segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

[Livro] Fabio Massari "Mondo Massari" (Edições Ideal, 2013)


          Fabio Massari é um daqueles jornalistas musicais acima de qualquer suspeita, sempre demonstrou não ter muita atração por bandas, discos e estilos preponderantemente populares, o que não o transforma num chato anti unanimidade, mas que também não deixa de descobrir o que realmente vale a pena ser ouvido no meio do "oba-oba" que a cultura musical jornalística elege a cada semana. É um sujeito paciencioso e meticulosamente descritivo que há mais de 25 anos trabalha para dar valor aos "bons sons" espalhados pelo mundo.

           Poucos jornalistas musicais conseguem imprimir característica de texto e fala como Massari, talvez por já ter passado por várias mídias - rádio, TV e impresso e internet -, mas principalmente por tratar de maneira facilmente compreensível a obra de artistas, alguns bem distantes dos holofotes.

             Em Mondo Massari temos um calhamaço de produções do Reverendo, uma coleção de textos escritos para a Rolling Stone e para o portal Yahoo - que inclui passagens memoráveis de eventos longínquos e memoráveis como os primeiros shows do Queen e The Police no Brasil. Trechos selecionados de entrevistas realizadas para o programa Mondo Massari, de 1999 à 2000 na MTV Brasil, e que dez anos depois deu origem ao projeto do livro, que se encerra com a transcrição de 32 entrevistas feitas para o programa ETC, na Oi FM, preciosidades que narram a passagem de Jonathan Richman e Vibrators pelo estúdio da Oi, além de outras lendas, como X, Yo La Tengo, Faust e Tom Velaine com depoimentos colhidos em situações variadas. Vale anotar e procurar as dicas preciosas presentes nas 471 páginas do quatro registro bibliográfico massariano.

             Fabio Massari trocou umas palavrinhas com o Disco Furado!

           [Disco Furado] Umas das questões mais frequentes no "ETC" inclui o dilema de artistas com relação a pertinência de se produzir álbuns num momento em que uma música pode ser distribuída gratuitamente e os meios digitais contribuem para o amplo acesso e disponibilidade de singles e discos. Com livros também temos os mesmos questionamentos, ainda que escritores não se manifestem da mesma maneira, você acredita que o desenvolvimento de novas plataformas de leitura e o compartilhamento de obras tragam riscos a sobrevivência do livro em seu formato físico? Você se incomodaria se teus livros estiverem disponíveis para download gratuito?

             [Massari] Acho que de cara vem aquela vontade de estabelecer paralelos, ou algo do gênero: a evolução, a decadência e os novos rumos dos formatos para o consumo dos bons sons e... os livros e o futuro!
                Não sei se isso funciona. A cultura do livro tem uma carga histórica diferente, tá no dna de gerações. Se vai acontecer - já está acontecendo! - uma reavaliação de forças dentro do mercado, tudo certo; são os tempos em que vivemos e ótimo, quanto mais ferramentas existirem, melhor. Acho que nada disso altera a relação com a obra - e a leitura, que é o principal da coisa. Fora que é delírio considerar o extermínio, a obliteração geral e irrestrita(!) de buzilhões de livros editados/publicados ao longo da história. Quanto ao download gratuito... talvez dê para aproveitar um pouco a analogia com os sons: mais gente vai ler e, possivelmente, o percentual que for, vai querer comprar o livro - ou não.
        
           [Disco Furado] Parece que hoje os jornalistas culturais já não têm uma influência tão marcante na definição do que merece ou não ser ouvido (ainda que muitas vezes o que é descrito como péssimo ou pouco aconselhável, também fomente o desejo do leitor de conhecer tal obra, pelo menos um dia isso foi assim). Você concorda com esta afirmação? Se hoje em dia qualquer um pode montar um blog e comentar sobre canções e discos, então vivemos uma fase em que o jornalismo musical não produz mais profissionais influentes para quem gosta de ler sobre música e se informa através de resenhas e entrevistas?

