sábado, 28 de fevereiro de 2015

Textículos de Mary e a Banda d'As Cachorra "Cheque girls" (Deck Disc, 2002)


           Belmiro gostava de ser chamado de Mary. Saiu à noite em busca de diversão, mas sem dinheiro. Num banheiro público encontrou três rapazes que fumavam um baseado, ele se aproximou, pediu uma bola e ficou por ali. Logo rolou uma esfregação e a inevitável foda, que era o objetivo de Mary naquela noite de Recife. O sexo foi brutal e no final Mary estava no arregaço e com o cu ardendo. A pirocada foi forte. Deitado no canto do banheiro avaliou o estrago da noite. Com raiva de si mesmo olhava com nojo para o próprio pau. A gilete escondida na gengiva seria agora a ferramenta e no mesmo banheiro público a rola de Mary ficou jogada. A reação química improvável daquele pau e dois testículos, misturado a sangue, plasma, mijo e outras bactérias do banheiro sujo deu origem aos três travestis que formaram o Textículos de Mary.

           A história acima passa longe de uma explicação convincente para o começo de uma das bandas mais absurdamente geniais da história do rock brasileiro. Na verdade, o Textículos de Mary surgiu em 1997 com três vocalistas acompanhados da Banda das Cachorra, mais quatro músicos que ao vivo ganharam nomes de guerra e maquiagens. Tudo era muito difícil, desde o preconceito de músicos heterossexuais que não admitiam acompanhar três vocalistas gays, até produtores que não viam na banda nada além de uma putaria. O momento de ascensão só veio em 2000 depois de um CD Demo acompanhado de um fanzine ilustrado que narra um pouco da história contada no primeiro parágrafo.

      A apresentação do festival Abril Pro Rock de 2001 foi fundamental para que a gravadora Deck Disc se interessasse pela banda. Todo mundo sabia que aquela reunião não duraria muito tempo e que havia boas e divertidas letras, além de uma provocação aos setores mais conservadores que merecia ganhar o público. 
Chupeta no Sesc Pompéia, gravação do Musikaos.
 Foto: Matias Maxx (retirado da Revista Frente, ed. 02)

        O disco "Cheque girls" saiu em 2002, o ano do Textículos, afinal, saíram de Recife para São Paulo, tocaram novamente no Abril Pro Rock, dessa vez com Jon Spencer Blues Explosion e Wander Wildner, entre outros. A mídia tentava entender a banda, diziam até que ali naquelas músicas tinha algo que pudesse ser voltado ao público infantil. Um engano. O álbum é divertido, mas não há como uma criança ouvir "Eu não gosto de michê mas o meu cu gosta" sem querer saber o que é um michê. Exemplos provocativos estão por toda parte, maconha na balada "Menarca", comunismo gay em "Natasha Orloff" (que nome!) e racismo sexual em "Entradas e bandeiras"."Propóstata" ganhou vídeo clipe exibido em raríssimas madrugadas da MTV.

         "Cheque girls" não segurou a onda e logo a Deck Disc já não tinha mais interesse na banda que poucos realmente ouviram. Um raro segundo disco ainda foi lançado, o independente "Bissexuástica" - estes nomes são ótimos! Em 2004 o Textículos de Mary encerrou atividades.

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Are You God? "Miranda" (2+2=5/Travolta Discos, 2006)


             As bandas de grindcore em sua eterna busca de liberdade estética em nome do barulho realmente conseguiram forjar algo "novo" e conquistaram adeptos. 

