segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Jards Macalé "Amor, ordem & progresso" (Lua Discos, 2003)


          As décadas de 80 e 90 foram tenebrosas para o carioca Jards Macalé. Cultuado por uma parcela do público, mas fora dos objetivos das grandes gravadoras, Macalé fora dispensado da Som Livre depois de "Contrastes" (1977), que vendeu 50 mil cópias, mas não o segurou dentro da empresa. De contrato com a CBS não pode realizar nenhum disco, a gravadora dispensou Macalé e preferiu assumir uma ação judicial movida pelo artista. Em seu primeiro disco depois de dez anos Jards Macalé reuniu repertório de Lupicínio, Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola e lançou pela Continental o bem recebido álbum "4 Batutas e & Coringa". Depois amargou outros longos anos distante do disco e com poucos shows.

          O silêncio fonográfico foi quebrado com o lançamento do CD "Let's play that", gravado em 1982 o disco reuniu Jards e Naná Vasconcelos, foi lançado pelo selo Rock Company em 1993. O pequeno selo caprichou na redescoberta e relançou no formato digital quase todos os outros discos de Jards, com exceção do álbum da Som Livre. Com tiragem pequena e distribuição precária os discos logo sumiram das prateleiras e há muito são itens raros.
Foto: Geraldo Luís Gomes, retirado de Bizz, ed.18, janeiro de 1987

            No final dos 90's Jards Macalé entrou novamente nos trilhos do trabalho, mas distante de produzir material inédito. No discos "O q faço é música" (Atração, 1998) boa parte do repertório foi composto por novas visitas às canções dos dois primeiros discos. Em "Macalé canta Moreira", de 2001, Jards homenageia os sambas de breque do amigo e influência explícita Moreira da Silva. Até 1998 a produção de discos de Jards Macalé ganhou grandes intervalos de tempo, na virada do século  a situação mudou, e para melhor.

        Em 2003 o selo Lua Discos lançou o 9º disco de Jards. "Amor, ordem & progresso" inaugurou uma nova reivindicação de Jards Macalé, a campanha pela inclusão da palavra amor na bandeira nacional. Em princípio a campanha não ganhou adeptos, muitos menos foi levada a sério pela mídia, para Macalé ela é legítima, faz parte do lema positivista atribuído a Augusto Comte, intitula o álbum e também é tema e letra do samba "Positivismo", de Noel Rosa e Orestes Barbosa. Por sinal, do repertório de Noel Rosa também foi pinçada "Falam de mim", aqui com o acompanhamento luxuoso do pandeiro de Robetinho Silva. 

        Há uma economia de músicos no disco, apenas quatro, mas estes esbanjam talento. Além de Robertinho Silva na percussão, tem a guitarra blueseira de Victor Biglione, Arismar do Espírito Santo no baixo e Moacyr Luz no violão e produção. O álbum abre com um clássico da MPB, "Consolação", de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Tom Jobim é reverenciado em "Foi a noite", parceria com Newton Mendonça. Paulinho da Viola é relembrado novamente na bela "Roendo as unhas". Ary Barroso, possivelmente o maior compositor brasileiro de todos os tempos, surge em "Por causa dessa cabocla". Do jornalista e compositor Antonio Maria, em parceria com o violonista Luiz Bonfá, Jards interpreta "Manhã de carnaval". De Macalé mesmo só tem o samba "Pano pra manga", que encerra o disco, "Amo tanto", "Canção singela" e a magnifica revisita a "Meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata" com destaque para a guitarra rasgante de Victor Biglione.  

         Discos do Jards Macalé são imperdíveis, uma por serem bons e chamarem a atenção do ouvinte atento em sambas, misturas e reinvenções, outra por serem difíceis de se encontrar. "Amor, ordem & progresso" ganhou tiragem de mil unidades e não faz mais parte do catálogo da Lua Discos.

           Quer ouvir? Download aqui!

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