sábado, 11 de outubro de 2014

V.A. "Essence - Tribute to New Order" (The The Records, 1997)


              Depois do álbum "Republic", de 1993, o New Order entrou num jejum discográfico que só foi quebrado no começo do novo milênio com o álbum "Get ready". Neste tempo de oito anos o quarteto de Manchester recebeu seu primeiro disco em tributo. Curiosamente um disco em que apenas nomes da música eletrônica brasileira versionavam à sua maneira alguns clássicos de uma das principais bandas dos anos 80.

               As bandas escolhidas não são nomes fáceis de se encontrar, com exceção do Harry, Tétine e Símbolo, a maioria surge quase como desconhecidos. Naquela época o cenário da música eletrônica, e suas ramificações, vivia um bom momento. Algumas experiências anteriores de selos e projetos já haviam colocado a música eletrônica como parte da produção underground, contudo, o melhor momento do estilo no Brasil viria nos anos seguintes, com a popularização de DJs e casas de shows voltadas à música eletrônica.

               "Essence" traz 15 canções do NO revisitadas, algumas guardam características com as originais, outras surpreendem pela alteração. Exemplos deste temos com o Morgue com uma versão industrial par "Thieves like us" e o Individual Industry que tirou toda a melodia de "Bizarre love triangle" e a transformou numa massa eletrônica densa. "Fine time" ficou mais agressiva com o Biopsy. O curitibano Paulo de Tarso, sob o pseudônimo Clone DT emenda duas da coletânea "Substance", "Ceremony" e Tempation", ambientações de fundo com um vocal tímido e desafinado, na linha Barney Summer. O Nude tomou um dos grandes hits do NO, "Perfect kiss", e sem o baixo orgânico de Peter Hook e canção perde emoção.

               Até o lançamento do tributo o último hit do NO fora a canção "Regret", a escolhida pelo Toward the Cathedral, por sinal a que mais se assemelha ao original, com exceção do vocal narrado e sem melodia no refrão. Um dos principais nomes da música eletrônica nacional - ou seria uma banda de rock que faz música eletrônica? - o Harry, aqui reduzido apenas ao guitarrista Hansen, com o auxílio de Paulo Eduardo na programação eletrônica, e realocado em Fortaleza/CE, lembra o velho Harry, pesado e soturno em "Doubts even here", canção igualmente soturna do primeiro álbum NO, a produção deixou os vocais soterrados em distorção e reverb. O Resonate escolheu "Your silent face" e não deturpou a beleza original da canção. Um ou Não com o vocal doce de Paula Martins, acompanhada da outra metade do Tétine, Bruno Verner, injetam melodia até então desconhecida em "We all stand". 'Confusion" teve um versão house cometida pelo Oil Filter.

               "True faith" surge pesada e bela nas mãos do Aghast View, mantiveram o synth e as melodias, adicionaram densidade e personalidade a uma das mais lindas canções do NO. O Símbolo mostrou que era um dos melhores nomes no cenário independente da EBM (Eletronic Body Music) e mostrou uma boa produção para "State of nation". Tétine entra nas melhores versões do álbum com a cabaré "Truth". Etern também chegam perto do original para "Touched by the hand of god", com synth e teclados. Do disco "Republic" o Night Shitf retirou "Vanishing point" e encerra bem o disco, ao estilo NO - num primeiro momento pensei que se tratava do Vanishing Point, projeto de Roni Baker, que ganhou um bom disco lançado pela Cri du Chat, em 1995.

                  "Essence" foi lançado numa parceria dos selos paulistanos The The Records e Cri du Chat Disques, este o empreendimento mais importante da música eletrônica brasileira na virada dos ano 80 e 90. O disco teve distribuição nacional pela Eldorado, chegou ao mercado internacional através de outros distribuidores. O projeto gráfico é bem resolvido e traz ficha técnica das gravações e contatos. O tributo não é a melhor porta de entrada para conhecer o quarteto de Manchester, mas é um excelente cartão de visita para ouvir projetos de EBM e Synth Pop raros no Brasil.

              Quer ouvir? Download aqui!

              Também disponível no Youtube!

4 comentários:

  1. Pequena história. Nos anos 90 eu fazia parte de um duo eletronico aqui em Manaus chamado Jullie At Lewis e chegamos a grava um cd demo. Na cara dura mandamos a demo pra revista dynamite (onde chegou a sair review) e pro eneas neto, que comandava o cri du chat. Ele se amarrou na demo e ficamos de participar desse tributo. Gravamos Leave me Alone mas algo aconteceu no meio do caminho, o selo faliu, perdemos o contato. Há um tempo atrás graças ao facebook , reencontrei o eneas, que lembrou da banda e ainda tinha o cd (que eu nem tinha mais). ele ripou e me enviou. infelizmente ele não encontrou a nossa versão de leave me alone, mas me disse que ela nao tinha entrado porque não deu tempo pra masterizar junto com as outras faixas.
    o cd da minha banda é esse. se tiver tempo, de uma ouvida hehe.

    http://www.mediafire.com/download/4ciz27eer9zprej/Jullie+at+Lewis+-+Tales+of+Tekno+Violence+in+the+Green+Hell.rar

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    1. richardjal! Que bela história, mas fiquei bastante tentado em ouvir a versão para "Leave me alone", uma das minhas preferidas do NO. Que pena não entrar neste tributo. Por sinal, o nome Jullie At Lewis é ótimo. Obrigado pelo link, vou ouvir agora. Tem capa esta demo?
      abraços!

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    2. Cara, eu passei uma mensagem pro eneas da cri du chat e ele disse que vai tirar uma foto e me mandar. Como te disse, eu não tenho mais o cd físico. Eram outros tempos hehe. fizemos só umas 15 cópias em CD e saímos distribuindo pra revistas e selos e um deles, ficou com ele.

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  2. Obrigado ao blog pela postagem!
    Outra coisa: pude conferir o tal "Jullie At Lewis" e posso dizer:
    Ebm infernal alguns vocais femininos rasgados, não deve nada aos nomes de referencia do estilo! Parabens!

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