             Num cenário cada vez mais diluído entre os que esperam ser cooptados para outros patamares, as bandas de grindcore surgem como um alívio da contemporaneidade sonora. São provocativas e "incomodam" outras bandas e cenas, são descentralizadas o suficiente para não se engajarem em causas comuns e livres para conquistar espaços no esquema "faça você mesmo". Também são tecnicamente auto suficientes para "dominar" um som abrasivo e violento.
Revista Zero, edição 07

              O Are You God? se encaixa nestes dispostos acima. Aqui o trio paulistano faz um grind brutal em pouco mais de 20 minutos de disco. "Miranda" é o primeiro álbum, antecedido de uma demo tape e um EP, "Espelho de carne". A produção caprichada destacou a barulheira e os vocais berrados de João (ainda sem o sobrenome Kombi, pelo qual seria conhecido com o Test). A bateria prenuncia um ataque sônico que aguarda a entrada do baixo em volume alto e da guitarra desfiando riffs tal como navalhadas na música. Grindcore bastante técnico, uma característica importante da produção deste gênero extremo no Brasil.

              O projeto gráfico é único, esteticamente está vinculado ao conceito difícil do álbum, com letras impressas em folhas de plástico e papel da contracapa colado no verso do estojo. Dentro uma foto do tipo santa ceia traz foto de todos os envolvidos na produção do disco.

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Low Dream "Reaching for balloons" (Uptight Records, 1996)


              Uma parte importante das bandas do underground brasileiro dos anos 90 era composto por guitar bands. Haviam vários nomes - tá, uns 15, e bem contados - dedicados a este estilo derivado de outros nomes ingleses e norte-americanos. 

Showbizz, ed.135, outubro de 1996
             Por aqui estas bandas batalhavam espaços enquanto produziam demo tapes. Lentamente angariavam público e viam seu nome publicado em fanzines, revistas e cartazes. De todas, certamente o Low Dream era a maior, senão também a melhor.

               "Reaching for balloons" é seu segundo e derradeiro álbum. Sucedeu o excelente "Between my dreams and the real things" e apresentou o Low Dream melodioso, com influências novas de rock inglês pré britpop. As canções soam "limpas", com vocais menos enterrados em distorção e microfonia. Culpa da produção bem cuidada que privilegiou momentos acústicos, "Rocket ride", arranjos com teclados e outras interferências. Há momentos quase pop, "Me and my friend rain" e "Trois millions d'etoiles" que mostram o disco mais acessível da curta discografia do quarteto brasiliense.

             O álbum foi produzido e lançado pela própria banda, através do seu selo Uptight Records, e ganhou distribuição do selo RVC Music, também de Brasília. Recebeu resenhas elogiosas na mídia especializada, que reconhecia o Low Dream como uma das mais conceituadas bandas do underground da época. Contudo, o reconhecimento da mídia e a conquista de um público próprio não foram suficientes para manter o quarteto em atividade após "Reaching for balloons".

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Afrika Gumbe (Eldorado, 1989)


              O Afrika Gumbe surgiu na capital do Rio de Janeiro, em 1978, com o nome de Afrika Obota. Entre seus integrantes haviam imigrantes africanos e músicos brasileiros que desenvolviam pesquisas e estudos com ritmos da África. Dentre eles o baixista Pedro Leão e os irmãos Marcos e Marcelo Lobato, todos músicos de apoio de bandas conhecidas dos anos 80, como os Robôs Efêmeros (que acompanhavam Fausto Fawcett), além de Fábio Fonseca, Fernanda Abreu dentre outros. Os irmãos Lobato em 1993 se reencontrariam n'O Rappa e atingiriam sucesso comercial e de público, entretanto seu trabalho mais conceitual e instigante está aqui, no primeiro álbum do Afrika Gumbe.

