quinta-feira, 27 de agosto de 2015

V.A. "Rumores" (Sebo do Disco, 1985)


               “Rumores” foi idealizado em 1984, uma iniciativa de Isnaldo Júnior, paraibano adaptado à Brasília e muito interessado nas bandas de rock da cidade.

                Isnaldo era proprietário da loja de discos Sebo do Disco e aproveitou o bom momento do comércio de discos na capital federal para investir numa coletânea que reunisse quatro bandas brasilienses que ainda não haviam assinado contrato. 

              Naquele momento, um contrato era quase a sobrevivência para as bandas de Brasília, principalmente depois que a primeira geração da turma (Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial) já fazia parte do elenco de grandes gravadoras.
Do livro "O diário da turma 1976-1986" de Paulo Marchetti

          As quatro bandas escolhidas tinham uma trajetória no rock brasiliense e eram nomes frequentes em shows e ensaios abertos, que muitas vezes se tornaram shows. Eram bandas diferentes entre si, mas todas com uma identificação sonora no punk e no pós-punk.

         Elite Sofisticada era a “veterana”, seguida pelo Detrito Federal. Finis AfricaeEscola de Escândalos surgiram no mesmo ano em que apareceu o convite para gravarem no “Rumores”.

            Tanto o Elite Sofisticada quanto Escola de Escândalos estavam ligados à turma da primeira geração de bandas de Brasília a saborearem o sucesso nacional. Na época o Escola de Escândalos se chamava XXX e dividia ensaios e equipamentos com o Aborto Elétrico. O Detrito Federal e o Finis Africae não faziam parte da “turma”, mas em 1984 já não existia mais turma nenhuma.

           
               Das quatro bandas, a que mais salta os olhos é o Escola de Escândalos. “Complexos” e “Luzes” soam como uma new wave monocromática, com boas letras e vocais, ainda que a produção de todas as faixas seja bastante crua e que algumas derrapadas de execução não tenham sido corrigidas. A guitarra de Fejão ( se sobressai às demais seis cordas do disco todo. O vocal de Mariele Loyola, então recém-integrada aos vocais, faz um bom contraponto com a voz do Bernardo Müller, principalmente em “Complexos”. E Bernardo era um dos melhores compositores daquela safra do rock de Brasília. “Luzes” entrou na programação da Fluminense FM e parecia que o Escola de Escândalos seria a próxima migração candanga para o hall da (sub)fama do Rock Brasil 80’s. Uma demo gravada para EMI solidificaria a projeção, mas não foi o que aconteceu. No mesmo ano do lançamento do “Rumores” Mariele Loyola se debandou para o Arte no Escuro, mas o Escola de Escândalos  perdurou até 1988.

Bizz, edição 04, novembro de 1985
              Elite Sofisticada estava mais ligada ao pós-punk, tocavam acelerado, mas eram facilmente assimiláveis, mantinham um vocal bem característico às bandas da época. Não é por acaso que na resenha do disco feita por Alex Antunes para revista Bizz (leia ao lado) a banda é acusada de imitar o Capital inicial. Curiosamente, o nome da banda surgiu de uma brincadeira de Negrete - aka Renato Rocha e Billy (1961-2015) - com a Plebe Rude.

           Finis Africae também estava voltado ao lado sombrio da new wave. As duas canções que estão em “Rumores” são as únicas do Finis  Africae com o seu primeiro vocalista, Rodrigo Leitão. Este foi ejetado da banda ainda durante a gravação da coletânea, seus vocais até foram refeitos pelo seu substituto, Eduardo de Moraes, mas não foram aproveitados. A saída do vocalista refletia o desejo da banda de seguir um caminho mais pop e com temas mais acessíveis. Deu certo para eles, mas as canções do Finis Africae em “Rumores” estão entre as melhores da banda.

             Detrito Federal é a “mais diferente” dos quatro nomes selecionados. Trata-se de uma banda punk em essência, a única realmente punk de uma geração que idolatrava o gênero, mas que buscava caminhos sonoros e estéticos em outras vertentes, muitas delas originadas do punk. As duas músicas não soam tão pungentes como deveriam soar, mas o vocal de Podrão salva as letras legitimamente punk rock de “Fim de semana” e “Desempregado”. O punk /hardcore brasiliense deve muito a estas duas músicas do Detrito Federal.

