terça-feira, 25 de novembro de 2014

Lobão "A Vida é Doce" (Universo Paralelo, 1999)


              O dia 25 de novembro de 1999 ficaria marcado como o momento da "segunda revolução fonográfica independente nacional" - a primeira aconteceu em 1977 com o disco "Feito em casa", de Antonio Adolfo - data escolhida para o lançamento de "A vida é doce". Ainda não houve uma reavaliação do momento em que Lobão lançou seu 11º disco, mas o esquema que envolveu o lançamento, as estratégias de vendas, a repercussão do álbum, enfim, toda a história do disco vale a antecipação do blog Disco Furado em eleger aquele momento específico como marco na transição de um modus operandi da produção independente brasileira.
  
              Em 1999 Lobão vinha de duas experiências em gravadoras distintas. Lançara "Nostalgia da modernidade", pela Virgin, em 1995, e "Noite", pela Universal, em 1998. Os dois trabalhos foram bem recebidos pela crítica, mas venderam pouco e passaram quase despercebidos pelo público. Pode-se afirmar que os dois trabalhos deram um único hit, a canção "A queda", do disco de 1995. Para quem estava acostumado a emplacar mais de um sucesso por disco lançado, a segunda metade da década de 90 foi de vacas magras.

                Sem gravadora e com disposição para terminar a "trilogia do ostracismo" iniciada com o "Nostalgia da modernidade", Lobão começou o ano de 1999 buscando alternativas para retomar as rédeas da carreira, o que envolveu muito planejamento e estudo. Havia um plano, gravar o melhor disco de sua carreira sem o aparato de uma grande gravadora. E havia uma "logística", criar seu próprio selo, a Universo Paralelo, e comercializar os discos em bancas de jornal. 

                A ideia não era novidade. Ary Toledo vendia CDs de piadas encartadas numa revista e a revista Placar distribuiu CDs com tiragem de 400 mil unidades, por exemplo. Lobão aproveitou o filão e se deu bem. O que se viu depois foi uma sequência de lançamentos encartados em revistas prontos para chegarem às bancas.

               As canções de "A vida é doce" foram testadas em shows acústicos e o trabalho era anunciado em qualquer oportunidade, tanto que depois do lançamento Lobão recrutou uma banda enxuta, apenas baixo e bateria, e caiu na estrada, seja para levar o novo disco para novos lugares, seja para palestrar sozinho sobre produção independente em Universidades e espaços públicos. A metralhadora voltara a funcionar e os alvos eram grandes gravadoras, a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), a campanha anti-pirataria, o jabá, Herbert Vianna... Enfim, Lobão tinha o que dizer e ganhou espaço na mídia, exceto nas rádios.

Bizz, edição 174, janeiro de 2000
             Já havia uma expectativa sobre "A vida é doce" e poucos ousaram afirmar que o disco não merecia ser ouvido. Tratava-se do trabalho mais inovador de um músico da geração do rock brasileiro dos anos 80. Havia a presença da música eletrônica, seja nos beats de "Tão menina" ou no Trip Hop, "Universo paralelo" e "A vida é doce", algo que também já estava presente no disco "Noite", o mais eletrônico da discografia do Lobão. As letras carregavam uma urgência e dialogavam com temas pesados, tais como assassinato, em El desdichado II", e desespero, em "Mais uma vez", mas também surgiam românticas e apaixonadas, em "Vou te levar" e "Uma delicada forma de calor", esta em dueto com Zeca Baleiro, uma das melhores do disco. Pouco depois Zeca Baleiro foi cobrado pela sua própria gravadora, a MZA de Marco Mazzola, pela participação indevida. O álbum se encerra com uma bossa nova eletrônica e sombria que atualizava o amanhecer solitário do Rio de Janeiro.  
    
                 A crítica exaltou o álbum, principalmente a revista Bizz que apoiou o projeto desde o seu esboço. Depois do lançamento a revista trouxe de brinde o CD-Rom  "Lobão inédito", com duas canções do álbum recém lançado, "A vida é doce" e "mais uma vez", e making off da gravação.

             Nas entrevistas de lançamento Lobão voltava aos mesmos temas e levantava projetos, como a de numeração de CDs e DVDs, que entrou em vigor em 2003, mas num momento em que as vendas já não representavam tanto para que pudessem ser escondidas, falseadas ou forjadas pelas grandes gravadoras. A lei está em vigor até os dias de hoje.

           As gravações aconteceram de março a setembro de 1999 no estúdio do baterista Jongui, com participação de músicos amigos como Sacha Amback, teclados e programações eletrônicas, e Dé Palmeira, baixo, produzido por Lobão, Jongui e Maurício Barros. Nas entrevistas de divulgação Lobão afirmava que a produção do disco, que contou com vocais gravados dentro de armários, corredores e banheiros, era melhor do que o oferecido por uma grande gravadora. Numa reavaliação posterior Lobão se contradisse ao concluir que o disco carecia de um peso que a mixagem não privilegiou.

           O projeto gráfico incluía o disco como parte da revista "Lobão Manifesto", um encarte de 20 páginas com letras, fotos e poesia concreta. As estrategias de vendas guardam uma curiosidade que ganhou as páginas da biografia do músico, o livro "50 anos à mil". No final de 1999, Lobão retornou ao palco do Domingão do Faustão, depois de 10 anos sem pisar na emissora de Roberto Marinho, e armou de divulgar que seu novo álbum, numerado e vendido em bancas, havia atingido a marca das 50 mil cópias, o que não era verdade. Mas Lobão também prometeu na ocasião que a nova tiragem de mais 50 mil cópias já estaria nas bancas de todo Brasil no dia seguinte, uma verdade. Lobão entrou no novo milênio com um disco de ouro independente e ainda alardeava com orgulho que já havia assinado algumas cópias da versão pirata.

               A experiência valeu para outros artistas, tais como Dr. Sin e Karnak, e para a criação da revista Outracoisa. O projeto de vender CDs em banca não foi completamente abandonado, ainda que tenha arrefecido no final dos 00's. O suficiente para marcar "A vida é doce" na transformação da linha evolutiva das produções independentes.  

              Quer ouvir? Download aqui!
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Um comentário:

  1. Muito bom seu texto. Esse disco realmente é muito bom. Tem umas coisas tradicionais, mas muita coisa inovadora. Lembro de ter escutado na época e só voltei a ouvir 10 anos depois. A música "A vida é doce" é uma obra-prima. Obrigado pelo link!

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