               [Massari] Tudo mais diluído mesmo, espalhado e, muitas vezes, fora do radar da maioria das pessoas - independentemente da qualidade. É o tal do zeitgeist né, é assim que são as coisas hoje em dia: nem melhor, nem pior do que nos tempos em que você tinha 3 ou 4 opções de atividade profissional num mercado como esse - de jornalismo cultural/musical. Hoje muita gente boa (e tem muita gente boa!) pode mostrar sua produção. Assim como as 'novas gerações' consomem os sons de um jeito diferente da... turma dos 90 por exemplo, também se consome o jornalismo musical de outra maneira, mais descentralizada. 


             [Disco Furado] Na entrevista com o Faust há um convite do Jean-Hervé Péron para que você o visite na Alemanha, você afirma que levaria alguns presentes brasileiros e recebe uma resposta "irônica". O que será que Péron pensou? Afinal durante a entrevista há uma referência à maconha, que estampava a camiseta de Werner "Zappi" Diermaier na ocasião.

            [Massari] Não sei de nada! Hahaha. Na verdade foi mais uma piada pronta do Péron, trocadilho verbal, com sorriso maroto, aproveitando a camiseta do grande Zappi - que era uma bandeira só da indiscrição temática!

             [Disco Furado] Teremos uma tradução do livro de Glen Matlock, "I was a teenage pistol"? É um projeto possível para as tuas publicações futuras? 

             [Massari] Esse livro é bem legal, muito divertido, ótimas histórias! O Billy Idol participa de algumas bem curiosas... E o Glen é um cara que está aí, digamos disponível, curte o Brasil. Enfim, se eu puder sugerir (mais) um livro para a Ideal publicar por aqui... tá feita a sugestão! Daí é só chamar alguém habilitado para a tradução - esse não sou eu - e convidar o homem para vir para o lançamento (se possível com uma das suas bandas).

           "Mondo Massari" é um lançamento da Ideal Edições e pode ser adquirido aqui.                           Altamente recomendável!

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Inocentes "Miséria e Fome" (Independente, 1983)



            O ano era 1981 e da união das bandas Condutores de Cadáver e Restos de Nada, formações pioneiras do punk rock no Brasil existentes desde o fim de 1978, surgiu, na Vila Carolina - zona norte de São Paulo/SP -, o quarteto Inocentes.
              
              No vocal estava Ariel, um dos punks paulistanos mais articulados com o lado político do movimento. Clemente, autor da maioria das letras, empunhava o baixo e a formação se completava com Tonhão Calegari, na guitarra, e Marcelino, na bateria. "Miséria e fome" foi o disco que o Inocentes gravou em poucas horas de estúdio no começo de 1983, o álbum trazia 13 canções próprias de temas inerentes para aqueles anos de possível abertura política, mas que também dialogavam com medos externos, tais como a ameaça nuclear e a guerra civil em El Salvador, vide "Morte nuclear" e "(Salvem) El Salvador".

        Entretanto, das 13 canções curtas que compunham o que seria o primeiro álbum completo de uma banda punk da América Latina, apenas quatro foram liberadas pela Censura no governo João Baptista Figueiredo, o que forçou a banda a lançar um compacto com "Apenas conto o que vi (o que senti)" - também conhecida como "Miséria e fome" -, no Lado A,  e "Calado", "Aprendi a odiar" e "Morte nuclear". no Lado B.

Revista Pipoca Moderna, edição 05, abril de 1983
            O compacto autofinanciado, mesmo que mutilado pelos órgãos censores, teve uma boa repercussão, as canções de letras ingênuas, mas carregadas de ódio, funcionavam como denuncias de miséria, fome e opressão. A capa do compacto, com a foto de três crianças, ainda é uma imagem comum para quem conhece a miséria tão bem distribuída nacionalmente. O disco teve uma boa repercussão e chegou às mãos de outros cenários punks, como na Finlândia, Inglaterra e Alemanha. O fanzine SP Punk, produzido pelo Inocentes, fez a vez de divulgador do trabalho recém lançado, numa época em que a imprensa parecia não se importar com a movimentação artística e cultural dos subúrbios, como pode-se atestar na matéria com o vocalista Ariel publicada na revista Pipoca Moderna (ver acima). No encarte do compacto uma frase no rodapé convidava outros punks para se corresponder com a banda, mas advertia: "Por favor mande envelope selado para resposta. Somos uma banda pobre". 

