sábado, 31 de agosto de 2013

[Livro + CD] Maria Estrela "Rádio Fluminense FM: A porta de entrada do rock brasileiro nos anos 80" (Editora Outras Letras, 2006)



          No dia 1º de março de 1982 o som de "The kids are alright", do The Who, ecoava no dial carioca e uma voz anunciava a novidade. A voz era do locutor Amaury Santos e a boa nova era a Fluminense FM, a rádio já existia desde 1972, mas naquele momento entrava no ao a nova Fluminense FM. Reformulada, a rádio trazia uma nova proposta, uma programação musical mais jovem assim como locutores, principalmente mulheres - sem nenhuma outra experiência de rádio -, com um bom texto, humor e inteligência, algo sempre raro nas rádios brasileiras.

            O livro de Maria Estrella busca estas histórias. A autora, que era ouvinte fiel da Maldita, auto apelido dado à rádio que se diferenciava na frequência modulada do Rio de Janeiro, se baseou em entrevistas com diretores, como Luiz Antonio Mello - que é autor do primeiro livro sobre a Fluminense FM, "A  onda maldita", de 1992 -, locutores e bandas que tiveram seus primeiros sucessos veiculados pela Fluminense FM.

           O rock brasileiro dos anos 80 deve muito a rádio. Não é a toa que toda bibliografia que trate do assunto rock no Brasil em alguém momento tem suas páginas dedicadas a explicar o apoio que a rádio deu para uma geração nova de músicos com suas fitas demo de baixo do braço à procura de rádio para apresentar seus trabalhos e consequentemente conseguir contratos de gravações e locais para tocar. Isso aconteceu com Os Paralamas do Sucesso, que estouraram "Vital e sua moto", Legião Urbana, Celso Blues Boy, Blitz e muitos outros. A rádio também abriu seus alto-falantes para outros segmentos do rock, como o  heavy metal, bandas como Dorsal Atlântica e Azul Limão frequentaram a programação da Maldita antes mesmo de chegar ao seus primeiros discos. A rádio também foi porta de entrada para grupos paulista desconhecidos no Rio de Janeiro, como Rumo, Premeditando o Breque e Arrigo Barnabé. 

Bizz, edição 206, setembro de 2006
          Toda a trajetória da Fluminense  FM foi dedicada ao rock em suas mais diversas manifestações, nomes do mainstream e do underground recebiam o mesmo tratamento, obviamente nem todos estouraram, mas muitas vezes isso era menos importante, entrar na programação ou participar de programas especiais também era objetivo de artistas que cresceram sob a influência das canções que rolavam na programação da Maldita.

            O livro de Maria Estrella fala sobre tudo isso, e tem mais. Um CD encartado no final do livro dá uma amostra da produção da Fluminense, vinhetas, fala de locutores e canções das bandas Bacamarte, Dorsal Atlântica e Rumo nos levam aos anos 80, era de ouro da Maldita.

          Nos anos 90 a rádio começou a perder ouvintes assim como o rock nacional oitentista, que entrou na nova década mostrando notáveis sinais de cansaço e ressaca criativa. A falta de renovação da programação, que ainda dedicava boa parte de sua seleção a nomes do rock internacional dos anos 70, como Led Zeppelin, Deep Purple, Yes e nomes populares do rock nacional agora em fase baixa, fez com que a rádio caísse nos níveis de audiência e logo a falta de anunciantes e de um novo planejamento levou a Maldita a decretar seu primeiro fim.

Revista Pipoca Moderna, edição 04 Fevereiro/março de 1983 
       A rádio nunca chegou a ser a primeira em audiência no Rio de Janeiro, mas o bom trabalho desenvolvido nos seus primeiros anos respaldou a a Fluminense FM a conquistar admiração de público, artistas e gravadoras. Em 1983 saiu pela EMI a primeira coletânea da Maldita, chamada apenas de Fluminense 94,9 FM, o LP trazia 12 bandas e nenhum nome brasileiro, o álbum se dividia entre um lado heavy com Iron Maiden, Marillion, Jon Lord, e o lado B com nomes da new wave que ainda não tinham disco no Brasil, como Gang of Four, Classic Nouveaux, Missing Persons e outros.

         A Maldita já teve três vidas desde que popularizou como rádio rock lá no começo dos anos 80. A proposta de levar nomes desconhecidos e executar fitas demo foi pioneira e única até os dias de hoje. A experiência da rádio provou que é possível conquistar respeito e audiência sem ceder às práticas desonestas do jabá, uma verdadeira instituição dentro da frequência modulada das rádios brasileiras.
   
           Quer ouvir o CD do livro? Download aqui!

2 comentários:

  1. Marcelo, parabéns pelo blog! Muito legal mesmo. Está ótimo o texto sobre a Maldita. Só uma correçãozinha: o grupo UHF, da música "Rua do Carmo", era português. Aproveito pra te convidar a visitar meu blog "Assim de recortes". Um abraço,
    Rodrigo Moreira

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    1. Rodrigo!
      Obrigado pelo comentário e pela correção. Realmente não sabia que o UHF era português, até porque existiu uma banda com este nome no Brasil, chegaram a gravar um disco, pensei que se tratasse da mesma banda, mas me enganei. Como não tenho o disco da Maldita, nem o do UHF, não pude comprovar.
      Dei uma olhada no teu blog, achei muito bom, não conhecia, aquilo é uma puta ferramente de pesquisa, e tem as revistas de Música que são ´tima,s tenho uns exemplares aqui. Por sinal tenho bastante material dos anos 70 e 80, acho que tem coisas que possam lhe interessar. Outra coisa, e esta biografia do Sérgio Sampaio? Tem como me vender uma? Sou fã do magricela de pavio curto! Abraços e obrigado pela visita!

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