segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Kingargoolas (Independente, 2013)


            Na segunda metade dos anos 50 o filme "Balanço das horas" apresentou para o mundo o Rock'n'Roll, e não demorou para que no Brasil surgissem os primeiros cantores e bandas tentando fazer o ritmo. Por volta de 1958 foi a vez desta invenção norte-americana ganhar conjuntos instrumentais, notadamente The Ventures, The Shadows e Cousin String Alone, e o rock'n'roll começa a se abrir para a surf music. Em pouco tempo surge no Brasil a primeira banda dedicada ao som instrumental, o The Jordans, e desde então o Brasil sempre teve suas bandas de surf music.

         O estilo praieiro não se fechou em si mesmo e do surf music tradicional surgiram ramificações para o surf country, surf punk, o psychobilly bebeu muito da fonte e a new wave não seria tão ensolarada, e também sombria, sem a influência das guitarras da surf music. Em algum momento meteram quatro rodinhas numa prancha e o skatepunk de Dead Kennedys, Agent Orange e TSOL mostrou que a surf music também estava ali.


             Na virada no milênio o Brasil ganhou uma força de bandas dedicadas ao som instrumental, e nestas  uma nova onda de formações dedicadas a surf music. Em outubro de 2012 a publicação Sonata Magazine compilou no CD "Mercosurf" 14 bandas latino americanas de surf music, destas nove eram brasileiras. Quem abriu a coletânea foi o quarteto de Guarapauava/PR Kingargoolas.

               Formada em 2006, o Kingargoolas chega agora ao seu primeiro disco. Com 13 próprias, o álbum abre bem com a bateria rufando em "Enia, puxe o freio!". As baladas mais próximas do surf tradicional estão em "Lambreta sunburst" e "Acme speed dynamite". "Dança famigerada do viking engessado" e "Solobonite" mostram influência de reggae com direito a inserções ao dub, momentos chapados do álbum. Também tem as aceleradas "Ampolis Cacildis" e "Hipotálamos reverse", esta já conhecida da coletânea "Mercosurf". Há até umas aproximações com o ska, como em "Power caçamba combo", e country rock: "O cadafalso" com violão e trompete que remete direto às trilhas de filmes de faroeste, e "Trinity e las chicas del cancan", que fecha o álbum.

                 Para adquirir o disco escreva para a banda: kingargoolas@gmail.com

          Segue abaixo a entrevista que o Kingargoolas concedeu ao Disco Furado, com direito a um curso rápido de surf music para iniciantes com indicação de 10 álbuns fundamentais do gênero. Aproveite para conhecer os discos!

          [Disco Furado] Nos últimos dez anos a música instrumental brasileira ganhou renovação e revalorização por parte da mídia e do público. A surf music, notadamente um som instrumental, também passou por um processo de renovação?


        [Kingargoolas] A gente acha que sim. Muitas bandas surgiram nesse período e nós somos uma delas. Algo que exemplifica isso é que desde o início dos anos 2000 acontece o “Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe”, em Belo Horizonte, que é o maior festival de surf music do país, e diversas bandas passaram por lá no decorrer desses anos. Muitas encerraram suas atividades, porém muitas outras surgiram em diversas partes do país, gravam discos independentes e se apresentam em muitos lugares. Algumas até conseguem fazer turnês fora do país, tocando em festivais de renome na gringa.

           [Disco Furado] Qual a melhor parte de se compor surf music, encontrar um bom arranjo ou escolher os nomes dos temas?

         [Kingargoolas] Olha, as duas coisas são legais de se fazer ao compor, entretanto, no nosso caso não podemos negar que a gente se diverte muito dando nome para os sons. É um dos poucos momentos textuais de uma banda instrumental, então mesmo que a gente procure “batizar” as músicas com um nome que tenha relação com aquele som, aproveitamos o momento e até chegar em um consenso do nome a gente ri muito das besteiras que surgem.

          [Disco Furado] O que o Kingargoolas ouve? O que tem de legal na surf music brasileira?

        [Kingargoolas] A gente ouve muita coisa. Mas claro que rock n’roll nas suas mais variadas vertentes é o que todos escutam em comum. E sobre a surf music brasileira tem muita coisa legal. As bandas que a gente já tocou junto e as que a gente conhece pela internet quase sempre são boas. Pra exemplificar isso tem o cd “Mercosurf”, que saiu encartado no primeiro número da revista “Sonata Magazine” da qual a gente fez parte. Só ali tem várias bandas nacionais de responsa, e olha que tem várias outras que não entraram! Outra boa pedida pra quem estiver interessado em conhecer mais bandas de surf music no Brasil são os programas da web radio “Radio Cadillacs” apresentados pelo Paulão Mohawk. Sempre está rolando som bacana de bandas nacionais lá.