Capa da reedição em LP, selo Devil Discos
             O disco completo só foi lançado em LP no ano de 1988. Na edição de "Miséria e fome" do selo paulistano Devil Discos estavam 11 das 13 canções gravadas em 1983, incluindo "Não à religião" e "Maldita polícia", temas que nos anos posteriores também estavam presentes em discos consagrados do Titãs, Cabeça Dinossauro, e Mercenárias, Cadê as armas?. "Vida submissa" trata da multidão silenciosa sob a opressão diária, conteúdo que também reflete na letra de "Não diga não". "Torturas, medo e repressão", anunciava que os 21 anos de Ditadura Militar chegavam ao fim. "Meninos do Brasil", única autoria do Calegari no disco, completa o retrato preto e branco da capa do compacto.

          A capa da reedição em LP trazia uma nova imagem, no lugar das crianças do compacto, agora havia uma foto do Inocentes. "Miséria e fome" também foi lançado em CD, em 2001 pela Devil Discos, com a mesma capa e as 11 canções. Em 2011 o selo Nada Nada Discos reeditou o compacto com as quatro canções e a arte original.

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Johnny Boy "Bar & Cases" (Polytheme Pam, 2006)


              O multi-instrumentista, principalmente guitarrista, paulistano Johnny Boy tem uma vasta trajetória e já tocou com muitas bandas e artistas como Raul Seixas, Nasi, Marcelo Nova, entre outros. "Bar & Cases" é seu primeiro disco solo.

            O álbum de Johnny Boy traz 18 interpretações bem fraquinhas para clássicos do rock'n'roll e baladas de forte apelo popular, em 1 hora e 13 minutos, pelo menos o tempo total do CD foi bem aproveitado, o que pode deixar algum ouvinte satisfeito pelo investimento. O disco não se prende a um estilo e derrapa em muitos momentos, ora pela falta de potência vocal de Johnny, ora pelos arranjos pasteurizados do tipo karaokê, a bateria eletrônica e os arranjos de cordas eletrônicas não ajudam.

                Os piores momentos ficam para "Your song", de Elton John; "Jump", do Van Halen - que por si só já não vale grande coisa; "Just the way you are", de Barry White, só engana o casal apaixonado namorando no canto do bar, isso se o couvert artístico for barato. Tem outros exemplos, incluindo aí o mau aproveitamento do lendário sax de Manito, mas Johnny Boy tem uma trajetória de respeito e já deu para ter uma ideia do disco, não?

             "Bar & cases foi lançado em CD pelo selo paulistano Polytheme Pam e traz um grande encarte com todas as letras cifradas e fotos, algumas muito ruins, do estúdio com os convidados Manito, Vanessa Krongold, Esmeyra Bulgari e do produtor e proprietário do selo. Um trabalho irregular, mas que pode agradar os ouvidos menos exigentes.

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Os The Darma Lóvers (Barulhinho, 2000)



               Os amantes dos ensinamentos de Buda. Literalmente, é assim podemos traduzir o nome que assume a dupla formada por Yang Zan e Nenung. Os The Darma Lóvers surgiram em 1998, dois anos depois da mudança da dupla de Porto Alegre/RS para o interior, a cidade de Três Coroas, onde se localiza o Chagdud Gonpa Khadro Ling, primeiro templo budista, no formato tradicional dos templos tibetanos, construído no Brasil.

Fotos de Ado Henrichs (retirado da revista Bizz, ed.190 maio de 2001
   

   Dedicados ao budismo e as ensinamentos do monge Chagdud Tulku Rinpoche logo a dupla começou a transformar em música todo o aprendizado e a filosofia vivenciados no mosteiro. Nenung já vinha com experiência de fazer rock'n'roll com sua banda A Barata Oriental, Yang Zan até então não havia se envolvido com música, mas com Nenung completou muito bem a dupla a ponto de as canções, todas cantadas em duas vozes, soarem como um uníssono, Yang Zan também assume ao vivo a parte "percussiva" do duo. Nenung comanda a melodia num violão de poucos acordes, a herança "punk" que também pode ser responsável pela excelente recepção do seu primeiro trabalho.



