segunda-feira, 28 de setembro de 2015

V.A. "Ovo" (RioArte Digital, 1996)


          Esta simpática coletânea com músicos e compositores cariocas é um disco atípico entre as coletâneas feitas para apresentar a sempre criativa música produzida na terra de São Sebastião.

      Atípico porque foi composto por um núcleo de compositores e músicos, Rodrigo Campello e Pedro Luís, idealizado por Arícia Mess, Suely Mesquita e Mathilda Kóvak, que recrutaram outros músicos e compositores próximos, uns realmente novos, outros quase veteranos.

          A coletânea é abrangente, mas a busca pelo novo é o que une todas as iniciativas sonoras. “Ovo” estava em sintonia com a nova MPB que já arranhava a casca do ovo por dentro em 1996. Traz arranjos caprichados para canções bastante inspiradas, como “Louco por você”, de Ivan Zigg, “O amor é sacanagem”, de Luís Capucho e “O medo”, de Bia Grabois.

          “Soul” apresenta o trabalho de Pedro Luís - acompanhado d’A Parede, não creditada – e antecipa o trabalho que no ano seguinte seria reconhecido nacionalmente através do majestoso disco “Astronauta Tupi”. Mathilda Kóvak apresenta um som mais limpo, acústico, para a excelente letra de “Mary Shelley (ou eu quero um homem)”.

          Suely Mesquita e Luís Capucho, compositores requisitados de Niterói, soltam a voz. A primeira aparece duas vezes em parceria com Rodrigo Campello, além de cuidar dos arranjos vocais de outra boa parte das canções. O ator/cantor Serjão Loroza divide o microfone com André Protásio, no Tuins. 

          Arícia Mess experimenta um arranjo que transita entre o trip hop e a MPB em “Latitudes do amor”. Pavimentou um caminho que seria trilhado com frequência pelos nomes da nova MPB dez anos depois. A voz e o arranjo de Antonio Saraiva surgem em “Caricas I”, parceria com outro letrista de mãos cheias, Sérgio Natureza.

          “Ovo” é um lançamento do selo RioArte Digital, vinculado à Secretaria Municipal de Cultura da capital carioca. No encarte, um texto de Mathilda Kóvak cria várias metáforas que relacionam o ovo à gênese criativa dos artistas presentes na coletânea. Ovo neles!

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Cartel de Medellin "Sequestro" (Rock Brigade Records, 1991)


              O Cartel de Medellin que nomeia a banda paulistana não tem relação com o centro colombiano de produção e tráfico de drogas. Pelo contrário, o quarteto é tão inofensivo que passeia a milhas de distância das drogas. Entretanto, seu único registro em disco é uma droga, no pior sentido possível.

               A banda é totalmente quadrada, tem uma sonoridade entre o hard e o heavy, evidenciada pela foto da capa, além de péssimas letras e interpretações. O lance aqui no Disco Furado não é falar mal de bandas, mas do Cartel de Medellin não tem como fazer uma análise de outro jeito.

           As músicas próprias trazem temas fraquinhos, como violência, “Sequestro”, e Janis Joplin (!?), em “Janis”. “Holocausto” cita John Lennon, deus e o mundo desabando, é a pior de todas. Páreo duro. Salva-se a versão correta para “Vou te virar de ponta cabeça”, do Made in Brazil.

              Esse Cartel abraçou a campanha da luta anti-drogas, presente na letra de que abre o lado A, “Visão”, e no carimbo que sela a contracapa.

          O álbum foi um dos primeiros discos do selo Rock Brigade Records, braço fonográfico da publicação especializada em heavy metal. O disco teve uma repercussão mediana e não frequentou nem mesmo o catálogo do selo que o lançou.

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sábado, 19 de setembro de 2015

Garotos Podres "Garotozil de podrezepam" (Independente, 2003)


                Esse tarja preta aí de cima é o quinto disco de uma das principais bandas do punk rock brasileiro.

                “Garotozil de podrezepam” é o disco do Garotos Podres que traz mais músicas não compostas pela banda. Abre o hino escolar “Vomitaram no trem”, que no encarte está atribuída a um tal de Renato, mas acredito que esta música tenha tantos detentores de autoria e adaptações, que é mais fácil creditá-la ao domínio público. O fato é que “Vomitaram no trem” ganhou uma versão definitiva com o Garotos Podres, a letra é impagável.

