quinta-feira, 30 de abril de 2015

Sorry Figure "The summer that you will not come.." (Barulho, 2001)


         O primeiro disco do trio de Cabo Frio/RJ mostrou uma face melódica do punk/hardcore brasileiro que quase não se enquadrava nos trabalhos das bandas mais conhecidas do estilo. Nada em " The summer that you will not come..." é exatamente punk ou hardcore, ainda que o Sorry Fugue esteja sempre flertando com os estilos, notadamente em sua face mais norte-americana.  

               Nestas 10 longas canções é perceptível a busca por melodias, entre o Jawbreaker e o Replacements, com partes quebradas, "Deceive me", que também dão espaços para outras com estrutura mais pop, como na abertura, "Your left", além de "Hot arm", "Isn't worth anything" e "Acepptance game".

               "The summer that you will not come..," foi lançado pelo selo curitibano Barulho Records, e levou o Sorry Figure para os palcos e festivais pelo Brasil.

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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Paquito "Falso baiano" (Independente, 2002)


                   Paquito é baiano de verdade. Nascido em Jequié e adaptado em Salvador. Não há nada falso em sua naturalidade, então porquê adotou o título de "Falso baiano" para sua estreia? A resposta é simples e está disposta nas 13 canções do álbum. Um disco de rock na capital da Axé Music beira a incoerência, culpa do mercado cultural soteropolitano que admite apenas músicas para o carnaval. Uma pena, pois a Bahia é rock sim, e em suas mais variadas faces.

               O álbum abre com um amálgama que domina o repertório de Paquito, a busca por soar baiano e brasileiro, de tratar referências musicais que vão de João Gilberto à Hendrix, "Cansado de sambar" tem letra de outro baiano, Assis Valente, e arranjo que cadencia rock e samba, um samba cansado de sambar.


             Em "Bacanal", letra de Manoel Bandeira musicada por Paquito, surge a voz de Chico Cesar. Um rock pungente que flerta com Jovem Guarda pesada e cheia de groove. O poeta pernambucano também empresta a letra de para a catira sertaneja "Brisa".  

            Por outro lado, há canções de amor singelo, como "O que pode ser", "Longe de você" e o blues bem humorado "Feio". Em "Já faz tempo que não lhe vejo" Paquito se arrisca na junção de forró e reggae.

              Lançado com apoio da Secretaria de Cultura da Bahia, "Falso baiano" teve uma boa repercussão e apresentou o veterano Paquito para o Brasil.


                
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terça-feira, 21 de abril de 2015

PELVs "Anotherspot" (Midsummer Madness, 2006)



               "Anotherspot" é o quarto álbum completo da PELVs. Um trabalho cuidadosamente pensado e que levou quase três anos para ser finalizado. Tempo natural para a banda, aqui um septeto, que ultrapassou os vinte anos de existência com quatro discos na bagagem.

             Trata-se do trabalho mais "pop" da PELVs, quase não há mais aquelas músicas curtas e rápidas que marcaram os discos anteriores e cravaram a banda como a mais representativa de todas as bandas que enveredaram por caminhos próprios para gravar o seu trabalho, outrora isso foi chamado de lo-fi, mas em "Anotherspot" quase não há lo-fi. 

                Dividido em nove longas canções, entre melodiosas esparsas, sons flutuantes e algumas baladas, como na abertura, "Baby of macon", que ultrapassa os dez minutos. A busca por melodias doces e ásperas, que vem desde o primeiro disco, chegam ao ápice neste álbum, como nas passagens lentas de "Run of the hill". 

             Em "Beans don't clap" o uso dos recursos do estúdio Freezer arriscam até um "sambinha" indie/PELVs, com ecos nos vocais, percussão minimal, teclados e lo-fi, mas com cara de grande produção, cheia de coisas acontecendo ao fundo. Até momentos mais "noise" soam pop, como o "pop viajandão" de "Tupiguarani".

             Um momento mais denso' em "Keep yout music away" parece tão forjado em meio às baladas doces do disco que os aplausos no meio da canção fazem a vez dos solos barulhentos que faltam ao disco, ainda assim soam a cara da PELVs. Ruídos de um radar acompanham a melancólica "Post scriptum". O disco se encerra com uma balada de amor do tipo final feliz em "The ballad of Tom Cody and Ellen Aim".

            Foram prensadas apenas 500 unidades de "Anotherspot", cujo projeto gráfico segue a estratégia de não apresentar informações adicionais sobre a gravação, muito menos as letras das canções. 

          O lançamento aconteceu de forma inesperada, pois a banda preparava uma caixa retrospectiva com os três primeiros discos quando resolveu se dedicar às músicas novas, o que marcou uma ruptura na já pouco frequente discografia da PELVs. Sim, eles produzem de forma lenta e gradual, assim como admitem em sua sonoridade, neste caso a palava sonoridade poderia até remeter a um neologismo nefelibata. Embale seu sono/sonho ao som de "Anotherspot".