             O disco sem título traz 14 canções compostas por Nenung, incluindo uma versão para "Fly away", de Lenny Kravitz, batizada de "Ir além". Todo acústico, o álbum é cheio de bons momentos e as letras chamam a atenção, até mesmo aquelas que dizem mais especificamente sobre budismo, como "Três Coroas". "Diamante" traz uma letra carregada sobre a vida pré-budismo e faz um convite ao ouvinte, ainda assim não o álbum chega a assumir tendência de convencimento ou conversão. "Seres estranhos" e "Peixes" versam sobre o mesmo tema, o ser humanos e suas batalhas internas e com o mundo. Dois clássicos do disco de capa branca.  

            Lançado pelo selo Barulhinho, de Porto Alegre/RS, e produzido por Frank Jorge, o disco teve boa repercussão na mídia e no público, além de resenhas elogiosas e um bom número de fãs recém conquistados, a dupla tocou em muitas capitais e logo tornou-se um nome conhecido dentro e fora do cenário underground.

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Johnson's "Thanks" (Little Onions, 1998)


             Na segunda metade da década de 90 muitas bandas brasileiras ainda se arriscavam em compor letras em inglês. Apesar de o "cenário" para estas bandas ser bastante restrito, haviam as formações que tinham bom domínio técnico e conseguiam se aproximar de suas referências, mesmo que as letras muitas vezes não tivessem muito o que dizer, mas como o rock não é exatamente passar uma mensagem, pouco importava se o público não compreendesse o que o vocalista cantava/gritava/sussurrava.

             Entretanto, também haviam as bandas que cantavam em inglês, mas que pela falta de talento para compor boas melodias, e de domínio mínimo do idioma de seus ídolos, atingiam resultados medianos e raramente conseguiam sair da primeira demotape. O trio de Luziânia/Go Johnson's faz parte deste segundo time, com a exceção de ter chegado ao primeiro disco e ter participado de eventos importantes, como a segunda edição do festival Goiânia Noise Festival, em 1996, e a gravação de "Direito de fumar" para o disco "Traidô", o primeiro álbum em homenagem ao Ratos de Porão.

          "Thank's" traz 12 canções próprias distribuídas em pouco mais de meia hora. Ouvir o álbum está longe de ser uma tortura, muitas melodias são agradáveis e remetem às guitar bands inglesas, como Teenage Fanclub e Ride - esta na fase "Carnival of light" -, porém os arranjos não trazem criatividade: o timbre de guitarra é sempre o mesmo, o baixo apenas segue as notas comandadas pelo  guitarrista, a dupla de frente é formada pelos irmãos Alex e Alan Patriarca, há também erros perceptíveis de virada de bateria. 

           Mas o pior mesmo está nas letras escritas num inglês do tipo 5ª série, e não há letras no encarte, mas a equalização do som permite que o ouvinte ouça, e entenda (?) o que é cantado. Os título já dão uma mostra, "Love me", "My girl maybe understand", e quando chega em "Bonnie & Clayde" - sim, eles conseguiram errar o nome de Clyde no encarte - é porque está na hora de ejetar o disco.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

V.A. "Emílio & Mauro" (Senhor F, 2007)


             Um dos shows mais importantes da história do rock paranaense não teve muita divulgação, nem muito público, muito menos é lembrado com frequência por quem esteve, ou não, presente. Na verdade, poucos sabem que numa altura do ano de 1993 os bares 92º Degrees e Hole receberam as bandas Graforréia Xilarmônica, Repolho e Emílio & Mauro. 