             Os temas soltam o grito anti-alistamento militar na ótima “Serviço militar” e dão voz a personalidades fracassadas, como no ska/punk rock “Agente secreto”, “O ditador” e em “Sou um fracasso-maníaco”, estas duas últimas endereçadas a um conhecido sociólogo e presidente da república durante a década de 90

       “Nasci para ser selvagem” é a versão em português para “Born to be wild”, devidamente deturpada para o terror dos insuportáveis easy riders pós-2000. “Ainda vamos tocar Bossa Nova” sacaneia legal com a Bossa Nova, não perdoa os cariocas e muito menos os próprios Garotos Podres.

         “A internacional” é a versão punk do ABC para o hino dos trabalhadores de todo mundo, um dos poucos momentos do álbum não tangenciados pela ironia e sarcasmo. “O adventista” encerra a cartela do traja preta, versão para o clássico do Camisa de Vênus.

          O álbum foi lançado de forma independente pela própria banda e teve uma boa repercussão, apesar de isso não ser contabilizado em vendas. O projeto gráfico é bastante caprichado e completo, todo composto como se o disco fosse um medicamento vendido sob prescrição.

          Com esse disco o Garotos Podres participou de programas na TV aberta e voltou para a estrada. Foi o último disco do Garotos Podres antes das merdas que fizeram o lendário vocalista Mau deixar a banda.

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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Pedrinho Grana & Os Trocados "A Aurora do Deicida" (Independente, 2009)


Pedrinho Grana é um herdeiro dos temas da Jovem Guarda e do lado mais bubblegum do rock’n’roll e esse é o seu primeiro álbum completo.

Acompanhado da banda Os Trocados produziram um disco que transita entre o power pop de baladas românticas, sem deixar de lado uma potencial sacanagem, como em “Maléfico fantasma”, “Sensacional” e nas ótimas “Seu guarda, me faça mulher essa noite” e “Alguém na minha vida”, e um forte acento country, vide “Garota, eu não sou merda”, “Mas que gata louca!” e “Joaninha”, esta uma versão para “Joanita” do Gram Parsons.

O disco produzido pelo guitarrista d’Os Trocados, André Vasquez (Sapatos Bicolores), foi lançado de forma independente e embalado num simpático envelope que não traz o nome da banda. Uma boa forma de se arriscar num primeiro disco. Certamente encantou quem ousou ouvi-lo, por aqui foi assim.

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V.A. "O som do sul 2" (Independente, 1989)


            O segundo volume dessa coletânea de bandas do Rio Grande do Sul, organizada pelo jornalista Bibo Nunes, traz 11 bandas de Porto alegre, muitas com características em comum, principalmente no tocante à polidez e ao atraso. Em pleno 1989 ainda tinha banda tentando o sucesso naquela velha fórmula que deu notoriedade ao rock brasileiro dos anos 80.
         Quase todas se parecem com aquelas bandas de um hit só, o suficiente para frequentar a frequência das rádios por um curto tempo e angariar algum contrato efêmero. O necessário para viver o sonho de estrela do rock.

              Nenhuma destas 11 bandas teve êxito além da participação na coletânea, e é bem possível que muitas tenham registrado canção apenas nesse segundo volume de “O som do sul”.
              Tem as bandas pop que funcionam bem apesar de completamente datadas, como o Logos, “Veste o verde”; o 525, “Tudo less em Ibiza”, melhor fotografia da new wave tardia de PoA junto com o Retrato  Falado, em “Sonhos”, e a ótima “Hoje eu choro”, do Luta.

          O lado mais sombrio do disco é um destaque, com Zabrinskie, Vergonha da Família e Êxito Letal. Em comum, todas são de uma inocência que aquela década já havia deixado para trás há pelo menos meia dúzia de anos.

           Aquele som de plástico do pop dos anos 80 percorre o álbum todo, como no pop rock do Fluxo M, “Degraus das catedrais”, e na influência de funk branco, estrategicamente percussivo do Capitães da Areia, “Alienação”, que traz à lembrança o som pavoroso do Biquíni Cavadão.

             A produção independente deu sequência à coletânea “O som do sul 1” e teve uma boa repercussão local, não alçou nenhuma banda à carreira fora da capital gaúcha, mas promoveu um documento importante dos últimos suspiros do rock brasileiro que então agonizava publicamente.

