quarta-feira, 22 de julho de 2015

Fernando Pellon "Aço frio de um punhal" (Independente, 2010)


                    Fernando Pellon é um compositor de sambas de características únicas, versa com tamanha propriedade sobre os temas que raramente faz par com outros compositores, ou com outros sambas.

                 No começo da década de 80, Fernando Pellon compôs as letras do disco coletivo “Cadáver pega fogo durante o velório”, álbum que passou quase despercebido quando lançado, em 1983, mas que cada vez mais tem sido tratado como objeto de culto por pesquisadores e curiosos sobre os caminhos escusos da MPB.

                        Se os primeiros sambas não deram camisa para Fernando Pellon, foi como geólogo que o compositor encontrou sua sobrevivência profissional. Os sambas ficaram num outro plano, mas não tão distante que não pudesse visitá-los e lapidá-los. Assim surgiu o “Aço frio de um punhal”, segundo disco do sambista mais obscuro do Brasil, lançado 27 anos depois de sua primeira tentativa musical.

                          Com a caneta na mão Pellon demonstra a boa verve, mas quando solta a voz algo lhe falta. Neste caso o autor não é o seu melhor intérprete, a voz miúda não arrisca passagens afinadas, ficou mais como um recitador de seus belos versos, como em “Rigidez cadavérica”, que abre o álbum.

                       Quando convida outra voz a situação muda. Em “Jardim da saudade” a voz de Valéria Ferro empresta beleza feminina aos versos tão lúgubres quanto românticos. Valéria também faz duo com o compositor no belo choro-lamentação de “Ciclo das águas”. Os temas urbanos e noturnos retratam melancolia, abandono e mágoas de amores desfeitos e fazem de Pellon um cronista do Rio de Janeiro pós-moderno, mas ainda calcado numa trajetória de sambas infelizes, à moda de Lupicínio, Jards e do próprio Pellon, escondido na sombra de sua própria criação.

                  Lançado por conta própria, “Aço frio de um punhal” ainda é um disco desconhecido, condição que deve avançar por mais alguns anos. O disco não recebeu nenhuma divulgação e sua distribuição alcançou poucas mãos. O projeto gráfico é luxuoso e segue um padrão mórbido que tanto rodeia as letras do compositor. Na primeira página do encarte, outro bom letrista de samba, Aldir Blanc, faz às honras ao Pellon.

                         Quer ouvir? Download aqui!
                         Também disponível no Youtube!

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