            Na época a Graforréia era a banda veterana e já havia até mesmo encerrado atividades quando o baterista Alexandre "Alemão" Birck recebeu algumas ligações de Eric Thomas, uma parte do Emílio & Mauro, com o convite para a banda de Porto Alegre/RS tocar na capital paranaense. Com alguma insistência o convite fora aceito e a escalação se completou com a vinda do Repolho, quarteto de Chapecó/SC com dois anos de existência e uma demotape, e o quarteto Emílio & Mauro, formado em Curitiba naquele mesmo ano e sem nenhum material.

                  O evento se tornou histórico por reunir três bandas com um proposta parecida, a de alterar a jovem guarda, ou de fazer uma "vanguarda jovem" com os pés fincados lá nos anos 60, mas com arranjos anárquicos e as letras naquela breguice meiga de corações quentes misturados a cerveja gelada. O encontro das três bandas provou que o sul do Brasil vivia naquele momento uma efervescência para poucos, todos imbuídos numa temática próxima, mas bem longe de ser um ideal.

                  Deixemos claro, para quem não sabe, que Emílio & Mauro não é uma dupla, muito menos tem algum integrante que atende por um dos nomes da suposta dupla, trata-se de um quarteto, sem baterista fixo, que nas poucas apresentações se completava com duas garotas fazendo backing vocais. O único registro viria depois que Emílio & Mauro já haviam encerrado atividades. Aquelas cerca de 50 canções que formavam o repertório ao vivo pediam por uma gravação que só veio em 1997, através de uma demotape de 50 cópias chamada "E que tudo mais vá pro inferno!" (Brasa Records). 

                A fita logo se tornou artigo raro e chegou às mãos de quem realmente já conhecia Emílio & Mauro, o suficiente para criar no sub-underground, espaço onde se localizam bandas com discos registrados em cassetes e fãs fieis em busca de conhecer aquilo para poder chamar "de seu". "E que tudo mais vá pro inferno!" é um reverência à tosqueira, dá capa com o diabinho até a gravação caseira com bateria eletrônica e erros de execução adicionais, tudo estava a serviço do lo-fi e da produção em computador, neste caso a tecnologia coube bem e até é difícil de pensar numa produção melhor para registrar definitivamente as 14 canções da demotape - que pode ser ouvida aqui!

          Contudo, os registros definitivos e melhor produzidos estão neste tributo - enfim chegamos ao disco, desculpa aí, mas no caso de Emílio & Mauro a lenda deve ser sempre lembrada. O disco com 23 canções reinterpretadas e também pode ser considerado o único disco da banda. No tributo 16 bandas de seis estados brasileiros revistam um repertório obscuro à sua maneira. O álbum abre com Osmarmotta refazendo nada mais do que oito canções do Emílio & Mauro, para este trabalho "arqueológico sonoro" houve a "curadoria" de Eric Thomas nos arranjos e nas letras, curiosamente o disco começa com a mesma "La Sonateta" que abre o único "disco"/demotape" dos homenageados. Osmarmotta trabalhou muito bem as canções que pegam nos ouvidos, como em "Estrela do mar" e "Tabaco de Menta". Canções de amor, algumas desesperadamente tristes, mas carregadas de humor e deboche.

                 Das outras bandas vale destacar o country-rockabilly do Bettie & The Bel Airs para "Beijo molhado"; o punk à Jovem Guarda dos cariocas do The Feitos para "Cheiro de amor", uma história de amor à Van Gogh com cheiro de álcool; o Mordida, que não poderia faltar, pois traz na formação uma parte de Emílio & Mauro, o guitarrista e vocalista Paulo Hde Nadal; a psicose garageira do tipo goth'a'billy do Gianinnis para "Laura"; a Graforréia Xilarmônica refazendo a história de amor emborrachada do hit "Adriana", também gravada pelo Repolho, para decepção dos fãs dos "colóno" que acreditavam ser uma canção de autoria dos irmãos Panarotto; os brasilienses do Sapatos Bicolores injetaram balada em "Prelúdio de amor e saudade" (fica até difícil chamar alguma destas canções de balada, pois todas são). Mas balada mesmo é "Pombo correio" na versão do Stereo Tipos, uma das mais belas letras de amor de Emílio & Mauro, o erro dos versos não foi perdoado nos comentários. Marcelo Mendes e Os Bacanas, discípulos candangos desta tríade neo-jovemguardista, mantiveram a produção lo-fi para "Jura-me"; O Capitão Sete entre blips e blops preservaram a mesma citação incidental de Celly Campello na doida "Barney Bun", há também um "roubo incidental" de parte do arranjo de metais de "Sossego". Os Atonais, fãs declarados da banda curitibana, fizeram bossa-nóia de "Disque é mentira", sensacional! O Repolho, que em algum momento também tem sua história confundida com parte da lenda Emílio & Mauro, botou vanerão invertido em "Carla Fernanda".