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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Rogério Skylab "II" (Independente, 2000)

               
                     O segundo disco do serial recorder Rogério Skylab é um trabalho inspirado.
             Se no primeiro registro da série, Skylab pareceu contido pela produção do guitarrista Robertinho do Recife, é nesse segundo item da série que conseguiu imprimir a pungência que suas letras precisavam. A gravação ao vivo garante força interpretativa necessária para dar “realidade” às letras e lançou uma fórmula que seria adotada em seus próximos discos, a gravação ao vivo.

               Em “II” estão boa parte de suas músicas mais conhecidas do Skylab. Abre educadamente com “Metrô” para logo chocar os desavisados com os primeiros versos de “Jesus”, uma linda letra de amor gay entre o negro Jesus e um dermatologista, mas confesso que fiquei confuso/curioso pela buceta de Jesus.

                  “Carne humana”, um dos pontos altos da poesia skylabiana, recebeu um arranjo caprichado, cheio de groove. Por sinal, a banda que acompanha Skylab é excelente.

                      “Naquela noite” volta aos temas sádicos, mas carregado de um lirismo caro à MPB, cria mais um daqueles deliciosos paradoxos com que o Skylab sabe lidar tão bem. O mesmo acontece na ótima “Matadouro das almas”. Que letra, que música! Já “Privada entupida” pega emprestado a música de “Since I don't have you", (The Skyliners/Don McLean/Guns’n Roses -!?) e a inspiração na letra de "Cagar é bom", do Língua de Trapo.

                  A inspiração nos pássaros, digna de um Tom Jobim, demoveu nobreza usurpada ao Urubu. “Cu e boca” volta a cena do amor em ato, que antes deu a letra de “Jesus”, e mostra como o começo e final do aparelho digestivo muitas vezes estão em completa sintonia.

                  “Samba”, a mais carioca das músicas de “II” traz a participação especial do peido vocal de Lois Lancaster, vocalista e compositor do Zumbi do Mato, inspiração estética essencial para o trabalho de Rogério Skylab. Com direito à citação incidental e não creditada para “Aviso aos navegantes”, doo Lulu Santos.

             O fato é que tem hit pra caralho em “II”. “Moto-serra” (sic), “Convento das Carmelitas” e “Carrocinha de cachorro quente” não saem do set list dos shows. O maior sucesso ficou para o final “Matador de passarinho”, nessa o público até arriscou acompanhar.
                 Agora, o grande mérito de “II” não está no seu conteúdo sonoro e sim no material gráfico. A capa da artista plástica Solange Venturi, autora da maioria das capas do Slylab, é uma das mais belas artes para discos de toda MPB. A mordida de amor (e desde quando galinha morde?) entre duas cabelas de galinhas dá margem para muitas interpretações. Excelente trabalho! As vísceras ficaram para a foto da bandeja do CD.
                    Lançado de forma independente, “II” se esgotou rápido.

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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Valv "Ammonite" (Midsummer Madness, 2001)


              Formado por integrantes vindos de bandas importantes de Belo Horizonte/MG da segunda metade dos anos 90, como o Dread Full, Mr. Rude, No Hands e Vellocet, o Valv não teve dificuldade em formar uma identidade sonora e logo das às caras no cenário independente dos anos 2000.

            A rapidez com que projetaram seu som fez as coisas acontecerem de forma veloz para o quarteto. As primeiras músicas estão registradas nesse EP de seis canções lançado pela Midsummer Madness. São 30 minutos de ótimas canções, meia hora preciosa para o guitar sound nacional.

           O EP abre com o quase hit “Frequency”, que também ganhou um videoclipe, canção que dá uma boa mostra das investidas sonoras do Valv, guitarras ruidosas surrupiadas do shoegaze/guitar somadas a melancolia vocal e um tiquinho assim de resquícios pré-emo dos 90’s, notadamente Sunny Day Real Estate, referência/carma que o Valv carregou em sua rápida e saudosa primeira existência.

          O álbum segue por ótimos momentos, como a linda “Debtor’s jail”, reparem bem nestas guitarras e vocais, é emocionante, no mínimo. “Over it” também faz par com outras velozes e melodiosas canções do EP que se encerra com uma canção acústica, "Puck and the needle". 

          O EP em CDr de n;]55 do catálogo da Midsummer Madness foi bem recebido pelo público que logo reconheceu no Valv a principal guitar band daquele começo de milênio. Estavam certos. No show do Valv no Curitiba Pop Festival, em 2003, esse EP vendeu pra caralho.

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