:

Quer ouvir? Download aqui!

6 comentários:

  1. Galera, não consigo baixar através desse link de forma nenhuma! :/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. tenta de novo:
      https://mega.nz/#!3xQ3QBiY!s6Nl8Mc1xEbBpIth9xFwMzNjFQA9MUi24X9mFRgHNlg

      Excluir
  2. Respostas
    1. Tem sim. Tem o Fellini ao vivo e mais discos do The Gilbertos, Cadão Volpato solo, projetos do Ricardo Salvagni e o Funziona Senza Vapore.

      Excluir
  3. Gostei muito deste blog como sou um oitentista ferrenho,nos anos 80 eu, com meus 12 anos cresci ouvindo os lps de;LEGIÃO,Capital,Ira,Engenheiros,Plebe Rude,Titans,Paralamas,Picassos Falsos,Hojeriza...Nunca mais vai ter uma geração com tanto talento,força,coragem,com letras inteligentes,atitudes.Rock anos 80 the best.

    ResponderExcluir