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Snooze "Waking up... waking down"(sHort Records, 1998)


              O trio de Aracaju formado por Fabinho, Daniel "Sha la la" Garcia (1976-2010) e Rafael Jr, lançou duas demo tapes elogiadas até chegar ao primeiro registro completo, este “Waking up... waking down”. Disco com 12 canções próprias que oscilam entre o guitar e o power pop.

                 A qualidade da gravação não foge do padrão de qualidade de fitas demo, falta um ganho que a masterização podia ter cuidado, mas também demonstra ser uma qualidade de gravação acessível pra época. Certamente os discos seguintes do Snooze tiveram um som melhor, e até composições melhores, mas o que a banda mostrou na estreia também tem muito valor.

                 As letras em inglês deixam claras as influências. Momentos mais barulhentos de guitarra remetem ao underground norte-americano, “Bottle” e “Could thoughs”. Enquanto a parte pop mostra que o trio ouviu bastante Teenage Fanclub, “Life is good” e “My gramofone”. Há também um momento acústico perdido no álbum, a vinheta instrumental “Tsé tsé”.

              “Waking up... waking down” foi o segundo lançamento do selo paulistano sHort Records. Com trabalho gráfico feito de colagens e desenhos de Jamson Madureira, o álbum trouxe o Snooze de Aracaju para shows pelo sudeste e sul.

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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Jully et Joe (Bloody Records, 1993)


            Na década de 80 Curitiba deu muitas bandas identificadas com o pós punk. A característica sombria e noturna da cidade, combinada com a (falta de) simpatia habitual dos curitibanos, criava um cenário propício para que os vampiros também assumissem instrumentos. Uma destas bandas era o Jully et Joe.

                Antes de registrarem seu único disco completo, este compacto de cinco canções, o quarteto havia participado da coletânea "Vampiros de Curituba" e era nome frequente em bares importantes do início dos anos 90 na capital paranaense, como o Hole, Lino's e o 92º.

                O disco é curto e direto. Bastam 11 minutos parra tudo vir abaixo. "Rumour" lembra os momentos mais intensos do Joy Division e referências ao post-punk inglês absorvem toda a sonoridade do disco. Lançado pelo selo Bloody Records, num pacote com mais 12 discos de sete polegadas de bandas curitibanas, o álbum ainda consegue imprimir um tensão sombria daqueles anos.

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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Jupiter Apple "Plastic Soda" (Trama/Matraca, 1999)


            Dois anos após o lançamento de "A sétima eferverscência", o aclamado disco de estreia do Flávio Basso/Júpiter Maçã, eis que o artista retorna ao estúdio e promove uma reinvenção de sua obra e, porque não, de sua persona. O rock nacional e a MPB não estavam preparados para "Plastic Soda".

          Sob um novo pseudônimo, Jupiter Apple raramente lembra o roqueiro sixtie alucinado de ácido que dava características próprias ao personagem que circundava as letras do primeiro disco. Com novo nome e novas letras, todas em inglês, Apple atualizou suas referências dos anos 60 com um som Easy Listening, meio franco-inglês-brasileiro. No que antes havia rock gaúcho agora tem Samba e Bossa Nova, o que já parecia psicodélico agora virou vanguarda de experimentos analógicos.

                O mais curioso é que Jupiter fez quase tudo sozinho. Se no primeiro disco ele estava cercado de amigos em busca de conferir qualidade as suas composições, agora Jupiter comandava a si próprio, não se conta mais do que meia dúzia de participações especiais em "Plastic Soda", mas com o resultado semelhante a uma grande produção.

                É um disco difícil e vale cada tentativa de absorvê-lo - não pense que vai ser tão fácil desta vez. "A lad & a maid in the bloom" beira os dez minutos de duração e em sua atmosfera psicodélica se abre um portal para o lado mais joãogilbetiano do rock feito no Rio Grande do Sul. "Plastic Soda" volta aos 60's, lá no começo, uma Bahia Invasion, se esta houvesse. Um fade out emenda com a fuzzy "The true love of the spider", ruidosa do começo ao fim, lá no fundo é que as coisas acontecem, onde os sons se encontram e se digladiam, os efeitos vocais e solos de cravo abraçam os ouvidos. Parece coisa do Marcelo Birck, basta uma olhada na ficha técnica para saber que ele realmente passou por ali

               A Bossa Nova forjada, meio gringa/meio portalegrense, ataca novamente em "Over the universe", "Please don't disturb" e "Bridges of redemption park". "Morning intuition man" remete à canção norte americana, com arranjos de cordas e interpretação à Sinatra. Logo descamba numa viagem que funciona como vinheta para o "hit" do disco, uma gota lisérgica chamada "Head Head", sixtie com tempo para uma passagem rápida em Bangladesh, com direito à cítara e reminiscências orientais. Há também temas de vanguarda, ou melhor: avant garde, como os longos dez minutos da instrumental "Wasn't it?".