                Das maluquices, nenhuma chega a linda versão do Les Incompris para "Limão do futuro"; há também o black metal do Belzebrujos, de Altamira/PA, botando influência Mystifier no meio da Jovem Guarda alterada de "Desgraçada", o Eric Thomas gostou. E o punk/hardcore do Rancor numa versão mista de "Blitzkrieg bop" para "Narivaldo".

              O projeto gráfico beira à perfeição. O disco vem embalado num envelope tal como uma correspondência de Emílio & Mauro para o ouvinte, que no caso assume a função de "destruidor de corações". O encarte traz depoimentos de 16 entusiastas da dupla, entre músicos, jornalistas e fãs, incluindo uma fã psicografada, mais todas as letras, com comentários, além da bela capa. O álbum foi lançado em tiragem de 500 cópias pelo selo Senhor F e está esgotado há muito tempo. Portanto, aproveite para conhecer e baixe o disco no link abaixo.

              Quer ouvir? Download aqui!

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Kingargoolas (Independente, 2013)


            Na segunda metade dos anos 50 o filme "Balanço das horas" apresentou para o mundo o Rock'n'Roll, e não demorou para que no Brasil surgissem os primeiros cantores e bandas tentando fazer o ritmo. Por volta de 1958 foi a vez desta invenção norte-americana ganhar conjuntos instrumentais, notadamente The Ventures, The Shadows e Cousin String Alone, e o rock'n'roll começa a se abrir para a surf music. Em pouco tempo surge no Brasil a primeira banda dedicada ao som instrumental, o The Jordans, e desde então o Brasil sempre teve suas bandas de surf music.

         O estilo praieiro não se fechou em si mesmo e do surf music tradicional surgiram ramificações para o surf country, surf punk, o psychobilly bebeu muito da fonte e a new wave não seria tão ensolarada, e também sombria, sem a influência das guitarras da surf music. Em algum momento meteram quatro rodinhas numa prancha e o skatepunk de Dead Kennedys, Agent Orange e TSOL mostrou que a surf music também estava ali.


             Na virada no milênio o Brasil ganhou uma força de bandas dedicadas ao som instrumental, e nestas  uma nova onda de formações dedicadas a surf music. Em outubro de 2012 a publicação Sonata Magazine compilou no CD "Mercosurf" 14 bandas latino americanas de surf music, destas nove eram brasileiras. Quem abriu a coletânea foi o quarteto de Guarapauava/PR Kingargoolas.

               Formada em 2006, o Kingargoolas chega agora ao seu primeiro disco. Com 13 próprias, o álbum abre bem com a bateria rufando em "Enia, puxe o freio!". As baladas mais próximas do surf tradicional estão em "Lambreta sunburst" e "Acme speed dynamite". "Dança famigerada do viking engessado" e "Solobonite" mostram influência de reggae com direito a inserções ao dub, momentos chapados do álbum. Também tem as aceleradas "Ampolis Cacildis" e "Hipotálamos reverse", esta já conhecida da coletânea "Mercosurf". Há até umas aproximações com o ska, como em "Power caçamba combo", e country rock: "O cadafalso" com violão e trompete que remete direto às trilhas de filmes de faroeste, e "Trinity e las chicas del cancan", que fecha o álbum.

