terça-feira, 24 de março de 2015

Mercenárias "Cadê as Armas?" (Baratos Afins, 1986)


              O 25º lançamento da Baratos Afins é um dos campeões de vendas do selo paulistano. A estreia do quarteto Mercenárias vendeu sua tiragem inicial de mil cópias em menos de um mês. "Cadê as armas?" seguiu o caminho conhecido dos bons discos independentes brasileiros: bem recebido pela crítica, mal divulgado e ignorado pelas rádios. Numa reportagem sobre o disco, publicada na revista Bizz, a banda constatava o embuste da sobrevivência artística no underground:

"Não há como sobreviver num esquema alternativo no Brasil se você não tem recursos para bancar-se o tempo todo". Sandra Coutinho completa com uma desmistificadora visão do esquema alternativo: "Quando se é independente as concessões nos preços de shows e a dependência financeira sãos enormes". E, portanto, "a gente vai (sic) conquistar a independência numa grande gravadora". No raciocínio de Sandra, a gravadora representa a possibilidade de ter acesso à infraestrutura para o trabalho ir para frente (...) "o que dá mais tranquilidade é ter feito um disco que a gente sabe que irá pra frente (...) o que dá mais tranquilidade é ter feito um disco que irá para as lojas", diz Ana, guitarrista"

       Pela citação acima é perceptível o sentimento de frustração d'As Mercenárias com todo o meio independente em que estiveram envolvidas até o contrato para o segundo disco. Sobre "Trashland" lançado pela EMI-Odeon pode-se afirmar que não trouxe tranquilidade para o quarteto. Um mês após o lançamento a EMI-Odeon rompeu o contrato com o quarteto. O disco teve péssima distribuição e consequentemente uma venda catastrófica, no mesmo ano de 1989 descontente as garotas encerraram atividades pela primeira vez.

          Entretanto, as intempéries não ofuscam a bela e curta discografia. Sobre "Cadê as armas?" pode se afirmar sem medo de que se trata de um dos melhores discos de punk rock nacional. Canções rápidas,, tanto na duração quanto na velocidade de execução. O disco abre com "Me perco", uma pedrada regravada pelo Ira! no disco "7", de 1998. "Polícia" e "Santa igreja" são outros destaques, pouco tempo depois do lançamento os mesmos temas surgiriam em duas canções do disco "Cabeça dinossauro", do Titãs. Alçadas à condição de hit do disco mais rock do então octeto paulistano lançaram sombras sobre as canções da Mercenárias que abordavam o mesmo tema e de mais pungente.
Revista Roll, edição 38

           Quando desaceleram se embrenham no pós-punk, mais paulistano do que inglês, como em "Imagem" e nas batidas quebradas de "Loucos sentimentos", esta sob vocais narrados de Rosália. As letras são ótimas e anteciparam em uma década o movimento riot grrl, o que pode ser um tanto óbvio por se tratar de uma banda de garotas, mas os temas que retratam opressões do estado e instituições tradicionais estão lá.

        "Cadê as armas?" traz participações especiais de Vange Leonel (1963-2014), João Gordo, Peter Price e Edgard Scandurra. O projeto gráfico é muito caprichado, com fotos de Rui Mendes e arte de Michel Spitale sobre recorte de uma nota de 500 cruzeiros (ou seriam cruzados?). "Cadê as armas?" foi relançado em CD na segunda metade da década de 90, acrescido de três faixas bônus gravadas ao vivo capturam uma banda raivosa, esta edição pode ser conferida logo abaixo.

            Quer ouvir? Download aqui!
            Também disponível no Youtube!

2 comentários:

  1. Respostas
    1. A Rosália é demais. Sou fã da voz e da postura no palco. Volta Rosália!

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