            “Rumores” foi gravado no estúdio Bemol, em Belo Horizonte/MG. O projeto gráfico segue os tons negros e nublados das gravações. Na capa a foto de outra figura conhecida do rock de Brasília da primeira metade dos 80, Ronaldo Freitas. No encarte estão as letras e uma foto grande com todas as bandas reunidas. Foram prensadas duas mil cópias do álbum, item disputado à tapa por colecionadores.

             Em 2013, o idealizador do “Rumores”, Isnaldo Júnior, relançou o álbum em CD, como bônus tem a versão que a Plebe Rude gravou para “Luzes”, da Escola de Escândalos. Na mesma ocasião também foi lançado o CD “Outros rumores”, um disco com mais cinco bandas de Brasília que havia sido engavetado em 1986.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Apicultores Clandestinos "Astronauta do campo" (Velvet Records, 2015)



               O Apicultores Clandestinos são de uma pequena cidade no interior de Santa Catarina chamada Rio do Sul. O quarteto também é o proprietário do único teremim da região. Um instrumento bem usado para criar ruídos nos sons rápidos e sujos criados pela banda, mas a banda é muito mais que isso.

            "Astronauta do campo" é o primeiro disco dos caras. Aqui o Apicultores Clandestinos adicionou mais elementos sonoros na sua música surf-punk-instrumental. Começam com um som bastante cru, 'Rage against javali", e logo abrem espaços para intervenções de ska/punk rock, "Fui abduzido"; psycho-caipira, "A volta de João Cantador" e hardcore/punk, em "Horriver". 

                   As 11 músicas são curtíssimas e o primeiro álbum do Apicultores não passa dos 30 minutos. O teremim está nas instrumentais "Tererê" e "Com o passar do tempo". Os vocais aparecem econômicos também em duas canções, nas boas "Delinquência juvenil" e "Eu tenho uma camiseta escrita eu já sabia", esta com influências de bandas pós punks tortas, como Mission of Burma e Grisly Fiction. Do conterrâneo Chuck Violence, líder da one-man-band de mesmo nome, emprestaram o psycho "Polka do Sergey"

               O disco foi lançado com apoio do selo/loja Velvet Discos. Tem um projeto gráfico ilustrado bastante caprichado e pode ser ouvido no bandcamp do Apicultores Clandestinos.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Relespública "As histórias são iguais" (Independente, 2003)


                  De volta à Curitiba, à formação de trio e a independência artística. A Relespública começou o ano de 2003 reformulando velhos planos e se mostravam aptos a começar tudo de novo.

                          Se a mudança para o Rio de Janeiro, o contrato com a gravadora Universal e o disco “O circo está armado” não trouxeram os resultados almejados pelo, então, quinteto, nada melhor do que voltar pra casa e retomar os contatos com o cenário independente local e nacional, um cenário que tinha na Relespública uma de suas bandas mais queridas e promissoras, vide a participação da banda em festivais importantes, como o Abril Pro Rock, SuperDemo, Leite Quente, dentre outros.

                     O terceiro disco da Reles foi gestado após a dissolução do quinteto que gravou o disco pela grande gravadora. Novamente com a velha formação de trio a banda reuniu o repertório e criou um álbum que ficaria marcado como o disco mais importante de sua discografia.

                    “As histórias são iguais” é quase um disco conceitual, passeia por temas relativos à juventude. Às vezes de forma ingênua e esperançosa, às vezes agressiva. Do repertório não gravado do Ira! pinçaram a ótima “A fumaça é melhor que o ar”, que no disco ganhou a participação vocal do Nasi, que também empresta a voz em “Boatos de bar”. "Os garotos são espertos" funciona como uma abertura breve para o passeio noturno que segue o álbum, nem que seja de camburão. Os hits para os quais a banda já demonstrava aptidão em trabalhos anteriores aqui realmente apareceram, "Nunca mais", "Garoa e solidão" e "Essa canção" não saíram mais do set list do trio.

