terça-feira, 27 de agosto de 2013

mundo livre s/a "Guentando a ôia" (Excelente Discos, 1996)

                          

             Depois do primeiro disco, "Samba esquema noise" de 1994, aclamado pela imprensa e praticamente desconhecido do público, o mundo livre s/a (assim em minúsculas mesmo) voltou para São Paulo/SP para registrar as canções compostas e pré-produzidas em Recife/PE que ganhariam as faixas do segundo disco.

        "Guentando a ôia" chegou aos ouvidos dos interessados com expectativa, afinal, a mistura de ritmos e a linguagem própria que fundou o mangue bit receberia mais um capítulo, era a vez de comprovar se tudo aquilo que explodira em 1994 era tudo isso mesmo. Os segundos discos do mundo livre s/a e Chico Science & Nação Zumbi, lançados quase que simultaneamente, provaram que toda espera fora recompensada.

           O disco abre com umas das melhores canções. "Free world"  funciona como um bom cartão de visitas do disco, agrada a quem se entusiasmou com o cavaquinho em meio a riffs de guitarra, cheia de groove a canção cita nomes de linhas de ônibus de Recife "De Rio Doce a Piedade, de Barra de Jangada até Casa Caiada". "Pastilhas coloridas" virou hit do disco por conta de sua letra sobre drogas. "Computadores fazem arte" tem participação de Chico Science nos vocais. "Destruindo a camada de ozônio" traz uma reflexão sobre uma discussão não tão vigente na época, mas que ganharia os círculos intelectuais na virada do século, a  discussão entre o global e o local, periferia e centro e sua realimentação, o feedback tão estudado nas áreas humanas do ensino superior. "Militando na contra-informação" tem letra retirada da conversa comprometedora entre o ex-ministro da fazenda Rubens Ricúpero com o jornalista Carlos Monforte. O samba lamentação "Leonor" foi gravado com a voz embriagada de Fred 04, conta-se que o álbum todo foi gravado sob altas garrafas de cachaça, preferencialmente a Pitú.

          Assim como no titulo do álbum, muitas canções têm títulos com palavras em gerúndio: "Roendo os restos de Ronald Reagan", "Tentando entender as mulheres", "Girando em torno do sol" e a faixa título que encerra o álbum são alguns exemplos, propositais ou 'desafiando' a norma culta dos títulos bem construídos.

         "Guentando a ôia" foi o último disco do mundo livre s/a gravado com o percussionista Otto, que na turnê do álbum largou a banda para se dedicar às composições próprias, criadas com frequência, que inventaram uma forma 'tecno' de se fazer MPB, pelo menos foi assim que se definiu o trabalho inovador do ex-percussionista.

         Lançado pelo selo Excelente Discos e produzido por Carlos Eduardo Miranda, o mesmo de "Samba esquema noise" e responsável pela vinda do quinteto para São Paulo, "Guentando a ôia" seguiu quase o mesmo caminho que o primeiro álbum, bem recebido pela crítica, mas pouco acessível ao público, seja pelo aspecto estético pouco comum às frequências moduladas viciadas, seja pela divulgação e distribuição da Excelente Discos, esta outra propriedade de Miranda criada após a dissolução do selo Banguela.

        O projeto gráfico é bem construído com destaque para a bela capa de Michel Spitale, daquelas que numa loja de discos chama a atenção do cliente sem a necessidade de realmente conhecer a banda. "Guentando a ôia" foi relançado na caixa "Bit" que reúne os primeiros quatro discos do mundo livre s/a.

           Quer ouvir? Download aqui!

Um comentário:

  1. Outro disco clássico brasileiro que escutei tanto que meu cd arranhou rs

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