sábado, 28 de fevereiro de 2015

Textículos de Mary e a Banda d'As Cachorra "Cheque girls" (Deck Disc, 2002)


           Belmiro gostava de ser chamado de Mary. Saiu à noite em busca de diversão, mas sem dinheiro. Num banheiro público encontrou três rapazes que fumavam um baseado, ele se aproximou, pediu uma bola e ficou por ali. Logo rolou uma esfregação e a inevitável foda, que era o objetivo de Mary naquela noite de Recife. O sexo foi brutal e no final Mary estava no arregaço e com o cu ardendo. A pirocada foi forte. Deitado no canto do banheiro avaliou o estrago da noite. Com raiva de si mesmo olhava com nojo para o próprio pau. A gilete escondida na gengiva seria agora a ferramenta e no mesmo banheiro público a rola de Mary ficou jogada. A reação química improvável daquele pau e dois testículos, misturado a sangue, plasma, mijo e outras bactérias do banheiro sujo deu origem aos três travestis que formaram o Textículos de Mary.

           A história acima passa longe de uma explicação convincente para o começo de uma das bandas mais absurdamente geniais da história do rock brasileiro. Na verdade, o Textículos de Mary surgiu em 1997 com três vocalistas acompanhados da Banda das Cachorra, mais quatro músicos que ao vivo ganharam nomes de guerra e maquiagens. Tudo era muito difícil, desde o preconceito de músicos heterossexuais que não admitiam acompanhar três vocalistas gays, até produtores que não viam na banda nada além de uma putaria. O momento de ascensão só veio em 2000 depois de um CD Demo acompanhado de um fanzine ilustrado que narra um pouco da história contada no primeiro parágrafo.

      A apresentação do festival Abril Pro Rock de 2001 foi fundamental para que a gravadora Deck Disc se interessasse pela banda. Todo mundo sabia que aquela reunião não duraria muito tempo e que havia boas e divertidas letras, além de uma provocação aos setores mais conservadores que merecia ganhar o público. 
Chupeta no Sesc Pompéia, gravação do Musikaos.
 Foto: Matias Maxx (retirado da Revista Frente, ed. 02)

        O disco "Cheque girls" saiu em 2002, o ano do Textículos, afinal, saíram de Recife para São Paulo, tocaram novamente no Abril Pro Rock, dessa vez com Jon Spencer Blues Explosion e Wander Wildner, entre outros. A mídia tentava entender a banda, diziam até que ali naquelas músicas tinha algo que pudesse ser voltado ao público infantil. Um engano. O álbum é divertido, mas não há como uma criança ouvir "Eu não gosto de michê mas o meu cu gosta" sem querer saber o que é um michê. Exemplos provocativos estão por toda parte, maconha na balada "Menarca", comunismo gay em "Natasha Orloff" (que nome!) e racismo sexual em "Entradas e bandeiras"."Propóstata" ganhou vídeo clipe exibido em raríssimas madrugadas da MTV.

         "Cheque girls" não segurou a onda e logo a Deck Disc já não tinha mais interesse na banda que poucos realmente ouviram. Um raro segundo disco ainda foi lançado, o independente "Bissexuástica" - estes nomes são ótimos! Em 2004 o Textículos de Mary encerrou atividades.

          Quer ouvir? Download aqui!

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