            O disco pega uma carona não intencional na fase de re-absorção da cultura musical africana pela música brasileira, que pouco antes explodiu na Bahia com os ritmos que originaram a Axé Music. Momento em que a mídia especializada internacional relacionou os vários estilos da música africana num mesmo balaio chamado World Music. Foi a fase de desvendar raízes e prever o futuro, sociólogos afirmaram que o futuro da música era negra. O DJ, fotógrafo e produtor Maurício Valladares fomentou o projeto de aproximação entre Brasil e o continente africano ao propor a edição nacional de discos de nomes populares do berço da humanidade. Lá fora o Afrobeat era reconhecido pelas suas qualidades musicais e não pela visão ocidental que caracteriza determinada música como étnica. Um bom momento para o Afrika Gumbe engenhar seu primeiro disco.
Bizz, edição 54, janeiro de 1990

             Além de conter um notável trabalho de pesquisa sonora, o primeiro álbum do Afrika Gumbe é também uma pesquisa linguística, afinal os seus integrantes foram estudar o dialeto nigeriano Yoruba (Iorubá) para escrever letras. Os temas, cuja tradução nunca saberemos, são embalados por ritmos populares como a Juju Music, Gumbé e o Afrobeat, aqui revestido de Afropop. Os vocais são bem cuidados e não fosse pelas informações da ficha técnica a música do Afrika Gumbe seria facilmente consumida como um produto legitimamente africano. A falta de fotos no projeto gráfico alimenta ainda mais a sensação de que isso não pode ter sido feito por uma banda brasileira. Aqui o projeto gráfico é ótimo, sem letras, mas com quadrinhos no encarte e capa desenhadas por Tarso Pessurno.

           O álbum sem titulo lançado pela gravadora paulistana Eldorado foi bem recebido pela mídia especializada, mas não chegou ao público. O caráter pouco comercial do disco levou o Afrika Gumbe a um hiato de 23 anos até a reformulação da banda e da proposta sonora que originou seu segundo disco, "Meu refrão inquieto", dessa vez com letras somente em português.

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A Grande Trepada "Rockabilly Voodoo" (Polvo Discos, 1994)


           Depois de seis anos de shows, demo tapes e de participar da primeira coletânea em vinil de bandas de psychobilly, A Grande Trepada lançou seu primeiro disco. Aproveitaram bem o repertório acumulado, afinal são 30 músicas em mais de uma hora de psycho, rockabilly e rock'n'roll.

           As canções não ultrapassam os dois minutos. Foram regravadas as músicas presentes na coletânea "Devil Party" - "Freud", "Dó-ré-mi-fá Baby" e "Surf Drácula" - somadas as outras 25 músicas da demo tape "Voodoo Tapes", de 1993, que deram origem ao primeiro disco d'A Grande Trepada, também conhecida como Big Trep.

                 Os temas conhecidos do psychobilly estão em "Vampiro adolescente", "Bat funeral", no psycho(trópico) "Mamãe quero ser junkie" e no psycho-pornô "Carneirinho", uma boa história sobre o carneirinho fofo que virou ator de filmes proibidos e que, depois de 15 anos preso por tráfico, acabou trabalhando num posto em Minas Gerais - oh imaginação! "Elvis" faz ode ao Rei do Rock, mas assassina o ídolo em 1958, quando Elvis entra para o Exército norte-americano. Há regravações para Stray Cats, "Cross of love", Eddie Cochran, "Milk cow blues", e Buddy Holly, "Oh! Boy".

Bizz, edição 104, março de 1994
                 Também têm baladas românticas distantes (mas não muito) do submundo, como no rockabilly apaixonado de "Tudo que você quer" e "Dança do acasalamento" e no doo wop sacana de "Sonhei com você", esta escrita em parceria com Luís Antônio 'Skunk', um dos fundadores da "hemp family", falecido antes do estouro do Planet Hemp e homenageado no álbum da Big Trep.

              A canção que dá título ao disco traz um rockabilly de festa, assim como a divertida "Encontro com o Diabo". Letras sobre narrativas sexuais também entram nos temas, nesta a AIDS aparece como um fantasma a assombrar "Balada sangrenta" e "Sex appeal", esta com um discurso pró-sexo oral também como forma de afugentar o vírus que levou Skunk e tantas outras pessoas no início da década de 90.  

