sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Little Quail and the Mad Birds "Lírou quêiol en de méd bârds" (Banguela, 1994)


              O trio brasiliense Little Quail and the Mad Birds (LQMB) pode não ter conquistado fama durante os nove anos em que esteve em atividade, porém, desde as primeiras demo tapes a banda já dava mostras de que era um dos bons nomes da nova geração do rock brasileiro. Aquela surgida no começo dos 90's em meio a ressaca criativa do rock nacional da década de 80 e os novos ritmos populares que incluíam lambada, dance music, sertanejos e axés principiantes.

               O LQMB chamava a atenção do público e imprensa alternativa, mas suas qualidades aparentemente não poderiam ser suficientes para garantir seu sucesso, afinal, o trio não carregava nenhum "manifesto das codornas", não levantava bandeira para nada e muito menos transitava na busca por incorporar elementos brasileiros ao seu som. Pelo contrário, o som do LQMB pode ser definido no amálgama simples de Rockabilly/Psychobilly+Surf Music+Humor. A maior qualidade do trio era a de não soar derivativo de ninguém, muito menos de suas bandas contemporâneas ou conterrâneas. As características do LQMB eram simples e facilmente reconhecidas, mas também eram únicas.

             Antes de chegar ao primeiro disco o LQMB havia tido uma composição de sucesso. A nonsense "1,2,3,4" entrou na coletânea "A vez do Brasil", junto com outro hit, "Aquela", e ganhou a programação das rádios de muitas capitais. Uma demo tape produzida no ano anterior chegou ao assombroso número de 1200 unidades vendidas e alavancou a banda, ao mesmo tempo que também ajudou a formar um circuito de venda e troca de fitas demo que antecedeu a criação de alguns selos independentes do anos 90, como o Banguela. 

          Os vídeo clipes de "Cigarette", de 1991, seguidos pelos vídeos de "1,2,3,4" e "Família que briga unida permanece unida", entraram na programação da MTV Brasil. O clipe de "Essa menina" chegou à segunda colocação entre os mais pedidos do canal, a canção de amor mais divertida do álbum também ganhou as emissoras de rádio.

                 "Lírou quêiol en de méd bârds" abre com uma reinterpretação da vinheta de abertura do jogo Stock Car e segue rápido por pouco mais de meia hora, o intervalo curto de menos de 1 segundo entre as canções segura o pique do disco que não dá trégua. As canções curtas e rápidas te pegam pelos ouvidos, logo vem "1,2,3,4", acrescida de um coro que contou com membros de 73% das bandas mais legais que haviam na época, e "Berma is a monster" que garantem o chacoalhar das cabeças, movimentos de air guitar ou air drums são sintomas inevitáveis. "Família que briga unida permanece unida", cadencia a velocidade, mas a versão animal de "Samba do Arnesto" retoma o ritmo dos primeiros segundos do álbum.

Revista General, edição 08
                   "Baby now" e "O sol eu não sei" carregam o humor ingênuo e pancadaria do trio, tudo muito simples, não mais que três acordes e letras que não dizem absolutamente nada, o mesmo vale para o ska "Mamma mia". "Cigarette" abre a tríade das melhores do álbum, junto com "Essa menina" e "Azarar na W3", letras espertas e uma energia contagiante. A letra de "Azarar na W3" deu margem para várias interpretações, tais como namorar na internet - uma novidade pouco acessível para aqueles dias - ou "azarar" travestis. Na verdade a letra fala sobre andar de carro e fumar maconha numa das pistas largas de Brasília/DF. "Pump up the bird" é um cartão de encerramento e brinca com a dance music, meio Technotronic e Locomia. Uma faixa escondida no CD traz mais quatro minutos tosquíssimos do LQMB ao vivo.

                 Com este trabalho o trio tocou em tudo quanto era palco que os convidava, abriu show importantes, como Ramones e Toy Dolls. Em 1996, com o Banguela de atividades encerradas, a banda assinou com a estreante perna brasileira da Virgin Records e lançou um segundo disco, "A primeira vez que você me beijou". A Virgin durou pouco e o Little Quail também, depois de uma experiência frustrante na segunda noite do festival Close Up Planet, em dezembro do mesmo ano, na qual o LQMB não tocou, o trio se enfraqueceu e encerrou sua trajetória poucos meses depois.

            "Lírou quêiol en de méd bârds" foi lançado nos formatos CD, LP e K7, contudo a tiragem pequena e a distribuição mal planejada fez com que o disco não circulasse, o que não foi empecilho para que se sua tiragem se esgotasse rapidamente.

            Quer ouvir? Download aqui!

5 comentários:

  1. Pow, eu tenho esse CD e ainda vi esses caras tocarem em uma extinta casa noturna de Florianópolis, lá pelos idos de 94 ou 95. Pouca gente conhecia esses loucos, e eu e mais uns brothers com um licorzinho de menta na cabeça, tivemos a frente do palco pra agitar sem parar. Mas o legal é que no som deles você agitava com ou sem nada na cabeça. Vou até pegar meu CD pra matar a saudade! Muito massa!!!

    Leandro Albuquerque

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    1. Leandro!
      É isso mesmo. Os shows agitavam mesmo que poucos conhecessem a banda. Eu nunca vi o Little Quail ao vivo, mas sei que tem uma energia fudida neste som!
      Abraços!

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  2. Cheguei a ter esse e outros do selo Banguela, mas devo ter perdido por aí.
    O disco é muito bom e os clips tocavam direto na mtv. Essa história do baixista ter se atrasado e por isso eles perderam a chance de tocar nesse close up festival é lendária. O Autoramas tem muito mais
    atitude que o little quail, mas a inocencia das músicas tornava tudo mais legal. Ah, sabia que o gabriel ta escrevendo um livro sobre as demos dos anos 90?

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    1. richardjal!
      Sei do livro do Gabriel sim. Tô ansioso para ler. Acho que o nome é Magnéticos 90. Deve ser cheio de boas histórias e ele tem experiência para contar muita coisa boa sobre fitas demo. Acho que ele coleciona isso também. hehehehe
      Esta história do Close up é triste. Parece que enfraqueceu a banda.
      Realmente, as letras do Little Quail são ótimas, até as mais nonsense, são inocentes, como você disse. No Autoramas as letras ainda carregavam um pouco disso, lá nos dois primeiros discos. Mas o Autoramas mudou.
      Abraços!!! Desculpe a demora em lhe responder, final de ano é meio que fim do mundo por aqui. eheheheh Já te mandei um adesivo do blog? Manda um email: marcelo_mara@hotmail.com

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  3. Que blog massa, parabêns, bro! Sou fã da pessoa e do artista Gabriel Thomaz, tudo que o cara faz é digno no mínimo de elogios pela criatividade e bom gosto! Coleciono tudo que seja do Banguela ou da Gravadora Discos (esse mais difícil). Valeu, e vida longa ao blog!

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