quarta-feira, 15 de maio de 2013

V.A. "Heavy 25 anos" (Heavy Discos, 2009)



            Rio de Janeiro, 1984.
   
          José Nilton é um jovem roqueiro que frequentemente vai para São Paulo atrás de discos de Heavy Metal. O estilo inglês, criado na década anterior, atrai uma quantidade considerável de jovens espalhados pelo Brasil fascinados pelo peso de guitarras distorcidas em velocidade acelerada, letras sobre violência ou mitologias e estética heavy - aquela de cabelos compridos, jaquetas de couro com rebites, patches, braceletes de pregos e nomes agressivos como Judas Priest, Iron Maiden, Slayer, Metallica, Sodom, Exciter... Era um ano anterior ao Rock in Rio e da criação do termo 'metaleiro', que denominaria a geração headbanger para a população nacional.

          No Rio de Janeiro não havia lojas de disco especializadas em rock e São Paulo era um pólo onde se encontrava discos nacionais e importados. Numa destas viagens José Nilton teve uma ideia, formar a primeira loja especializada em Heavy Metal na capital carioca. Assim surgiu no fim de 1984 a Heavy Discos, localizada no bairro da Tijuca, que logo nos primeiros dias reuniu muitas pessoas, que assim como José Nilton, também procuravam discos de Heavy Metal. Desnecessário afirmar que o empreendimento deu certo e assim permaneceu por mais alguns anos.


      Era uma época favorável na qual a indústria fonográfica faturou aos tubos e o rock brasileiro era a bola da vez que enchia a programação das rádios, TVs e estampava capas de revistas. Foi neste cenário que José Nilton teve uma nova ideia: lançar um LP do Dorsal Atlântica. Até então a banda carioca, liderada pelo incansável Carlos 'Vândalo' Lopes, tinha um split-LP dividido com outra banda do Rio, o Metalmorphose. No momento de idealização do selo Heavy Discos a Dorsal estava em São Paulo e se preparava para lançar seu primeiro disco, "Antes do fim". Foi então que José Nilton optou por outra banda metal do Rio, o Azul Limão. O LP "Vingança" chegou na loja Heavy em 1986 e esgotou-se rapidamente, o que exigiu tiragens até então inesperadas.

      O LP da Dorsal Atlântica veio em seguida. "Dividir e conquistar" era um projeto audacioso, o rock pesado brasileiro já chegara aos ouvidos europeus e norte-americanos, lançar discos apenas em português deixou de ser o suficiente para buscar um mercado maior. O segundo álbum da Dorsal ganhou duas versões e foi bastante elogiado na época.


           Assim a Heavy seguia seus melhores dias e já se programava para novos lançamentos, principalmente da Dorsal Atlântica, indiscutivelmente uma das bandas preferidas de José Nilton.

      Em 1987 o mercado de discos nacional já não era dos melhores, a queda brusca provocada pela recessão econômica, troca e instabilidade da moeda. Resultado: a Heavy Discos já não recebia a mesma quantidade de clientes e fechar as portas tornou-se solução. Era o fim da loja, mas o selo seguiria em frente com a Dorsal Atlântica.

         Que longa história, não? Era para falar sobre a coletânea de 25 anos da Heavy Discos ou era para resumir alguns pontos importantes da história so selo? Agora já não sei, mas contar um pouco sobre desta história pode ajudar a ouvir seu compilado comemorativo.

       Como podemos observar, a história da Heavy se pauta em parte da história da Dorsal Atlântica e na coletânea isso é óbvio. Das 11 canções selecionadas, 4 são do trio de Carlos Vândalo, uma de cada disco - incluindo uma do "Divide and Conquer". As demais são retiradas de outros álbuns de bandas cariocas lançadas pela Heavy, como Azul Limão ("Satã clama metal"), Tubarões Voadores ("Nada na cabeça"), X-Rated ("Blue heart"), Calibre 38 ("psicose fatal"), Metralion ("Porcos da lei"), Extermínio ("Anti-herói") e Eros ("Road to wisdom").

         Porém, a coletânea está incompleta, se é para ter um fonograma de cada disco lançado, como afirma o texto do encarte, então José Nilton se esqueceu que no catálogo da Heavy também consta o único do Urge, provavelmente o único disco não-heavy do selo. Não deveria ter ficado de fora.

       O saldo da coletânea é negativo, a maioria das canções ficaram datadas e envelheceram mal. Salvo alguns bons momentos como a balada hard rock do X-Rated, o punk rock do Tubarões Voadores e o thrash metal do Extermínio. Os momentos horríveis ficam para Calibre 38, Azul Limão e Metralion, vale conferir!


       De positivo mesmo, além do fato de em 2009 o selo ter completado 25 anos e anunciar sua volta, é o projeto gráfico do disco que conta parte da história que reproduzi nos primeiros parágrafos, além de fotos, cartazes e recortes de publicações da época em que os discos foram lançados. Tá certo que a maior parte das páginas é dedicada para a Dorsal Atlântica, mas ainda sobra espaço para outras, poucas, histórias.

        Quer ouvir? Download aqui!

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