terça-feira, 16 de abril de 2013

V.A."Cemitério de Elefantes" (Vinil Urbano, 1989)



             
Bizz, edição 48

            A primeira coletânea de bandas da capital paranaense reuniu cinco nomes importantes para quem quer conhecer um pouco sobre o que aconteceu no rock curitibano na segunda metade da década de 80. O clima sombrio e gelado de Curitiba criou uma atmosfera facilmente observada no disco, mesmo nas bandas mais new wave não há nada de ensolarado ou alegre. 

                   O Beijo Aa Força (BAAF), uma formação já veterana em 1989, abre o lado A com o ‘hit’ “Homem de ferro”, letra do escritor e poeta Marcos Prado (1961-1996), no lado B “Diário de um palestino” traz referências de funk branco, algo como o A Certain Ratio, entre o pop e a vanguarda. De todas as cinco bandas, o BAAF foi a única a lançar discos próprios, além de participar de outras coletâneas. “Cemitério de Elefantes” marcou sua primeira inserção em disco e trouxe bons resultados à banda.


BAAF na rodoviária de Curitiba (foto de Peter Lorenzo)
   

"Lembro que foi feito na melhor das intenções pelo Rolando Castelo Junior, o batera da Patrulha do Espaço, com as condições disponíveis na época, sob muita pressão e sem muita grana. Gravamos num estúdio em São Paulo, o Quadrophenia, e foi o técnico, conhecido como Chimbau, quem deu a triste ideia de gravar "mooooooorrrrrrrttttteeee" no meio da música "Homem de Ferro".  A mixagem e o corte do vinil não ficaram muito bons, é verdade, mas vale pelo registro histórico de uma época do rock curitibano. "Diário de Um Palestino" ficou bacana com um dobro gravado em overdub e um rolo de timbales, num clima funk bluesy. A capa foi feita na brodagem pelo Roberto Jubainski e acabamos indo divulgar o vinil até no Mario Vendramel com suas vendrametes  (risos)"
                               (Luiz Ferreira, guitarrista do Beijo Aa Força)
"Detesto este disco!"        
                                        (Rodrigo Barros, guitarrista e vocalista do Beijo Aa Força) 

             O Ídolos de Matinée é a única banda da coletânea a trazer uma garota na formação, a vocalista e tecladista Debora Daroit. A história do Ídolos de Matinée se confunde com a história do BAAF e nos leva ao começo dos anos 80 com a Contrabanda, umas das primeiras bandas punk de Curitiba. Entretanto, o Ídolos de Matinée está mais para a new wave sombria, que os próprios membros preferiam chamar de trendie. Uma característica curiosa da banda é a sua preocupação com o visual, que trazia sobretudos forrados com estampas floridas, cabelos desgrenhados e armados que os aproximava do estilo darkwave, ouça “O inimigo” e comprove.

    "Éramos uma grande turma, na qual todos se conheciam, os shows reuniam muitos amigos. Alguns até se tornaram parte da minha família. Trendie para nós era algo como "estar à frente do seu tempo", e também era uma identificação com as bandas inglesas que nos influenciaram"
                  (Debora Daroit, vocalista e tecladista do Ídolos de Matinée)

         "A Produção das músicas foi realizada pelo Ídolos de Matinée e por Marcos Carneiro, no Estúdio Bidon, em São Paulo. Fizemos uma pré-produção aqui em Curitiba, em um porta-estúdio de 4 canais. Levamos um dia gravando e não tivemos problemas. Dias antes da gravação tivemos um problema com o vocalista Mauro Mueller que deixou a banda. O vocal foi assumido pela tecladista Debby, que permaneceu até a dissolução da banda, em 1991. 
      Na época nós não gostávamos da definição que nos deram: éramos chamados de Pós Punk. Achávamos que limitava demais o nosso som, por termos diversas influências: punk rock, música eletrônica, música clássica e etc. Então resolvemos nos chamar de Trendie, que é um estilo de som que busca estar sempre na frente. E na época, nós tentávamos.
Ídolos de Matinée no Graciosa Country Club em 1985 

        O Ídolos de Matinée foi a maior banda de 1985 a 1991. Tocou nos templos sagrados do rock brasileiro. Se apresentou para plateias de seis mil pessoas no Rio de Janeiro e de 80 mil no Paraná. As músicas que fizeram com que a banda fosse respeitada no underground brasileiro foram "Rock Marciano" e "Vamos Separar os Estados Unidos da América". 
            As letras não eram convencionais e isso ajudou para que o público desse valor som para o IDM. A marca registrada da banda sempre foi a combinação do teclado e da guitarra, que trocavam notas e não se limitavam a uma marcação rítmica. O baixo era derivado do punk rock e fugia da marcação tradicional, misturando ora sequências melódicas, outras retas. 
          Outra preocupação do Ídolos era o visual. Então visual + música + letras irreverentes levaram o IDM ao posto de maior banda da segunda metade dos anos 80. Tínhamos facilidade em conseguir shows graças a essa tríade"
                          (Fernando Tupan, baixista do Ídolo de Matinée)




