domingo, 28 de julho de 2013

Antonio Adolfo "Feito em casa" (Artezanal, 1977)



          Em 1977 Antonio Adolfo era um nome conhecido na MPB. Requisitado pianista e arranjador, já havia trabalhado com grande nomes como Elis Regina e Tim Maia, ´por exemplo. Começou sua carreira profissional em 1964, com 17 anos, na peça "Pobre menina rica" de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra. No final dos anos 60 conquistou o sucesso popular com seu conjunto vocal-instrumental A Brazuca. 

            Antonio Adolfo é autor de sucessos eternos da MPB, tais como "BR-3", parceria com Tibério Gaspar defendida por Tony Tornado & Trio Ternura no Festival Universitário da Canção de 1968; "Sá Marina", imortalizada na voz de Wilson Simonal e "Teletema", com o Trio Ternura. Trajetória suficiente para creditar Antonio Adolfo entre os principais nomes da produção musical brasileira. Entretanto, na segunda metade dos anos 70 Antonio Adolfo encontrava dificuldades para lançar seu segundo disco solo junto às grandes gravadoras.

          De 1971 à 1975 Antonio Adolfo estudou harmonia e orquestração nos Estados Unidos e França. Quando retornou ao Brasil procurou as grandes empresas do disco e ofereceu-lhes seu novo projeto. Contudo, sua proposta era vista como pouco comercial pelos produtores, que inclusive chegaram a propor uma volta d'A Brazuca. As tentativas inócuas de negociar o LP com as gravadoras duraram até 1976. As negativas impulsionaram Antonio Adolfo para a produção independente.

           Para financiar a ousadia, vendeu carro e um órgão Hammond e foi para o estúdio com suas canções de arranjos cuidadosos. Ao todo foram gravadas 12 canções das quais 11 entraram no LP, todas inéditas, com exceção de "Dia de paz" (parceria com Jorge Mautner) gravada por Erasmo Carlos no disco "Banda dos contentes" (Polydor, 1976). Quase todas as canções são instrumentais, exceto "Vê" e "Acalanto", com vocais de Malú e Joyce, respectivamente, e "Aonde você vai" na voz de Antonio Adolfo.

          Com o álbum todo gravado, Antonio Adolfo criou uma empresa para selar o disco, assim surgiu a Artezanal (sim, com Z mesmo). Como o disco carregava o diferencial de ser totalmente auto financiado, a capa também caracterizava o processo. Para confeccioná-la de maneira econômica e criativa, Antonio Adolfo usou envelopes de cartolina crua e dois tipos de carimbo, um com seu nome e outro com o título do álbum: "Feito em casa". 

              


      Para dispensar os serviços de uma gráfica, o próprio autor carimbou todas as capas à mão, o que fez com que cada uma saísse diferente. Não havia um padrão para o uso dos carimbos, enquanto uns envelopes eram cheios de carimbadas, outros recebiam duas ou três identificações. Concluído o processo e com todos os LPs estocados em sua casa, Antonio Adolfo partiu para a divulgação, distribuição e venda de seu primeiro LP solo.

       

       Para divulgar, Antonio Adolfo aproveitou os shows que fazia na série "Seis e Meia", no Teatro João Caetano, na capital carioca. Nas apresentações, entre as canções anunciava a venda do LP na porta do teatro, o que garantiu uma boa distribuição da tiragem inicial. Não se sabe quantos exemplares compunham a primeira tiragem de "Feito em casa", mas ao todo foram prensados 20 mil unidades do LP. Somam-se a estas mais 1 mil copias da reedição em CD feita pela gravadora independente Kuarup em 2002, uma edição especial que comemora os 25 anos do precursor selo carioca. A reedição ganhou como faixa bônus um improviso de quase quatroze minutos chamado "O nome não é importante".

          Numa entrevista para a publicação "MPB Edição Independente", um trabalho caprichado que acompanhava um LP com fonogramas independentes, gravados entre 1977 e 1982, vendido em bancas de jornal, Antonio Adolfo relatou um pouco do processo de distribuição e venda do "Feito em casa":

"Existe uma ideia de que disco só se vende em loja. Acontece que as lojas são controladas pelas grandes gravadoras. Na maior parte das vezes o público de lojas de disco só compra o que é massificado. O público que compra a música alternativa é pequeno (...) e o lojista só compra o que é anunciado em rádio e TV.

      O produtor independente deve partir para a distribuição alternativa: mala-direta, reembolso postal, venda no local de seus shows, postos de venda alternativos como praças, escolas, universidades...
         Eu botava um piano elétrico na minha Belina e viajava pelo Brasil. Parava em Ouro Preto, na porta do restaurante de estudantes, e começava a  tocar. Daí a pouco vendia 70, 100 discos. Aí ia para a Universidade, as pessoas chegavam, davam uma canja, pegavam o violão e tocavam também. e compravam o disco.
    Outro exemplo: botar o disco em lojas de produtos naturais. A música independente é mais ou menos como comida natural. Como a música enlatada tá tomando conta, é preciso uma música orgânica. Essa música geralmente só pode ser lançada de forma independente. quando as gravadoras chegam a se interessar pela matéria-prima, fazem uma embalagem enlatada, com os mesmos instrumentos, os mesmos músicos".
Charge retirada da Revista MPB Independente - Edição 1 (Editora Codecri, Rio de Janeiro: 1982)

               A partir da experiência do "Feito em casa" criou-se um sistema de produção de discos independentes que abriu caminho para que cada vez mais novos compositores, instrumentistas e intérpretes aderissem à proposta, todos interessados nas vantagens assinaladas por Antonio Adolfo, tais como: liberdade de criação, propriedade da obra, controle de royalties e vendas. No artigo "Disco independente: o fim do capitalismo selvagem", o jornalista Tárik de Souza escreveu sobre a influência que "Feito em casa" teve nas produções independentes:

      "Antonio Adolfo fazia sozinho o que as estruturas montadas nas grandes companhias realizavam com suas equipes. Foi um episódio inédito na história do disco brasileiro que deixou perplexo os mais incrédulos. A proeza de Antonio Adolfo mostrou que o disco independente não era uma quimera"

      Pela iniciativa de criar um selo, lançar e distribuir por conta própria seu primeiro disco solo, Antonio Adolfo ficou conhecido como o responsável pelo primeiro disco independente moderno. Um outro pioneiro da produção fonográfica auto financiada, Tim Maia, em entrevista a Tárik de Souza, desta vez para o Jornal do Brasil, em 1982, reivindicou parte do reconhecimento pelo pioneirismo: 

        "(...) Passei toda a minha lista de loja para o Antonio Adolfo, que levou a fama e nunca me deu crédito (...)". 

           O pioneirismo dos LPs "Tim Maia Racional" deve ser reconhecido, pois pela primeira vez um artista de projeção nacional pulava fora da máquina e ia produzir por conta própria. De todo modo, a falta de reconhecimento atirada contra Antonio Adolfo se devia em parte ao próprio Tim. Logo após a fase Racional, passou a renegá-la à risca, inclusive proibindo sistematicamente a comercialização dos que chamava "discos de pregação".
       "Feito em casa" abriu o caminho para os trabalhos do selo Artezanal, que nos anos seguintes editou outros 15 discos e uma VHS Vídeo-aula, chamada "Secrets of Brazilian Music". O mais recente disco da Artezanal, de 2006, registra Antonio Adolfo ao vivo. 

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