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Cadão Volpato "Tudo que eu quero dizer tem que ser no ouvido" (Outros Discos, 2005)


                    Mais conhecido como jornalista, escritor e vocalista do Fellini, Cadão Volpato também se enveredou num trabalho solo. Não foi a primeira vez que Cadão buscou registrar suas composições fora da banda que o tornou conhecido no rock brasileiro. No começo dos anos 90, sob o nome de Funziona Senza Vapore e acompanhado de Stela Campos, Cadão gravou um disco, que ficou perdido por mais de 10 anos.

                Em "Tudo que eu quero dizer tem que ser no ouvido" Cadão assume todos os instrumentos num disco basicamente conduzido por guitarra e voz. São 10 canções um tanto apaixonadas distribuídas em breves 25 minutos. As referências de cinema e literatura tão presentes na obra do Fellini como nos textos de Cadão, marcam as letras do álbum, que muitas vezes cria passagens cinematográficas para narrar ações e desejos.
Laboratório Pop, Edição 04, Abril de 2005
              Lançado pelo selo paulistano Outros Discos, o disco teve uma repercussão restrita aos fãs do Fellini, a espera de algo que lhes remetesse aos velhos trabalhos de Cadão, é provável que os fãs ficaram decepcionados. O projeto gráfico traz desenhos de Cadão Volpato sob o mesmo fundo rosa choque e letras escritas à mão. Houveram poucos shows para promover o disco, com uma banda reduzida ao Cadão acompanhado de sua guitarra.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Black Future "Eu sou o Rio" (Plug/BMG, 1988)


          Márcio Bandeira estudava música e no começo dos anos 80 se mostrava desinteressado nos estudos de música formal. Márcio pesquisava timbres e bases sonoras em sintetizadores, enquanto Tantão, a outra metade do Black Future, acumulava experiências da noite carioca que pudessem se transformar em letras, tal como crônicas do cotidiano caótico daqueles anos.

               Os dois somaram referências literárias ao pós-punk inglês-paulistano e sediaram sua base sonora num Rio de Janeiro sombrio e violento, que em certos momentos mais parecia São Paulo. Porém, era a Lapa que ainda lembrava o sangue quente de Geraldo Pereira sob a lâmina de zinco nas mãos ligeiras de Madame Satã. Era o Rio em que os protagonistas eram os homossexuais e travestis da Galeria Alaska, a galeria das emoções diferentes, como cantara/homenageava Agnaldo Timóteo há pouco.

          Seu único disco demorou para chegar. Havia a chance de serem registrados antes, num mini-LP então batizado de "Cartas ao absurdo", que não saiu. Melhor assim, pois pouco depois surgiu o álbum completo. O clássico do pós-punk brasileiro chamado "Eu sou o Rio".

         Lançado pelo selo interno Plug, da gravadora BMG, o disco é assombroso. Da parte musical consegue imprimir o caos que as letras comandam. Nas letras, crônicas urbanas de um Rio de Janeiro sujo, das favelas que fedem a mijo, como afirmam no anti-hino "Eu sou o  Rio", uma homenagem que deveria frequentar qualquer seleção de canções sobre a terra de São Sebastião.

          Cercados de figurinhas caras ao pós-punk nacional, Edu K e Biba Meira (DeFalla), Alex Antunes (Akira S. & As Garotas que Erraram), Ronaldo Pereira (Finis Africae), Edgard Scandurra (Ira!) e Thomas Pappon (Fellini), dentre outros, o Black Future criou o disco mais obscuro do gênero que tendia aos sons difíceis. "No nights" (que nas participações especiais trouxe o "dream team" do pós-punk nacional) tangencia um funk branco experimental, "Sinfonia para um morto" é densa, construída sobre uma base de baixo marcada e repetitiva. O caos surge latente nos ruídos de "Piada", insinua pânico em "Teatro do horror" e até incita alucinações niilistas na ótima "Bem depois". 
Bizz, edição 35, junho de 1988


           Já disseram por aí, e vale reafirmar: o fato de o disco ter saído por um projeto de selo interno de uma grande gravadora por si já é bastante curioso. Não há como uma grande gravadora ter interesse por um trabalho tão denso e sombrio a não ser que haja um interesse estético, porém, nenhuma gravadora brasileira bancaria um disco sem interesses comerciais. Mas, assim o fizeram. O disco não foi trabalhado pela gravadora e tanto o selo Plug quanto o Black Future afundaram na passagem para os anos 90.