Bizz, edição 47
              O Bons Garotos Vão para o Inferno tem um ótimo nome e sonoridade, a lembrança de Joy Division é imediata, mas não se trata de mera cópia, a banda mostra personalidade e boas letras, “Alice não mora mais aqui” e “Nunca adormeço” estão entre as melhores canções do álbum. 
    "Na aquela época tudo era bem mais difícil de se realizar. E este disco, para nós (e creio que para os outros envolvidos também) foi um marco. A repercussão do disco foi restrita, restringido-se às pessoas que acompanhavam as bandas locais, não atingiu um público mais abrangente. Consequentemente, não houve retorno financeiro, e pouco tempo depois do lançamento do disco, o Bons Garotos Vão Para o Inferno se desfez, com cada integrante tomando rumos diferentes na vida, como foi o caso do Sérgio, que foi embora do país, e eu, que abandonei completamente o cenário musical. O que ficou é o fato de o disco ter sido, talvez, um divisor de águas no rock local, um precursor, e por isso é lembrado tanto tempo depois, mesmo sem ter tido a devida, e merecida, repercussão na época em que foi lançado"
 (Danilo Silveira, baixista do Bons Garotos Vão Para o Inferno)

               O Tessália faz um som etéreo e introspectivo, algo entre Cocteau Twin, Felt e bandas do selo 4AD, característica que chamou a atenção do público e faz do Tessália uma das bandas mais cultuadas da história do rock curitibano até os dias de hoje. Arranjos muito bem elaborados em “Melilla” e “Falset”.


Bizz, edição 49
              "Eram os anos 80 e Curitiba tinha as estações bem definidas. O frio era uma delícia e nos sentíamos em Londres,  com toda aquela revolução de Cure, Siouxsie, Bauhaus, Joy Division, A Certain Ratio, Cocteau Twins e tantas bandas "góticas", cheias de climas.  Meu irmão tocava bateria em uma banda cover destas bandas, o Operação Valquíria. Eu já tinha participado de um festival de música usando roupas como no vídeo "Atmosphere", do Joy Division. Decidimos nos juntar e compor.  Os ensaios eram todos no escuro, pois queríamos nos envolver pela música. Foi tão perfeita para os shows. Queríamos que as pessoas se deixassem levar pelo som e não quem os fazia.
              Os shows eram loucos, as músicas tinham alguns temas, mas a maior parte era improviso. Ensaiávamos pouco pra deixar boa parte para os shows. E não tocávamos muito, que é pra não perder a graça. Os shows eram marcados em cima da hora, com divulgação feita no boca a boca. Criamos essa atmosfera de banda misteriosa. Não queríamos cair na mesmice ou pegar menininhas, muito menos beber. O lance era o som, criar um momento mágico. Acho que por isso ainda lembram da gente. Fomos pra São Paulo e mais tarde nos mudamos para Londres. Fizemos contato com o pessoal dos selos 4AD,  One Little Indian, do Sugarcubes,  Rough Trade e Real World, do Peter Gabriel. Só que acho que o resto da banda ficou com medo, Não acreditaram que era real. E voltamos para o Brasil. Chegamos na cara do gol. Foi bom, continuo na música até hoje por causa disso. Gostaram da gente em Londres. Talvez o fato de não termos um disco próprio também aumente a "lenda". Quem viu, viu, mas eu ainda espero retomar o projeto"
 
                (Luciano Cordoni, vocalista do Tessália) 

             O Pós Meridion foi a última banda a entrar no disco, quando o mesmo estava todo gravado. O som é carregado de percussão pesada e groove, de todas as bandas é a que mais se aproxima de uma produção já ousada por outras bandas brasileiras.


Bizz, edição 24

          “Cemitério de elefantes” saiu pelo selo paulistano Vinil Urbano, propriedade de Rollando Castello Jr, baterista da Patrulha do Espaço. Cada banda produziu suas próprias canções que foram gravadas em estúdios de Curitiba e São Paulo.

          O projeto gráfico é simples, não traz encarte, nem fotos ou letras, apenas a ficha técnica na contracapa. Lançado unicamente em LP o disco teve excelente repercussão local, e, reza a lenda, se esgotou nas lojas curitibanas em rápidos 15 dias. Não houve reedições, assim como todo o catálogo do selo que lançou pequenas tiragens de seus discos.

           Quer ouvir? Download aqui! 



7 comentários:

  1. Caray! Um dos primeiros vinis do rock curitibano... Valeu, garoto! A propósito, meu adesivo chegou. Grande abraço

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  2. Coisa mais linda do mundo isso... Marcelo, obrigado!

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  3. legal vc ter pego os depoimentos.,,,, adorei ver a débora falar... minha professora de inglês eterna!!!!

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    1. Neri, meu velho!
      Obrigado. Os depoimentos foi a parte mais legal do processo da pesquisa do disco, ainda faltou um do Fernando Tupan, e do Pós Meridion (porque não encontrei ninguém da bana no facebook, pelo menos ninguém com o nome igual ao que está no disco). Mas, tava na hora deste disco subir pra internet, a qualidade do áudio não é lá estas coisas, o processo de transformação de vinil para mp3 ainda não é muito bom aqui em casa. Mas, que venham os próximos...
      Vou começar a campanha "Volta Mofo Novo!!!!" Abração Neri!

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  4. do Pós Meridion tem o Paulo Lago, Samuel Radiocaos e o Alexandre Benatto além do Mola Jones que foi baterista.. todos no FB

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    1. Neri!
      Encontrei o Samuel e escrevi para ele, mas ele nunca mais me respondeu. Acho que esqueceu. Vou escrever novamente e deixar a postagem mais completa. Obrigado!
      abraços!

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