sexta-feira, 6 de março de 2015

Júpiter Maçã "A sétima efervescência" (Antídoto, 1997)


              Enquanto permaneceu no Cascavelletes Flávio Basso compunha essencialmente rock'n'roll, muitas canções rápidas num misto de rockabilly com guitarras surf, levadas meio punk-psychobilly, blues e um bocado de rock inglês sessentista. Alcançou um sucesso popular com "Nega Bombom" e viu sua banda influenciar muitas outras antes de se dedicar a carreira solo. Em 1995, acompanhado dos matogrossenses do Pereiras Azuiz, registrou uma demo tape com boa parte do repertório que daria origem a um dos discos mais cultuados do anos 90, este "A sétima efervescência".

           Com uma produção caprichada e arranjos mirabolantes o rock gaúcho mostrou sua cara mais chapada, altamente psicodélica. Os primeiros segundos do disco, que antecedem "Lugar do caralho", são um boa síntese do álbum todo. Uma passagem bucólica e lisérgica criada sobre ruídos de fitas ao contrário que casam bem com a foto da contracapa, com Flávio, agora Júpiter, com flores de plástico ao lado de um anão de jardim.

          Em "Lugar do caralho" a viagem começa. Sixtie safado que te chama em busca de cerveja barata, LSD, Syd Barret e os Beatles. O erro no uso do pronome pessoal - "pra mim dançar..." -  foi corrigido quando a canção entrou na trilha do filme "Wood & Stock". Em "As tortas e as cucas" um burro psicodélico sobe no lombo do dromedário folk e vaga sozinho dentro do guarda roupa. Calma foi tudo um sonho. Não, é que agora bateu mesmo. A viagem segue.

Showbizz, ed. 150, abril de 1998
          "Quem é Mr. Frog? O que é que ele faz?". Não sei, mas me dá metade do seu micro-ponto. "Eu e minha ex" é uma Tragical Mistery Tour. A orquestra elaborada pelo Marcelo Birck e os lá-lá-lás podem te levar para alguma felicidade forjada, na verdade você precisa de um tempo para pensar e respirar. Depois vai ver que foi uma merda bater um papo com aquela tua ex-namorada e sacar que ela consegue viver sem você.

           Uma harmônica corre gritando aos ouvidos "Eu só fodo com você nesta fase atual da vida que eu tô levando", mas e quanto às outras que me querem? Há uma dúvida existencial quanto à afetividade que paira sob o álbum. A necessidade de ter certezas é proporcional ao assédio de todas as crises. Enquanto isso o pau come. "Walter Victor" conhece todas as boletas, e já foi revisitado pelo Thunderbird numa reencarnação d'Os Devotos de Nossa Senhora de Aparecida.

           A segunda metade do disco é uma espiral que deságua na tua cama, ali tem outro punhado das melhores canções de Júpiter/Flávio. O Ira! surrupiou "Miss lexotan 6 mg garota" e a transformou num quase hit do difícil "Você não sabe quem eu sou" (Paradoxx, 1998). "Essência interior" retoma parte da vontade de ser dois e estar só, agora mais consciente e dolorido. "The freaking Alice (Hippie under groove)" é um convite para uma caminhada longa pelo pasto depois da chuva purificadora, lembrou Rita Lee jururu atrás dos cogumelos. "A 7ª efervescência intergaláctica" desacelera a frequência e lança flash back rápidos do que foram estes 63 minutos.

           O álbum foi lançado pelo selo Antídoto no começo de 1997 e no final do ano ganhou nova prensagem e distribuição nacional pela Polygram. O disco foi bastante elogiado, mas muitos não compreenderam a viagem, como a resenha da Bizz atesta. O que não quer dizer que outros veículos especializados tenham tido a mesma reação, as revistas Dynamite, Rock Press, e o jornal Estado de S. Paulo rasgaram elogios ao álbum. 


Rock Press, ed. 15, agosto de 1998
        Pra cair na estrada Flávio/Júpiter formou um novo trio, que no álbum contou com os irmãos Emerson e Glauco Caruso e ao vivo trouxe Marcelo Gross (bateria) e Julio Cascaes (baixo), e viajou para São Paulo, tocou em festivais importantes como Expo Alternative 98 e Abril Pro Rock. Pouco tempo depois Júpiter já se distanciava do som de "A sétima efervescência" e compunha com novas referências, letras em inglês e francês, e adicionava outros elementos no seu som, entre a Bossa Nova e o Stereolab. E um novo sobrenome, Apple.

         Hoje, beirando os 20 anos, "A sétima efervescência" é visto como um dos principais álbuns do rock brasileiro dos anos 90, entra fácil na lista com os melhores discos do rock psicodélico nacional, até porque não tem pares.
                                                         Aguarda reedição urgente!
  
                                             Quer ouvir? Download aqui!

8 comentários:

  1. Acabei de descobrir teu blog e já gostei!

    Eu tenho alguns títulos (em CD) meio que raros de bandas nacionais, não muitos, mas tenho alguns como Superoutro, o primeiro do Solana e A Mákina Do Tempo. Se tiver interesse me avise que eu ripo em 320 com encarte.

    Uma lista de tudo que eu tenho: https://rateyourmusic.com/list/progshine/my_cd_collection/

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    1. Obrigado Diego!
      Por enquanto eu tenho uma pilha e uma lista de discos para postar, mas um dia isso chegará ao fim, daí eu posso ver algo que você tenha. Obrigado mesmo! Abraços!
      Se quiser fazer algum pedido, manda aí

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    2. Valeu cara :)

      Bom, eu na verdade tinha um monte de pedidos da época que eu comprava a Bizz mensalmente. Achei vários desses discos por aqui :)

      Ao inves de um pedido tenho uma sugestão, pode ser que você já saiba, mas tem um blog que tem uma porrada de Bizz pra download.

      http://rockquadrinhosscans.blogspot.com/search/label/Revista%20Bizz

      Falando nisso, tenho um pedido sim. Se vc tiver aquela famosa edição da Bizz em CD com todas as edições eu quero. Não consegui comprar na época e nunca achei pra download :)

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    3. Diego!
      Cara, eu não tenho esta caixa de cd-roms da Bizz, mas tenho quase todas as edições, me faltam umas 9 para completar a coleção, já desisti de procurar, não encontro. Teve uma época em que eu comecei a digitalizar o que me interessava na revista, daí criei um banco de dados que acesso no meu computador.
      Fico lhe devendo a caixa dos cds, mas se eu conseguir, te avisarei.
      Abraços

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  2. Cara, que merda o cara falou do Júpiter...mostra que nem a bizz acertava...esse mesmo cara aí fala que o disco do Wander q tu postou aqui era rockabilly...jesus!!

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    1. É Rodrigo, pra você ver que muitas vezes uma resenha não é capaz de compreender um disco. No caso do disco do Jupiter dá pra perceber que o jornalista não entendeu nada mesmo.

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