           Kingargoolas indica! 10 álbuns de surf music, entre nacionais e internacionais, para quem quer conhecer mais sobre surf music! Surf's Up!




The Bambi Molesters "As the dark wave Smells" (Dancing Bear, 2010)
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Los Straitjackets "The utterly fantastic and tottaly unbelievable sound of Los Straitjackets" (Upstart Records, 1995)
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The Lively Ones "Hang Five! The Best o The Lively Ones" (Del-Fi Records, 1995)
                             
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Dick Dale & His Del-Tones "King of the surf guitar" (Capitol, 1963)
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Man or Astro-Man? "Experiment zero" (Touch and Go, 1996)
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                              Os Ostras (Excelente Discos, 1996)
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The Dead Rocks "International brazilian surfs" (Monstro Discos, 2005)
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V.A "Mercosurf -  La surf music latinoamericana" (Sonata Magazine, 2012)
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Mullet Monster Mafia "Dogs of the seas" (Orleone Records, 2011)
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Retrofoguetes "Cha-Cha-Cha" (Independente, 2009)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Chelpa Ferro (Rockit!, 1997)


            Chelpa Ferro é um grupo multimídia criado em 1995 pelos artistas plásticos Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler com a proposta de unir várias frentes midiáticas. O Chelpa Ferro pode produzir instalações, vídeos, esculturas, catálogos e discos. a capa acima ilustra o primeiro trabalho em disco do grupo, aqui com a participação do produtor Chico Neves.

             O disco abre com uma faixa multimídia e segue com 20 faixas de experimentos com música eletrônica e percussão. São músicas instrumentais cheias de ruídos e barulhos, as "coisas" acontecem no fundo e os arranjos por mais experimentais que sejam, também são cheios de detalhes.

             O álbum, embalado numa caixinha de papel onde se encontra a capa, traz um encarte caprichado com  32 páginas de fotos, ilustrações e reproduções de obras do grupo. Há desde imagens de arquivo, como a foto da construção de Brasília retirada do acervo da extinta Revista Manchete, até referências a capa do disco "Todos os olhos" de Tom Zé, mas aqui a foto do "cu-sem-dono(a)" tá mais para um umbigo com bola de gude.

              Quer ouvir? Download aqui!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Lobotomia (New Face Records, 1987)


               Em outubro de 1984 surgia na capital paulistana mais uma banda de punk rock. São Paulo e suas bandas punks, que há pouco mais de um ano experimentavam lançar seus primeiros registros, agora viviam a segunda onda do movimento.

             Uma característica comum às bandas da primeira geração do punk rock paulistano era a dificuldade de conseguir instrumentos de qualidade, até mesmo "saber tocar" era uma conquista para aqueles jovens office-boys recém desempregados. Estes desafios não foram tão comuns às bandas da segunda leva do punk rock paulistano, pelo menos não fizeram parte da história do quinteto Lobotomia. O fato de serem jovens bem criados pode ter facilitado o acesso a instrumentos, estúdios de ensaio e gravação, assim como espaços para tocar, mas não evitaram o distanciamento dos temas tão caros ao gênero, tais como violência policial, miséria e fascismo.

Bizz, edição 23, junho de 1987
           O disco abre com o hino da banda. "Lobotomia" traz um tema novo ao punk rock nacional, antecipou em letra uma discussão que só ganhou conhecimento público 12 anos depois, a luta anti manicomial e o descaso do governo quanto ao "lixo humano amontoado nos manicômios". São 10 canções próprias, incluindo alguns possíveis hits como "Só os mortos não reclamam" e "Vítimas da guerra".

         A gravação traz aquela característica indissociável doss primeiros anos do punk rock brasileiro: instrumentos soterrados, som de pratos que mais perecem chiados, ecos nos vocais e solos de guitarra feitos num corda só Os riffs e as viradas de bateria, além da velocidade acelerada num crescendo, como em "Indigentes do amanhã", garantem o pogo.

         O primeiro registro em disco do Lobotomia levou três meses para ser gravado, um tempo longo se comparado com alguns discos nacionais do estilo que chegaram a ser gravados e mixados em poucas horas. O lançamento em LP ficou a cargo do selo paulistano New Face Records, propriedade de Fábio R. Sampaio, também vocalista do Olho Seco e responsável por boa parte dos discos de punk rock e hardcore que chegaram no Brasil nos anos 80, por meio de sua lendária loja Punk Rock Discos.

         O álbum do Lobotomia também ganhou uma rara reedição em CD e LP em 2006 através do selo de Osasco/SP Bucho Discos. Nesta reedição um bônus com 6 canções registrou a passagem do Lobotomia pela casa noturna paulistana Madame Satã, em 1987, gravação excelente na qual a banda mostra mais peso e velocidade do que em disco.

              Quer ouvir? Download aqui!