quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Mopho (Baratos Afins, 2000)



                   O quarteto de Arapiraca/AL surgiu para o público brasileiro em 1999, contudo já eram figurinhas fáceis nas noites de Maceió. Foi com a vinda para São Paulo/SP que o Mopho conquistou maior exposição e conseguiu chegar ao primeiro disco.

               O que mais chamava a atenção para a banda neste primeiro disco são suas referências. Ecos do rock psicodélico reverberavam no órgão de Leonardo, os riffs da guitarra de João Paulo remetiam ao hard rock/heavy dos anos 70, os vocais lembravam momentos pesados do rock brasileiro e era comum que todos os textos que apresentavam o Mopho também citassem Mutantes, Som Nosso de Cada Dia e bandas da psicodelia nordestina.

             O álbum sem título abre com a excelente "Nada vai mudar", canção que arrebatava qualquer ouvinte e sintetizava bem o conteúdo do disco, pop e bem construída, letra melancólica, mas nem por isso triste, se encerra com uma citação à "Panis et circensis". A sequência com "Geladeira" abre outro leque de referências, desta vez sessentistas inglesa e seu braço nacional desenvolvido na Jovem Guarda.


Bizz, edição 176, março de 2000
             Em "Não mande flores" há uma bela letra sobre (des)amor e um arranjo caprichado. Entretanto, este cometeu um detalhe que prejudicou a beleza da canção, uma citação incidental à "Kashmir", do Led Zeppelin, no meio do solo. A falta de créditos trouxe questionamentos sobre a homenagem do Mopho a uma de suas grandes influências. "Ela me deu um beijo" surge como um tombo progressivo-psicodélico, momento hard que te leva às imagens raras do Festival Banana Progressiva, de 1975, o mesmo vale para as também boas "Mosca sobre a cabeça" e "Uma leitura mineral incrível" - os títulos já mostram para o que vieram. Esta última surge novamente em versão acústica no bônus escondido no final da última faixa, "Vamos curtir um barato (meu bem)".

              A vinda do Mopho para a capital paulista tinha uma razão, a assinatura de um contrato para o lançamento do disco. Tal contrato não aconteceu, mas uma visita à loja Baratos Afins levou o quarteto aos ouvidos de Luiz Calanca. O contato deu certo e hoje é difícil não relacionar o primeiro disco do Mopho com uma das principais gravadoras independentes do Brasil. O disco foi gravado num estúdio de Maceió/AL com poucas 100 horas entre gravação e mixagem.

             Em São Paulo receberam elogios do maestro Rogério Duprat (1932-2006)) e do guitarrista Lanny Gordin, este chegou a participar de apresentações do Mopho, numa época em que Lanny ainda amargurava o fim de um ostracismo de mais de dez anos. Um dos encontros entre os alagoanos e o guitarrista dos melhores discos dos tropicalistas aconteceu no palco do programa Turma da Cultura, exibido pela TV Cultura. Na ocasião a guitarra verde de Lanny, um dos poucos instrumentos que lhe sobrara, casou bem com o rock psicodélico do Mopho.

              O álbum foi saudado como um dos melhores lançamentos de 2000, e botou o Mopho no mapa das tão raras bandas psicodélicas brasileiras. Em 2013 foi relançado em vinil, numa tiragem limitada e com projeto gráfico caprichado.

                 Quer ouvir? Download aqui!

4 comentários:

  1. Esse disco é sensacional e acho que a banda continua na ativa.

    http://globotv.globo.com/tv-gazeta-al/terra-e-mar/v/na-estrada-ha-17-anos-alagoanos-da-banda-mopho-sao-movidos-pela-paixao-pelo-rock/2930146/

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    1. richardjal!
      Sim o Mopho continua na ativa, acho que eles não têm se apresentado com frequência, mas lançaram um terceiro disco há uns 3 anos, muito bom, por sinal. É uma grande banda, poderia tocar no rádio, as músicas são lindas.

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  2. Não há uma citação incidental no meio do solo. É uma citação tão explícita no final da música que acho que ninguém nem se ligou em botar nos créditos. E não prejudicou não. Encaixou perfeitamente e não consigo imaginar Não Mande Flores sem a citação à Kashmir no final.

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