                      O álbum lançado por conta própria foi bem recebido pelo público e mídia. Os videoclipes de “Garoa e solidão” e “Nunca mais” entraram na programação da MTV Brasil e se tornaram hits da banda. Os shows frequentes e uma boa divulgação do disco foram determinantes para a tiragem se esgotar rapidamente. Na mesma época pintou um contrato com o selo goiano Monstro Discos, mas a Monstro não lançou nenhum trabalho da Relespública, com exceção ao incluir “O camburão” numa coletânea do selo.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Dread Full 'Day off" (sHort/Spicy, 1999)


                    O quinteto de Belo Horizonte/MG passou por algumas fases até chegar ao seu segundo disco completo. O começo calcado no punk/hardcore abriu espaço para inserções no ska, tudo registrado em demo tapes, até chegar ao hardcore melódico e torto, meio Washington D.C. e bandas da Dischord Records. Esta fase é a que está representada em “Day off”.

         É um disco de hardcore melódico, mas não espere canções rápidas e com refrões cantaroláveis. O repertório alterna momentos mais pesados, “Day off” e “Female”, com músicas quase pop, como “Perfect song like another one” e "Nice conversation". O começo de “Coffee a lot” poderia ser de uma canção do Fugazi. As guitarras são bem trabalhadas e lançam ruídos e melodias por todas as canções.

                 “Day off” foi lançado em CD numa parceria dos selos paulistanos Spicy Gravações Elétricas e sHort Records. Teve repercussão mínima na mídia especializada que não demonstrou interesse pelo Dread Full, mesmo a banda sendo veteraníssima na cena do hardcore melódico dos anos 90. Pouco tempo depois do lançamento o Dread Full entrou em recesso, e alguns de seus membros partiram para outros projetos.

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sábado, 15 de agosto de 2015

V.A. "Não São Paulo Vol. I" (Baratos Afins, 1986)


                    "Não São Paulo" traz quatro bandas paulistanas que representavam o lado mais monocromático do rock paulistano da metade dos anos 80. Um álbum de bandas esteticamente inspiradas no pós punk, mas com as janelas abertas para buscar referências em outras manifestações artísticas e, mesmo, na música brasileira, principalmente no seu lado experimental.

                     O disco se inspira no cultuado "No New York", que revelou quatro bandas tão barulhentas quanto influentes, sob produção de Brian Eno. Semelhante à produção novaiorquina, as bandas do "Não São Paulo" pareciam estar em contante construção, experimentavam no estúdio, mas demonstravam maturidade. Provavelmente não tinham a intenção de encontrar seu lugar no rock nacional vigente, conformado o suficiente para não aceitar desafios, mas surpreenderam o público, e até mesmo se surpreenderam com a resposta do público. Havia um sentimento em comum de que "Não São Paulo" não seria marcado pelo tempo. E estavam certos.

                   O primeiro volume da coletânea abre com o Akira S & As Garotas que Erraram, capitaneados por um vocalista, Pedreira "Alex" Antunes, mais afeito a narrar letras do que a buscar qualquer harmonia vocal, e um baixista único por estas plagas, Akira S. “Sobre as pernas” traz a participação do Holger Czukay, fundador do Can alçado a condição de ídolo daquela turma. Holger tocou e editou a trompa que rasga o arranjo de "Sobre as pernas", que inclusive chegou a ser bem executada na 89 FM.

               O Chance traz a frente a única voz feminina do álbum, Marcinha, e suas duas músicas anteciparam o que na década seguinte ficou conhecido como trip hop. “Samba do morro” desconstrói e desacelera um samba, insere ruídos e cadencia uma levada lenta. “O striptease de Madame X” é densa, com arranjo econômico de piano e versos recitados na voz masculina do Scot, alter ego do José Augusto Lemos.

                O Muzak á a mais ruidosa das bandas do disco.“Ilha urbana” traz um arranjo brilhante composto basicamente por uma guitarra barulhenta e uma cozinha bem marcada. Por outro lado, “Jovens ateus” mostra que o Muzak apresentava potencial para canções mais próximas ao rock nacional da época, tanto que foi a única banda do disco que despontou para um contrato com grande gravadora, a EMI, pela gravou seu único disco. 