                 Para adquirir o disco escreva para a banda: kingargoolas@gmail.com

          Segue abaixo a entrevista que o Kingargoolas concedeu ao Disco Furado, com direito a um curso rápido de surf music para iniciantes com indicação de 10 álbuns fundamentais do gênero. Aproveite para conhecer os discos!

          [Disco Furado] Nos últimos dez anos a música instrumental brasileira ganhou renovação e revalorização por parte da mídia e do público. A surf music, notadamente um som instrumental, também passou por um processo de renovação?


        [Kingargoolas] A gente acha que sim. Muitas bandas surgiram nesse período e nós somos uma delas. Algo que exemplifica isso é que desde o início dos anos 2000 acontece o “Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe”, em Belo Horizonte, que é o maior festival de surf music do país, e diversas bandas passaram por lá no decorrer desses anos. Muitas encerraram suas atividades, porém muitas outras surgiram em diversas partes do país, gravam discos independentes e se apresentam em muitos lugares. Algumas até conseguem fazer turnês fora do país, tocando em festivais de renome na gringa.

           [Disco Furado] Qual a melhor parte de se compor surf music, encontrar um bom arranjo ou escolher os nomes dos temas?

         [Kingargoolas] Olha, as duas coisas são legais de se fazer ao compor, entretanto, no nosso caso não podemos negar que a gente se diverte muito dando nome para os sons. É um dos poucos momentos textuais de uma banda instrumental, então mesmo que a gente procure “batizar” as músicas com um nome que tenha relação com aquele som, aproveitamos o momento e até chegar em um consenso do nome a gente ri muito das besteiras que surgem.

          [Disco Furado] O que o Kingargoolas ouve? O que tem de legal na surf music brasileira?

        [Kingargoolas] A gente ouve muita coisa. Mas claro que rock n’roll nas suas mais variadas vertentes é o que todos escutam em comum. E sobre a surf music brasileira tem muita coisa legal. As bandas que a gente já tocou junto e as que a gente conhece pela internet quase sempre são boas. Pra exemplificar isso tem o cd “Mercosurf”, que saiu encartado no primeiro número da revista “Sonata Magazine” da qual a gente fez parte. Só ali tem várias bandas nacionais de responsa, e olha que tem várias outras que não entraram! Outra boa pedida pra quem estiver interessado em conhecer mais bandas de surf music no Brasil são os programas da web radio “Radio Cadillacs” apresentados pelo Paulão Mohawk. Sempre está rolando som bacana de bandas nacionais lá.

           Kingargoolas indica! 10 álbuns de surf music, entre nacionais e internacionais, para quem quer conhecer mais sobre surf music! Surf's Up!




The Bambi Molesters "As the dark wave Smells" (Dancing Bear, 2010)
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Los Straitjackets "The utterly fantastic and tottaly unbelievable sound of Los Straitjackets" (Upstart Records, 1995)
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The Lively Ones "Hang Five! The Best o The Lively Ones" (Del-Fi Records, 1995)
                             
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Dick Dale & His Del-Tones "King of the surf guitar" (Capitol, 1963)
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Man or Astro-Man? "Experiment zero" (Touch and Go, 1996)
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                              Os Ostras (Excelente Discos, 1996)
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The Dead Rocks "International brazilian surfs" (Monstro Discos, 2005)
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V.A "Mercosurf -  La surf music latinoamericana" (Sonata Magazine, 2012)
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Mullet Monster Mafia "Dogs of the seas" (Orleone Records, 2011)
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Retrofoguetes "Cha-Cha-Cha" (Independente, 2009)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Chelpa Ferro (Rockit!, 1997)


            Chelpa Ferro é um grupo multimídia criado em 1995 pelos artistas plásticos Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler com a proposta de unir várias frentes midiáticas. O Chelpa Ferro pode produzir instalações, vídeos, esculturas, catálogos e discos. a capa acima ilustra o primeiro trabalho em disco do grupo, aqui com a participação do produtor Chico Neves.

             O disco abre com uma faixa multimídia e segue com 20 faixas de experimentos com música eletrônica e percussão. São músicas instrumentais cheias de ruídos e barulhos, as "coisas" acontecem no fundo e os arranjos por mais experimentais que sejam, também são cheios de detalhes.