          A dupla Tantão e Márcio sonham em ver o disco relançado, projeto que nunca saiu do papel. Entretanto, "Eu sou o Rio" se tornou um disco cultuado, mesmo que pouco ouvido. Ainda nos dias de hoje é difícil passar incólume pelas suas faixas. Causar incômodo também desperta atenção.

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

V.A. "Do Lundu ao Axé: Bahia de todas as músicas" (Independente, 2000)


              Um projeto ousado homenageou a música e os compositores baianos do século XX. A ousadia está na abrangência do projeto que tenta dar conta de vários ritmos criados ou absorvidos pela música baiana. O resultado é ótimo e rendeu 30 novas interpretações de 24 cantores e compositores, versões cuidadosas nos arranjos e na escolha de artistas e repertório, além de outras bastante curiosas.

             "Do Lundu ao Axé" é dividido em dois CDs, O primeiro disco abre com o Lundu "Isto é bom, de Xisto Bahia, aqui com a voz de Paulinho Boca de Cantor, considerada a primeira música brasileira gravada em disco, em 1902. "Yayá yoyô" é uma marchinha de carnaval na voz de Xangai e mostra que as canções baianas de carnaval são afeitas a um refrão onomatopaico há muito tempo. O samba "Ya yá baianinha" com Roberto Mendes está mais ligado aa tradição de canções praieiras e preguiçosas. Lazzo homenageia uma das mais belas canções de Dorival Caymmi, "Saudade de Itapoã". O clássico samba de Assis Valente "Brasil pandeiro" é revisitado corretamente por Silvinha Torres. Carlinhos Brown escolhe uma das poucas composições de João Gilberto, o samba bossa minimalista "Bim bom".

          Moraes Moreira vai de dois compositores baianos de uma mesma escola, a de compositores de letras populares e divertidas, Gordurinha em "Baiano burro, nasce torto" e Riachão em "Cada macaco no seu galho". Tonho Matéria domina os sambas "Ilha da maré", um sucesso na voz de Alcione, e Quem samba fica" de Tião Motorista. O samba "O ouro e a madeira" ganha uma versão caprichada na voz de Nelson Rufino. "Verdade", samba de Nelson Rufino, é interpretado por Edil Pacheco, um dos idealizadores do disco junto com Paulinho Boca de Cantor. Paulinho também abre o segundo CD da coletânea, dessa vez interpretando "Alegria, alegria", que por sua vez dispensa apresentações.

         A política "Soy loco por ti América", de Gilberto Gil e Capinam, manteve sua sustentação latina na interpretação de Margareth MenezesA segunda maior homenagem de compositores baianos à capital paulista, "São, São Paulo" de Tom Zé, ganhou voz de Vânia AbreuGilberto Gil empresta suavidade para a lindíssima "Swing de Campo Grande", preciosidade presente em sua versão original no absoluto "Acabou chorare", do Novos Baianos. Gil, ex-vocalista da Banda Beijo, retoma o repertório dos antigos trios elétricos no frevo "Frevo doido" de Osmar.