                Lançado pela gravadora Trama - um selo independente, mas de grande porte, pois contava com financiamento do grupo de serviços VR, sim aquele do Vale Refeição - como parte dos projetos de descoberta de artistas, um selo interno chamado Matraca, coordenado por Carlos Eduardo Miranda, "Plastic Soda" teve uma boa repercussão na mídia, que enfim reconheceu Flávio Basso como um dos melhores compositores de fim de século XX. Realmente, não estávamos preparados para entender "Plastic Soda" e seu mentor, um gênio em duas personas agora (des)conhecido como Jupiter Apple.  

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sexta-feira, 10 de abril de 2015

V.A. "Garage Voices" (Garage Records, 1994)


               Palco fundamental para compreender o cenário underground da capital carioca nos anos 90, o Garage surgiu em 1988 como um bar que exibia vídeos. No começo o público era composto em sua maior parte de membros de moto clubes que frequentavam a Rua Ceará em busca de rock pesado e bebida barata. 

                 Em 1991 Fábio Costa (1959-2012) assumiu o casarão e trouxe ao Garage um nova proposta, a de se tornar a casa de shows mais importante de sua época. E assim o fez. Enquanto esteve à frente do Garage, Fábio produziu mais de 900 shows e abriu espaço para muitas bandas. Praticamente todo o underground do  Rio tocou no Garage, este era o objetivo de qualquer banda que almejava sair da garagem de casa. Pode-se afirmar que sem o Garage o cenário de bandas cariocas não seria o mesmo.

             Em 1994 Fábio aproveitou a boa fase da casa e investiu numa coletânea de bandas de metal do Rio. O disco "Garage Voices" foi o único lançamento do selo Garage Records e trouxe quatro bandas que batiam cartão no palco movimentado do Baixo Ceará, também chamado de Baixo Metal.

Encarte "Garage Voices"
             Com duas músicas para cada banda o álbum começa com o som metal meio industrial do Freaks?. Bem sucedidos no disco, o Scars Souls foi a única banda da coletânea a seguir carreira e lançar disco completo. O Unsmasked Brains faz um som mais heavy/hard e abusa dos solos de mil notas por segundo. o Go Ahead! tem cara de começo dos anos 90, metal com groove e composições um tanto ingênuas.

              A produção do disco é bastante simples e por vezes tosca. A qualidade de gravação das bandas beira à demo tapes, o que não é depreciativo. A tiragem foi limitada assim como a distribuição, o próprio Garage. Uma folha de papel amarela datilografa fez a vez de encarte com poucas informações, na última linha dava uma mostra do que seriam os próximos discos do selo Garage Records, LPs completos com as quatro bandas de "Garage Voices", o que não chegou a se concretizar.

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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Varsóvia (Ataque Frontal, 1987)


                Inspirados em pós punk inglês e pela obscuridade das noites paulistanas dos anos 80 surgiu o Varsóvia. O quarteto formado em Santo André/SP levou pouco tempo para chegar ao primeiro disco completo. Um trabalho bastante honesto e oportuno, afinal naquela metade dos 80's a cidade de São Paulo produzia bons discos e revelava bandas dedicadas ao pós punk. O Varsóvia foi uma das bem sucedidas, mesmo que tenha durado muito pouco.

Bizz, ed. 22, maio de 1987
               Seu único disco buscou criar uma sonoridade pós punk acessível, com letras que deixam a densidade de lado para tratar de abstrações existenciais, tais como descrições de passeios de fim de tarde que não trazem acontecimento algum. Sonoramente o resultado é menos "tedioso", ecos de Joy Division e Bauhaus dão referências em "Para todo o sempre" e "Continuar". Um pianinho bem sacado rouba a monotonia dos momentos menos sorumbáticos do disco, como em "Após as luzes" e no arranjo de baixo smithiano de "Noites".

              A produção é bastante simples e ficou a cargo de Redson (1962-2011), então parceiro do selo Ataque Frontal. O disco teve boa repercussão, "Noites" entrou na programação da rádio 89 FM e pode ser considerada um sucesso do álbum. Segundo Renato Martins, proprietário da Ataque Frontal "As primeiras mil cópias venderam bem, mas uma nova prensagem, que demorou muito para ficar pronta por culpa das prensas super ocupadas da gravadora Continental, gerou o primeiro encalhe da gravadora Ataque Frontal", conclui. O disco ainda pode ser encontrado no estoque do selo paulistano.

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