quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

V.A. "Emílio & Mauro" (Senhor F, 2007)


             Um dos shows mais importantes da história do rock paranaense não teve muita divulgação, nem muito público, muito menos é lembrado com frequência por quem esteve, ou não, presente. Na verdade, poucos sabem que numa altura do ano de 1993 os bares 92º Degrees e Hole receberam as bandas Graforréia Xilarmônica, Repolho e Emílio & Mauro. 

            Na época a Graforréia era a banda veterana e já havia até mesmo encerrado atividades quando o baterista Alexandre "Alemão" Birck recebeu algumas ligações de Eric Thomas, uma parte do Emílio & Mauro, com o convite para a banda de Porto Alegre/RS tocar na capital paranaense. Com alguma insistência o convite fora aceito e a escalação se completou com a vinda do Repolho, quarteto de Chapecó/SC com dois anos de existência e uma demotape, e o quarteto Emílio & Mauro, formado em Curitiba naquele mesmo ano e sem nenhum material.

                  O evento se tornou histórico por reunir três bandas com um proposta parecida, a de alterar a jovem guarda, ou de fazer uma "vanguarda jovem" com os pés fincados lá nos anos 60, mas com arranjos anárquicos e as letras naquela breguice meiga de corações quentes misturados a cerveja gelada. O encontro das três bandas provou que o sul do Brasil vivia naquele momento uma efervescência para poucos, todos imbuídos numa temática próxima, mas bem longe de ser um ideal.

                  Deixemos claro, para quem não sabe, que Emílio & Mauro não é uma dupla, muito menos tem algum integrante que atende por um dos nomes da suposta dupla, trata-se de um quarteto, sem baterista fixo, que nas poucas apresentações se completava com duas garotas fazendo backing vocais. O único registro viria depois que Emílio & Mauro já haviam encerrado atividades. Aquelas cerca de 50 canções que formavam o repertório ao vivo pediam por uma gravação que só veio em 1997, através de uma demotape de 50 cópias chamada "E que tudo mais vá pro inferno!" (Brasa Records). 

                A fita logo se tornou artigo raro e chegou às mãos de quem realmente já conhecia Emílio & Mauro, o suficiente para criar no sub-underground, espaço onde se localizam bandas com discos registrados em cassetes e fãs fieis em busca de conhecer aquilo para poder chamar "de seu". "E que tudo mais vá pro inferno!" é um reverência à tosqueira, dá capa com o diabinho até a gravação caseira com bateria eletrônica e erros de execução adicionais, tudo estava a serviço do lo-fi e da produção em computador, neste caso a tecnologia coube bem e até é difícil de pensar numa produção melhor para registrar definitivamente as 14 canções da demotape - que pode ser ouvida aqui!

          Contudo, os registros definitivos e melhor produzidos estão neste tributo - enfim chegamos ao disco, desculpa aí, mas no caso de Emílio & Mauro a lenda deve ser sempre lembrada. O disco com 23 canções reinterpretadas e também pode ser considerado o único disco da banda. No tributo 16 bandas de seis estados brasileiros revistam um repertório obscuro à sua maneira. O álbum abre com Osmarmotta refazendo nada mais do que oito canções do Emílio & Mauro, para este trabalho "arqueológico sonoro" houve a "curadoria" de Eric Thomas nos arranjos e nas letras, curiosamente o disco começa com a mesma "La Sonateta" que abre o único "disco"/demotape" dos homenageados. Osmarmotta trabalhou muito bem as canções que pegam nos ouvidos, como em "Estrela do mar" e "Tabaco de Menta". Canções de amor, algumas desesperadamente tristes, mas carregadas de humor e deboche.

                 Das outras bandas vale destacar o country-rockabilly do Bettie & The Bel Airs para "Beijo molhado"; o punk à Jovem Guarda dos cariocas do The Feitos para "Cheiro de amor", uma história de amor à Van Gogh com cheiro de álcool; o Mordida, que não poderia faltar, pois traz na formação uma parte de Emílio & Mauro, o guitarrista e vocalista Paulo Hde Nadal; a psicose garageira do tipo goth'a'billy do Gianinnis para "Laura"; a Graforréia Xilarmônica refazendo a história de amor emborrachada do hit "Adriana", também gravada pelo Repolho, para decepção dos fãs dos "colóno" que acreditavam ser uma canção de autoria dos irmãos Panarotto; os brasilienses do Sapatos Bicolores injetaram balada em "Prelúdio de amor e saudade" (fica até difícil chamar alguma destas canções de balada, pois todas são). Mas balada mesmo é "Pombo correio" na versão do Stereo Tipos, uma das mais belas letras de amor de Emílio & Mauro, o erro dos versos não foi perdoado nos comentários. Marcelo Mendes e Os Bacanas, discípulos candangos desta tríade neo-jovemguardista, mantiveram a produção lo-fi para "Jura-me"; O Capitão Sete entre blips e blops preservaram a mesma citação incidental de Celly Campello na doida "Barney Bun", há também um "roubo incidental" de parte do arranjo de metais de "Sossego". Os Atonais, fãs declarados da banda curitibana, fizeram bossa-nóia de "Disque é mentira", sensacional! O Repolho, que em algum momento também tem sua história confundida com parte da lenda Emílio & Mauro, botou vanerão invertido em "Carla Fernanda".

                Das maluquices, nenhuma chega a linda versão do Les Incompris para "Limão do futuro"; há também o black metal do Belzebrujos, de Altamira/PA, botando influência Mystifier no meio da Jovem Guarda alterada de "Desgraçada", o Eric Thomas gostou. E o punk/hardcore do Rancor numa versão mista de "Blitzkrieg bop" para "Narivaldo".

              O projeto gráfico beira à perfeição. O disco vem embalado num envelope tal como uma correspondência de Emílio & Mauro para o ouvinte, que no caso assume a função de "destruidor de corações". O encarte traz depoimentos de 16 entusiastas da dupla, entre músicos, jornalistas e fãs, incluindo uma fã psicografada, mais todas as letras, com comentários, além da bela capa. O álbum foi lançado em tiragem de 500 cópias pelo selo Senhor F e está esgotado há muito tempo. Portanto, aproveite para conhecer e baixe o disco no link abaixo.

              Quer ouvir? Download aqui!

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