quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mario Bortolotto & Ked's "Cachorros Gostam de Bourbon" (Independente, 1998)




 O dramaturgo, diretor, compositor, dentre outros ofícios, também blueseiro de ocasião, Mário Bortolotto gravou com a banda Ked's seu primeiro disco, "Cachorros gostam de Bourbon". Essencialmente blues, mas, com espaço para outros rocks, o álbum traz 14 canções cujas letras impagáveis funcionam como narrativas de um cotidiano caótico, não obstante, a interpretação de bêbado-às-cinco-horas-da-manhã de Mário Bortolotto deixa o álbum muito divertido.

"A produção foi total "do it yourself". A gente não tinha grana nenhuma, aí alguns amigos que tocavam em bandas de Londrina (Duda Victor, Lincoln Andrade, Marcelo Leite e Pena) se juntaram pra gravar esse disco comigo. O Linkão tinha um desses gravadores de fitas cassete de 8 canais tosco pra caralho, e a gente gravou o disco inteiro nele, exceto as bateras que tiveram que ser gravadas em estúdio. Os vocais eu gravei no banheiro de casa. Aí depois de pronto e mixado, a minha mulher na época (Christine Vianna) que é também produtora descolou uma grana pra prensagem"

            O título “Cachorros gostam de Bourbon” já indica que trata-se de um disco temático, sempre surge um cão na história, álcool e mulheres também. A canção título abre o álbum e recebeu os vocais de Neuza Pinheiro. “Enjaulado blues” tem letra de banda psychobilly sobre crimes em família e vida na prisão. “Garota legal”, de Dimas Gimenez e Augusto Silva, deixa o blues de lado e acelera para mostrar que toda garota pode ser legal, mesmo que não encontre fácil um ‘canal’ nem faça sexo anal. Em “Alguém em Blumenau se livrou de mim” há uma melancolia forjada sobre o abandono e corações partidos, o solo de saxofone cortando a madrugada é de Vanderley Ruiz. Outros destaques são “BR 369”, o punk rock “Walking on the city” e o ska “Jony Blue”.
 
         "Eu já tinha a maioria das músicas e vivia tocando elas sozinho em alguns lugares, os amigos conheceram e ficaram a fim de gravar. As exceções foram "Cachorros gostam de Bourbon" que eu tinha apenas o título e queria que o disco tivesse esse título. Então, rabisquei uma letra e num sábado à tarde que a gente tava em Rolandia, já gravando o disco, o Linkão pegou o violão e começou a tocar um blues e aí eu fui cantando a letra em cima da harmonia que ele tava fazendo. Outras exceções do disco são "Garota Legal" que é uma parceria do meu saudoso amigo Dimas Gimenez com o grande poeta Augusto Silva. O Augusto vivia cantando essa música nos botecos sempre que tava bêbado e eu gostava pra caramba dela. Tem também "Isso vai virar uma grande sacanagem" que é só uma letra que eu vou falando em cima da levada "John Lee Hooker" que os caras da "Broto com Radith do Tio Pepe" tocaram (essa música depois virou a "Putaria" da nossa banda "Saco de Ratos" e tá no nosso primeiro CD). A parceria é com meu amigo Silvio Demétrio, mestre da slide guitar e grande jornalista. Tem também a "Jony Blue" que é uma parceria minha com o baixista Marcelo Leite. Essa também não tinha música e ele fez uma, assim como "Walking on the city" que eu nem imaginava uma música pra ela e um dia o Marcelo me aparece com ela musicada. As outras são todas músicas que fiz sozinho. Eu não lembro quem batizou a banda com o nome "Ked's". Acho que foi o Duda. A banda não tinha nome e se não me engano, o Duda apareceu com essa idéia. Durante a gravação a gente chamou alguns amigos pra participar: a grande cantora Neuza Pinheiro, o violinista Flavio Costa e o pianista Marcos Scolari que tocaram em "Naked Christine", o Rodrigo Amadeu (que é o "Cheiroso" da banda Cherry Bomb que tá morando em Londres), o Marcos Papazoglou que é o "Grego" e que toca guitarra em algumas faixas, o Vanderley Ruiz que é um soldado de Rolandia (não sei se é ainda) e que tocou sax em duas músicas, o Humberto que era o guitarrista do Cherry Bomb e que tocou em "Jony Blue". E tem o Silvio Rabone que toca bateria em "Garota Legal" e "Enjaulado Blues". O Marcio, irmão do Marcelo, toca bateria nas outras faixas, mas, quem tocava nos shows era o Pulga que toca gaita no disco"
 



"A repercussão deste disco foi inesperada. A gente fez o trampo na brodagem e na diversão e nas condições mais precárias. Não esperava nenhum tipo de repercussão. Me surpreende que até hoje aparecem pessoas que vem falar do disco comigo. Dia desses mesmo um cara veio falar pra mim o quanto gosta do disco e que ele é um dos seus preferidos. Além de Londrina, só tocamos em Curitiba. Foi uma iniciativa do meu amigo, o baixista Rubens K que na época morava na capital. Ele armou o show lá pra lançar o disco e como a gente não tinha condições financeiras de levar a banda de Londrina, ele convocou uma pá de amigos músicos de Curitiba que tiraram todas as músicas e a gente fez dois shows por lá. O primeiro foi muito bom, mas, na época eu não tinha nenhuma noção de respiração pra cantar e perdia a voz com muita facilidade. A gente ensaiou dois dias antes do show e eu castiguei a voz. Não tinha a manha de economizar nos ensaios. Aí teve o primeiro show e eu acabei de detonar. No segundo, a voz não saía. Foi um desastre".
 
O álbum recheado de particpações especiais foi gravado em 8 canais numa fita K7, em Rolândia-PR, foi lançado de maneira independente com apoio da Secretaria de Cultura de Londrina. O projeto gráfico é simples, mas, traz todas as letras, ficha técnica e foto de parte do Ked’s numa loja de conveniência.

               Quer ouvir? Download aqui! 

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