          Gerônimo, um dos pais da Axé Music, surge cativante na mais surpreendente versão da coletânea, uma salsa para "Maluco beleza", uma delícia de se ouvir! Raimundo Sodré e Luiz Caldas dividem vocais em "Filho da Bahia" e emendam com "Amor de Matar". A voz única de Virginia Rodrigues parece carregada de banzo e doçura em "Ijexá" e "È D'Oxum". Um dos maiores hits da música baiana, e pilar do repertório da lambada, "Fricote", de Luiz Caldas, recebeu uma voz conhecida do carnaval baiano, a de Durval LélisHit da Axé Music e homenagem a Salvador, "O canto da cidade" perde expressividade na voz de Claudete Macedo. A homenagem ao bloco afro Ilê Ayê "Depois que o Ilê passar" encontrou a voz de Márcia Short. O álbum se encerra com o maior representante da guitarra baiana contemporâneo, Arrmandinho nos axés "Nossa gente" e "Canto pro mar"

          O projeto gráfico de "Do Lundu ao Axé: Bahia de todas as músicas" é bastante caprichado, um livreto de 30 páginas traz informações sobre compositores, intérpretes e datas das gravações. Além de textos dos pesquisadores Perfilino Neto e Cid Teixeira. O livreto traz imagens em marca d'água de artesanatos, como redes e jarros, além de instrumentos musicais caraterísticos da Bahia, como berimbau, agogô e congas. O álbum produzido com apoio do Governo do Estado da Bahia não foi lançado comercialmente e suas poucas cópias foram destinadas a centros culturais e acervos públicos. Uma pena, pois se trata de um disco de grande qualidade.
            
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Loxoscele "A day-dream" (Independente, 2002)


               Os ruídos conhecidos de um disco na vitrola antecipam a abertura de "Opivm" e abrem o único disco do quarteto curitibano Loxoscele.

               A produção é caprichada e os arranjos surgem amadurecidos, o Loxoscele tinha apenas um ano de existência até então, no álbum que se divide entre momentos mais densos e outros mais acessíveis. Notadamente se pescam referências às bandas do começo dos anos 90, aquelas chamadas de grunge, mas sem soar óbvio. 

              As letras em inglês - com exceção de "Veludo", "Willian Blake Brazil" e a metade da bela "Without a rhyme" - ajudam na busca de referências externas, afinal não há quase nada de brasileiro no som do Loxoscele. Os vocais muitas vezes lembram os melhores momentos do Afghan Whigs, como em "Infinite". "Astro-now" beira o metal underground norte-americano dos anos 90. Em contraste com a parte acústica de "Willian Blake Brazil", bastante brasileira, uma poesia de Hamilton de Locco. "Dead trip" é um dos destaques do álbum e entrou na coletânea "Novos sons fora do eixo", que capturou a produção musical curitibana pós 2001. O final com "It hurts to be alone" faz homenagem a Tom Waits e chega a enganar o incauto ouvinte que acredita ser uma canção do próprio bardo gárgula.

          Lançado de forma independente, com apoio da Fundação Cultural de Curitiba, "A day-dream" teve uma repercussão mediana até mesmo na capital paranaense, de onde o quarteto não saiu.

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sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Gota Suspensa (Underground Discos, 1983)


             Pouco antes do estouro pop/new wave do Metrô, havia A Gota Suspensa, que trazia na sua formação os mesmos cinco integrantes de um dos maiores nomes do pop rock nacional dos anos 80.

      Seu único disco se tornou esquecido rapidamente. Em menos de um ano a banda enveredaria definitivamente na "nova onda" do rock brasileiro, aqui ainda transitavam na ponte imaginária que ligava resquícios de rock progressivo à new wave sombria da capital paulista.

             Enquanto temas instrumentais dialogavam com o rock progressivo, "High society", "Voyage" e "Lotus", canções com a voz de Virginie adicionavam new wave ao cantar sobre amores urbanos, como em "Convite ao amor". A versão demo desta canção trazia outro título, "Pelas ruas do centro", que também era a frase do refrão depois substituído por uma frase em francês, idioma pátrio de Virginie. O francês garante letra também na progressiva "Pourquoi?".

