quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Black Future "Eu sou o Rio" (Plug/BMG, 1988)


          Márcio Bandeira estudava música e no começo dos anos 80 se mostrava desinteressado nos estudos de música formal. Márcio pesquisava timbres e bases sonoras em sintetizadores, enquanto Tantão, a outra metade do Black Future, acumulava experiências da noite carioca que pudessem se transformar em letras, tal como crônicas do cotidiano caótico daqueles anos.

               Os dois somaram referências literárias ao pós-punk inglês-paulistano e sediaram sua base sonora num Rio de Janeiro sombrio e violento, que em certos momentos mais parecia São Paulo. Porém, era a Lapa que ainda lembrava o sangue quente de Geraldo Pereira sob a lâmina de zinco nas mãos ligeiras de Madame Satã. Era o Rio em que os protagonistas eram os homossexuais e travestis da Galeria Alaska, a galeria das emoções diferentes, como cantara/homenageava Agnaldo Timóteo há pouco.

          Seu único disco demorou para chegar. Havia a chance de serem registrados antes, num mini-LP então batizado de "Cartas ao absurdo", que não saiu. Melhor assim, pois pouco depois surgiu o álbum completo. O clássico do pós-punk brasileiro chamado "Eu sou o Rio".

         Lançado pelo selo interno Plug, da gravadora BMG, o disco é assombroso. Da parte musical consegue imprimir o caos que as letras comandam. Nas letras, crônicas urbanas de um Rio de Janeiro sujo, das favelas que fedem a mijo, como afirmam no anti-hino "Eu sou o  Rio", uma homenagem que deveria frequentar qualquer seleção de canções sobre a terra de São Sebastião.

          Cercados de figurinhas caras ao pós-punk nacional, Edu K e Biba Meira (DeFalla), Alex Antunes (Akira S. & As Garotas que Erraram), Ronaldo Pereira (Finis Africae), Edgard Scandurra (Ira!) e Thomas Pappon (Fellini), dentre outros, o Black Future criou o disco mais obscuro do gênero que tendia aos sons difíceis. "No nights" (que nas participações especiais trouxe o "dream team" do pós-punk nacional) tangencia um funk branco experimental, "Sinfonia para um morto" é densa, construída sobre uma base de baixo marcada e repetitiva. O caos surge latente nos ruídos de "Piada", insinua pânico em "Teatro do horror" e até incita alucinações niilistas na ótima "Bem depois". 
Bizz, edição 35, junho de 1988


           Já disseram por aí, e vale reafirmar: o fato de o disco ter saído por um projeto de selo interno de uma grande gravadora por si já é bastante curioso. Não há como uma grande gravadora ter interesse por um trabalho tão denso e sombrio a não ser que haja um interesse estético, porém, nenhuma gravadora brasileira bancaria um disco sem interesses comerciais. Mas, assim o fizeram. O disco não foi trabalhado pela gravadora e tanto o selo Plug quanto o Black Future afundaram na passagem para os anos 90.

          A dupla Tantão e Márcio sonham em ver o disco relançado, projeto que nunca saiu do papel. Entretanto, "Eu sou o Rio" se tornou um disco cultuado, mesmo que pouco ouvido. Ainda nos dias de hoje é difícil passar incólume pelas suas faixas. Causar incômodo também desperta atenção.

            Quer ouvir? Download aqui!
            Também disponível no Youtube!

6 comentários:

  1. Ótimo disco. O resumo do cenário final dos anos 80.

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  2. É um disco interessante e bem fora dos padrões do selo Plug realmente, mas não diria que é o disco mais obscuro da época. Acho que o álbum do Cabine C, ganha nesse quesito. Tem ainda o "Último Número" que também é bem sombrio (Vide a música "Perjúrio").... Mas foi um excelente post! Obrigado!

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  3. Junto com Brasil, do Ratos de Porão, e Cadê as Armas e Trashland, ambos das Mercenárias, sãos os melhores dos anos 80.

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  5. rapaz, voce não fala nem de mim e nem do olmar...
    a gente tem uma parcela de importância na formatação sonora da banda...
    fora isso, está bem legal a sua resenha

    abraço
    edinho (guitarrista do black future)
    :D

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    1. Edinho, é uma honra ter seu comentário aqui. Obrigado! Sim, faltou citações a você, ao Olmar, uma pena. Esse negocio de reproduzir uma "crítica" paulista que valorizou o disco pelos seus produtores e não pelos seus compositores, tomou o espaço de destaque no meu texto, mas é injusta, certamente. Espero poder consertar isso numa revisão, daí seria ótimo que você lembrasse de algumas ocasiões. Isso poderia ser logo, né, até pra aproveitar um pouco esse interesse renovado sobre o disco do Black Future. Um abraço, Edinho! (Sabia que tem um texto sobre o disco do Kongo por aqui?)

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