               O Ness, aqui reduzido ao duo Fernando e Walter, mostram um trabalho igualmente soturno, mas menos experimental, soam mais acessíveis que as demais bandas do álbum. “Adeus Buck Rogers” também entrou na programação da 89 FM, graças a produtora Aninha Sanchez.

                 Depois de "Não São Paulo" todas as bandas chegaram ao primeiro álbum completo, exceto o Chance. Nenhuma delas galgou passos além do underground e em menos de quatro anos todas já haviam encerrado atividades. Contudo, juntos construíram uma fotografia ainda bastante nítida da sombria metrópole que se mostrava em completa sintonia com outras grandes cidades e seus artistas urbanos.

                  O disco foi bem recebido pela crítica especializada, o que gerou um certo desconforto para as bandas, pois boa parte da crítica interessada em "Não São Paulo" era formada por músicos/jornalistas, dois deles presentes na coletânea, Alex Antunes (Akira S & As Garotas que Erraram), José Augusto Lemos (Chance).

                   “Não São Paulo” foi relançado em CD pela Baratos Afins, em 1997. A edição com um bônus ao vivo para cada banda está disponível nos links abaixo:


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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Próspero Albanese "Esbaforido rock'n'roll (Dentre flatulências explícitas...)" (Independente, 2013)


                  Próspero Albanese é a voz do Joelho de Porco. Mais precisamente, Próspero é a primeira voz da banda que ajudou a fundar junto com o baixista Tico Terpins, falecido em 1998, este pode ser definido como a alma do quarteto mais anárquico e irreverente do rock brasileiro, pelo menos se você considerar o primeiro disco, o obrigatório “São Paulo 1554/Hoje”.

                 Entretanto, a primeira voz do Joelho pendurou o microfone logo após a estreia. Fora substituído pelo Billy Bond, o “Carlos Imperial da Argentina”, mas o Joelho de Porco já não era o mesmo, nunca mais tão rock’n’roll quanto nos tempos com o Próspero, não mais tão corrosivo e surpreendente. Próspero reassumiria a frente do quarteto em 1983, no álbum "Saqueando a cidade".

             Foi com a morte do Tico Terpins que Próspero Albanese decidiu gravar seu primeiro disco do solo. Pode-se afirmar que foi uma tarefa árdua, pois consumiu mais de uma década até sua finalização. Acontece que a música não é mais a prioridade na carreira do vocalista e advogado, tanto que a realização do disco só se tornou possível por causa da produção do guitarrista Guto Marialva, a quem o disco é creditado. Guto faleceu em 2014 e também era conhecido como o primeiro guitarrista do RPM, quando o grupo ainda se chamava Aurora. 

         A volta do Próspero é um revival de memórias do rock’n’roll. Um disco essencialmente saudosista e reverente, a irreverência de antes é tangenciada de leve, mais no subtítulo do álbum do que nas canções.

           “Esbaforindo rock’n’roll” abre com uma canção que reapresenta Próspero ao rock, “Ahippyando”, a voz continua a mesma, mas os efeitos de estúdio auxiliam e às vezes exageram. Segue com saudosismo paterno, “Meu velho pai”. Lamenta o fim da beatlemania , “E o sonho?”, e homenageia Rita Lee, “Rocker Rita”.

             Solteiro convicto, condição assumida no texto do encarte, Próspero nos brinda com sua acepção do amor matrimonial em “O jogo do amor” e volta ao tema amoroso na melancólica “Lágrimas”. Do baú do Joelho de Porco resgata “Está chegando o apagão”, de Tico Terpins e Zé Rodrix (1947-2009), que ficou de fora do disco “Saqueando a cidade”. A luz volta a ser tema, mas desta vez em forma de canção apaixonada,  na balada rock “Adagas de luz”.

              “Esbaforindo rock’n’roll” não é totalmente bom e nem é esta a sua intenção. É, sim, um disco de rock’n’roll, nostálgico e feito com dificuldades. Feito para quem já conhece o seu interprete, para fã. Além disso, é o álbum de um sobrevivente, uma figura única de uma banda tão cultuada quanto incompreendida, que seguiu caminhos tortuosos e pagou o preço de suas escolhas.

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