             A instrumental "Voyage" aproxima A Gota Suspensa dos nomes contemporâneos da Vanguarda Paulistana. "As aventuras do Homem Arame" é new wave até a medula, conta a história bobinha de aventura e amor em quadrinhos entre do personagem título com a Mulher Jujuba. Uma das melhores do disco.

           O álbum lançado pelo desconhecido selo Underground Discos e Artes mostra uma banda que estava pronta para alçar vôos maiores, eram pop mesmo divididos entre a new wave e o rock progressivo. Seu único disco hoje é objeto admirado entre pesquisadores de rock progressivo brasileiro, mas não se trata de um disco de rock deste estilo. No ano seguinte ao lançamento A Gota Suspensa deu origem ao Metrô e no ano seguinte saia "Olhar", repleto de hits.

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Lory F. Band (Cogumelo Records, 1996)


                  Lory Finocchiaro não chegou a ver seu único disco pronto. A roqueira gaúcha morreu antes, em 1993, vitimada pela AIDS. Durante seus 34 anos Lory gravou várias demo tapes e desde que se descobriu doente, em 1988, juntou forças para finalizar um disco. Um álbum de fôlego, mas incompleto. Este só viu as luzes na noite em 1996 a partir da iniciativa familiar das irmãs Laura e Deborah Finocchiaro e Fernanda Chemale, com financiamento da Prefeitura de Porto Alegre e lançamento do selo mineiro Cogumelo Records, então distribuído pela Velas. 

Showbizz, ed. 136, novembro de 1996
             O disco respira ares setentistas divididos entre rocks pungentes, "Baleada noturna", "Forças" e "Wasting time", esta com Lory no baixo, seu instrumento habitual, e voz de Chico Ferretti. Transes folk na ótima "Time runaway" com seus vocais embalados em gospel-soul. Edu K dá as caras em "Get together".

                 Há baladas dignas dos bons momentos do rock brasileiro dos anos 80, "Pro amor viver em paz", "Fera solitária" e "Vantagem", ambas com o sax onipresente de King Jim, parceiro de Lory e figura importante no álbum que também presta homenagem ao guitarrista Marcio Ramos falecido em 1994 em decorrência da mesma enfermidade que abateu Lory.

                Um bom disco de rock'n'roll, um tanto triste pelas circunstâncias em que veio ao público, mas bastante feroz. Se havia algo a ser dito e uma memória musical que não podia permanecer escondida, este álbum cumpre muito bem a sua função.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Retrofoguetes "Cha cha chá" (Indústrias Karsov, 2009)


                  Das cinzas de um dos maiores patrimônios do underground baiano, o Dead Billies, surgiu em 2002 o trio de surf music Retrofoguetes. "Cha cha cha" é seu segundo álbum. Um dos grande discos de surf music brasileiros. 

                O álbum por vezes foge da surf music tradicional, o que o torna ainda mais atraente, pois há muitos instrumentos que ganham espaço em meio aos temas, como  acordeão no tango "Constelación", os metais quentes no suingue latino de "Maldito mambo!", o circo russo criado no arranjo de "Mademoiselle Zazel". O disco é algo como uma volta ao mundo em 44 minutos. 

               O guitarrista Morotó Slim solta a voz no country'a'billy "Wreining rouing mai maind", enquanto que "Enmascarado" é tema digno de um filme de western. O passado psychobilly se revela na ótima "Um diabo em cada garrafa". Todas as canções são de autoria do trio, por mais que você acredite veementemente já ter ouvido algum destas músicas em algum filme por aí. Ledo engano.

                "Cha cha chá" foi produzido pela dupla andré t. e Nancy Viegas. O projeto gráfico do álbum prova que uma banda essencialmente instrumental pode, e deve, cuidar bem da apresentação visual de um disco, aqui a cargo das ilustrações do baterista Rex. O álbum recebeu elogios da crítica especializada e foi eleito entre os melhores discos de 2009 pela revista Rolling Stone Brasil.

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