quarta-feira, 9 de abril de 2014

V.A. "MPB Independente" (Independente, 1982)


                Entender a produção de discos independentes brasileiros como "laboratório" para futuros investimentos de grandes gravadoras, ou acreditar que o disco independente só existe em comparação com a falta de perspectiva dos artistas dentro das majors, reduz a um nicho a produção de discos e também desconsidera um conceito que existe nas produções auto financiadas. Um exemplo que apresenta da parte conceitual que existe nas produções independentes é a coletânea "MPB Independente".

             O LP vinha encartado como brinde na Revista MPB, lançada pela Editora Codecri, a mesma editora do Pasquim, sediada no Rio de Janeiro/RJ. A iniciativa durou apenas uma edição. No editorial, a revista se apresenta como uma veículo para discutir a música brasileira. A pauta fazia jus ao que mais interessava nos rumos que a música brasileira tomava naqueles últimos anos da década de 70: a ascensão de artistas que produziam por conta própria e a repercussão que o LP independente ganhou, principalmente à partir de 1977.

            A revista e o LP chegaram às bancas de jornais em dezembro de 1982, com artigos de Sério Cabral, Sérgio Ricardo e Antonio Adolfo, ilustrações de Jaguar, charges de Mariano e Reinaldo. E até mesmo uma fotonovela estrelada por Jaguar fazendo o papel de pai da Neuzinha Brizola (1954-2011). Os temas relatavam as dificuldades em se produzir discos por conta própria. No meio da revista o pôster de Mariano reproduz o quadro "Independência ou morte" de Pedro Américo, mas com os artistas do disco no lugar dos personagens originais. No canto superior esquerdo uma frase estampa o grito: "MPB Independente ou morte".


Fotonovela estrelada por Jaguar, Neuzinha Brizola e Ricky (parte da revista MPB Independente)

           Havia um 'orgulho independente', um conceito dos discos e dos artistas que fora das grandes indústrias vislumbravam a liberdade de criação. O mesmo orgulho que resiste na frase "Este é mais um disco independente", presente nos discos do Boca Livre, Rumo, Sérgio Augusto e outros. Como afirma o jornalista e pesquisador Sérgio Cabral:
                        "nós acreditamos que a vanguarda da MPB, o que realmente há de novo, está na produção independente, que pode ousar ou aprofundar sem limitações de esquemas comerciais. Mesmo que não é (sic) o próprio artista que produz seu disco, se associado a uma das pequenas gravadoras independentes - o que parece ser a tendência do movimento - como o Som da Gente ou a Lira Paulistana, continua tendo total controle criativo" (Sérgio Cabral)
              O lançamento de "MPB Independente" era oportuno, pois aproveitava duas ocasiões: o 'auge' das produções independentes e a comemoração dos dez anos da série "Disco de Bolso" do Pasquim. O LP vinha com um suplemento e trouxe 12 fonogramas cedidos pelos artistas, incluindo as quatro gravações originais lançadas pelo "Disco de bolso". A produção e a direção artística era do cantor e compositor Belchior.

             A única canção não retirada de um LP foi a péssima "Garotos da rua" de Sérgio Mello e o Parasol, lançada originalmente no K7 "Deixa barato" lançado pelo selo Neon e 1982. As demais todas frequentaram os discos cheios de seus intérpretes. A bela parceria de Eliete Negreiros e Passoca em "Sonora Garoa", um sucesso na época, está presente em "Outros sons", primeiro disco de Eliete. A linda e angustiante "Hoje de manhã eu acordei sozinho" de Arnaldo Baptista está no disco que estreou o filão fonográfico da loja Baratos Afins, "Singin' alone", de 1982. "Monsieur Duchamp", parceria do artista plástico José Roberto Aguilar com o pré-Titã do Iê-iê Paulo Miklos, também pode ser encontrada no primeiro LP de Aguilar E Banda Performática. "Longos prazeres do amor", mais uma daquelas lindas canções nas quais Tetê Espíndola expõe, e até exagera, seus dotes vocais está no clássico "Pássaros na garganta", disco que Tetê gravou pelo selo Som da Gente, em 1982. 


Charge de Mariano (retirada da Revista MPB Independente)
              A ingenuidade rock, com uma levada de forró, de Paulinho Boca de Cantor, aqui bastante plastificada pelo arranjo de teclados sem força, da divertida "Rock Mary", com direito a citações de Rita Lee e Lou Reed, foi retirada do disco "Valeu", segundo registro solo de Paulinho, o primeiro independente, selo JQN de 1981. Revelação aquele ano de 1982, Itamar Assumpção emprestou seu hit autobiográfico "Nego Dito" do disco que por sua vez também inaugurou as atividades fonográficas do Teatro Lira Paulistana. Das duas edições da série Disco de Bolso saíram as versões originais de clássicos da MPB, como "Águas de março", de Tom Jobim, "Mucuripe", de Fagner, "Agnus sei", de João Bosco, e "A volta da Asa Branca" de Caetano Veloso. Antônio Adolfo cedeu a canção que deu titulo ao disco que o transformou em mentor e revolucionário das "causas independentes", a instrumental "Feito em casa" ganhou partitura no longo e completo encarte/revista.

            A revista também trouxe um guia, quase completo, dos discos independentes brasileiros fabricados a partir de 1977. O mesmo guia foi revisto e ampliado pela revista Som Três que nas edições de fevereiro e março de 1983, editou um catálogo de discos independentes que contava com mais de 150 títulos.

                    Quer ouvir? Download aqui!

Um comentário:

  1. Quantum Binary Signals

    Professional trading signals delivered to your mobile phone daily.

    Follow our signals NOW & earn up to 270% a day.

    ResponderExcluir