quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Inocentes "Miséria e Fome" (Independente, 1983)



            O ano era 1981 e da união das bandas Condutores de Cadáver e Restos de Nada, formações pioneiras do punk rock no Brasil existentes desde o fim de 1978, surgiu, na Vila Carolina - zona norte de São Paulo/SP -, o quarteto Inocentes.
              
              No vocal estava Ariel, um dos punks paulistanos mais articulados com o lado político do movimento. Clemente, autor da maioria das letras, empunhava o baixo e a formação se completava com Tonhão Calegari, na guitarra, e Marcelino, na bateria. "Miséria e fome" foi o disco que o Inocentes gravou em poucas horas de estúdio no começo de 1983, o álbum trazia 13 canções próprias de temas inerentes para aqueles anos de possível abertura política, mas que também dialogavam com medos externos, tais como a ameaça nuclear e a guerra civil em El Salvador, vide "Morte nuclear" e "(Salvem) El Salvador".

        Entretanto, das 13 canções curtas que compunham o que seria o primeiro álbum completo de uma banda punk da América Latina, apenas quatro foram liberadas pela Censura no governo João Baptista Figueiredo, o que forçou a banda a lançar um compacto com "Apenas conto o que vi (o que senti)" - também conhecida como "Miséria e fome" -, no Lado A,  e "Calado", "Aprendi a odiar" e "Morte nuclear". no Lado B.

Revista Pipoca Moderna, edição 05, abril de 1983
            O compacto autofinanciado, mesmo que mutilado pelos órgãos censores, teve uma boa repercussão, as canções de letras ingênuas, mas carregadas de ódio, funcionavam como denuncias de miséria, fome e opressão. A capa do compacto, com a foto de três crianças, ainda é uma imagem comum para quem conhece a miséria tão bem distribuída nacionalmente. O disco teve uma boa repercussão e chegou às mãos de outros cenários punks, como na Finlândia, Inglaterra e Alemanha. O fanzine SP Punk, produzido pelo Inocentes, fez a vez de divulgador do trabalho recém lançado, numa época em que a imprensa parecia não se importar com a movimentação artística e cultural dos subúrbios, como pode-se atestar na matéria com o vocalista Ariel publicada na revista Pipoca Moderna (ver acima). No encarte do compacto uma frase no rodapé convidava outros punks para se corresponder com a banda, mas advertia: "Por favor mande envelope selado para resposta. Somos uma banda pobre". 

Capa da reedição em LP, selo Devil Discos
             O disco completo só foi lançado em LP no ano de 1988. Na edição de "Miséria e fome" do selo paulistano Devil Discos estavam 11 das 13 canções gravadas em 1983, incluindo "Não à religião" e "Maldita polícia", temas que nos anos posteriores também estavam presentes em discos consagrados do Titãs, Cabeça Dinossauro, e Mercenárias, Cadê as armas?. "Vida submissa" trata da multidão silenciosa sob a opressão diária, conteúdo que também reflete na letra de "Não diga não". "Torturas, medo e repressão", anunciava que os 21 anos de Ditadura Militar chegavam ao fim. "Meninos do Brasil", única autoria do Calegari no disco, completa o retrato preto e branco da capa do compacto.

          A capa da reedição em LP trazia uma nova imagem, no lugar das crianças do compacto, agora havia uma foto do Inocentes. "Miséria e fome" também foi lançado em CD, em 2001 pela Devil Discos, com a mesma capa e as 11 canções. Em 2011 o selo Nada Nada Discos reeditou o compacto com as quatro canções e a arte original.

                Quer ouvir? Download aqui!

9 comentários:

  1. Grande postagem!
    Tenho esse material!
    Destaco o trecho da matéria que fala da união de punks e skinheads (SKUNKS!)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Brutal420!
      Obrigado pelas palavras. Este disco é muito bom.
      É bem curioso este "encontro" de punks e skinheads. Vale uma pesquisa mais aprofundada.

      Excluir
    2. Não tão curioso! Lá fora sempre houveram bandas Skunks, como o The Business, The Blitz, Riot Squad...
      Por aqui existe a menção do termo Skunk em uma camisa do próprio Ariel em fotos da época, além de associações naturais como a banda Kaos 64, que tinha na sua formação Joe 90 do Vírus 27, dividiram split com o Tropa Suicida, onde na mítica capa já mostrava o união de punks e skins. A banda Desordeiros do Brasil seu primeiro álbum, também tinha alguma referência. Valeu OI! OI! OI!

      Excluir
  2. Realmente, excelente postagem. Tinha esse disco na época e não sei onde foi parar, infelizmente. Assisti a muitas apresentações dos inocentes nos anos 80 e na minha opinião é a melhor e mais importante banda punk brasileira de todos os tempos. Parabéns Marcelo por compartilhar bons materiais e maravilhosas lembranças.

    ResponderExcluir
  3. Observação: Lembro muito bem desse fanzine sp punk, cheguei a ter alguns .Acredito que hoje é material raríssimo.Marcelo, vc sabe onde foi parar o Calegari da primeira formação? Abraços.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eduardo!
      Obrigado pela visita e pelo apoio!
      O Calegari não toca mais com ninguém. Ele tem facebook, irira procurá-lo para ele responder umas perguntas sobre o disco, mas como demoraria muito para responder o ano tá acabando, postei sem depoimentos.
      E estes SP Punk hein? Que maravilha, e que pena que você não guardou, hoje são documentos tão raros quando preciosos, nunca vi um.
      Abraços!

      Excluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. Minha sugestão para uma futura: DOSE BRUTAL! Punk rock relíquia!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Brutal420!
      Quero botar o Dose Brutal por aqui sim, só tenho de conseguir o disco. Super raro.

      Excluir