segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Os Cachorros das Cachorras (Independente, 1997)



                    Este é o único disco de uma das principais bandas de Brasília da década de 90, Os Cachorros das Cachorras. 
      
                 Álbum totalmente integrado com a renovação da música brasileira da segunda metade da década de 90, repaginada esta que envolve os projetos regionalistas/globais anunciados pelo manguebeat poucos anos antes, e da nova MPB, aqui representada pela participação do Chico César em "O sexo dos animais (Vovô ja teve volúpia)", também adaptada no repertório do Zeca Baleiro.

             O álbum é cheio de informação, musicalmente variado, transita entre vários gêneros sem medo, tem bolero, reggae, levadas de maracatu, maxixe, rock e "um tiquinho assim" de forró. Os arranjos de sopro demonstram uma preocupação com a construção musical do disco, que soa grande.

              Algumas letras são bem humoradas e provocativas, revelaram um dos bons compositores daquela geração, Gérson Deveras, ou KaphaGérson. O reggae "O amor louco de pedra (mancoeba's reggae)" é hilariante.

              O álbum Os Cachorros das Cachorras também contou com a participação de uma das maiores vozes da música brasileira. Abaixo, Gérson dá detalhes do dia em que Nelson Gonçalves gravou "Baião de dois Bolero-lero".


Naquela mesa (de som) tava faltando ele

                                                                                              (por Gérson Deveras)

                             Foi uma aventura muito espontânea a de gravar com o Nelson Gonçalves nos idos de 90. Assistimos a um show dele dentro de um projeto do qual também participamos chamado Temporadas Populares e como tenho uma música chamada Baião de Dois Bolero-lero que eu entoava imitando o Metralha* e que entraria no nosso disco, eu e o Alfredog (Alfredo Bello), resolvemos convidá-lo a gravar conosco, com fé em nosso trabalho e no altruísmo daquele sujeito sensato e positivo com quem nos deparamos. 

                     Ele topou fazer a gravação de pronto, com a mesma disposição de um motorista que pára para dar carona a alguém num reflexo de bondade súbita. Disse que o procurássemos no hotel no dia seguinte e assim o fizemos, munidos de um gravador dat, cedido pelo amigo pianista Ricardo Nakamura. Ao subir para o seu quarto, autorizados por ele, recebeu-nos se esgueirando, com metade do corpo atrás da porta, provavelmente pra esconder sua lendária prótese peniana, pois estava de ceroula. Pediu que o esperássemos na barbearia do hotel. 

                   Desceu em poucos minutos meio pigarreando, sentou-se na cadeira do barbeiro, tomou os óculos do mesmo emprestado e lendo a letra que eu havia anotado numa folha de papel, pediu que eu repetisse umas duas ou três vezes a melodia e gravou dois trechos da música com a precisão de um exímio espadachim, sem no entanto deixar de observar o inusitado da situação num comentário que reproduzimos na track: "tsé mas isso nunca aconteceu comigo na minha vida, é a primeira vez". Primeira e única. Viva o eterno Boêmio do Brasil!

* apelido que o Nelson tinha por causa da gagueira, flagrante quando não cantava 

                  Quer ouvir? Download  aqui!

                  Também disponível no Youtube!

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