             O álbum, embalado numa caixinha de papel onde se encontra a capa, traz um encarte caprichado com  32 páginas de fotos, ilustrações e reproduções de obras do grupo. Há desde imagens de arquivo, como a foto da construção de Brasília retirada do acervo da extinta Revista Manchete, até referências a capa do disco "Todos os olhos" de Tom Zé, mas aqui a foto do "cu-sem-dono(a)" tá mais para um umbigo com bola de gude.

              Quer ouvir? Download aqui!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Lobotomia (New Face Records, 1987)


               Em outubro de 1984 surgia na capital paulistana mais uma banda de punk rock. São Paulo e suas bandas punks, que há pouco mais de um ano experimentavam lançar seus primeiros registros, agora viviam a segunda onda do movimento.

             Uma característica comum às bandas da primeira geração do punk rock paulistano era a dificuldade de conseguir instrumentos de qualidade, até mesmo "saber tocar" era uma conquista para aqueles jovens office-boys recém desempregados. Estes desafios não foram tão comuns às bandas da segunda leva do punk rock paulistano, pelo menos não fizeram parte da história do quinteto Lobotomia. O fato de serem jovens bem criados pode ter facilitado o acesso a instrumentos, estúdios de ensaio e gravação, assim como espaços para tocar, mas não evitaram o distanciamento dos temas tão caros ao gênero, tais como violência policial, miséria e fascismo.

Bizz, edição 23, junho de 1987
           O disco abre com o hino da banda. "Lobotomia" traz um tema novo ao punk rock nacional, antecipou em letra uma discussão que só ganhou conhecimento público 12 anos depois, a luta anti manicomial e o descaso do governo quanto ao "lixo humano amontoado nos manicômios". São 10 canções próprias, incluindo alguns possíveis hits como "Só os mortos não reclamam" e "Vítimas da guerra".

         A gravação traz aquela característica indissociável doss primeiros anos do punk rock brasileiro: instrumentos soterrados, som de pratos que mais perecem chiados, ecos nos vocais e solos de guitarra feitos num corda só Os riffs e as viradas de bateria, além da velocidade acelerada num crescendo, como em "Indigentes do amanhã", garantem o pogo.

         O primeiro registro em disco do Lobotomia levou três meses para ser gravado, um tempo longo se comparado com alguns discos nacionais do estilo que chegaram a ser gravados e mixados em poucas horas. O lançamento em LP ficou a cargo do selo paulistano New Face Records, propriedade de Fábio R. Sampaio, também vocalista do Olho Seco e responsável por boa parte dos discos de punk rock e hardcore que chegaram no Brasil nos anos 80, por meio de sua lendária loja Punk Rock Discos.

         O álbum do Lobotomia também ganhou uma rara reedição em CD e LP em 2006 através do selo de Osasco/SP Bucho Discos. Nesta reedição um bônus com 6 canções registrou a passagem do Lobotomia pela casa noturna paulistana Madame Satã, em 1987, gravação excelente na qual a banda mostra mais peso e velocidade do que em disco.

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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Crazy Legs "Off society rules" (Thirteen Records, 2001)


              Nos anos 80 o rockabilly foi resgatado por uma série de novas bandas em todo o mundo. Valia imitar e adaptar aos tempos de New Wave toda a estética dos primeiros e autênticos rockers, topetes engomados, sapatos em duas cores, jeans e jaquetas de couro.

Como não era mais possível levar a vida ao estilo anos 50, o estilo rockabilly ganhou no nome o apêndice Neo e mostrou que apesar dos atropelamentos sucessivos, que transformaram o rock em algo bem distante dos seus primeiros anos, ainda resistia na memória auditiva e afetiva de pessoas que não apenas cultuavam o estilo juventude transviada, mas também se alimentavam dos discos de Carl Perkins, Gene Vincent, Eddie Cochran e Stray Cats, este o principal nome do Neo Rockabilly.

          No Brasil o Neo Rockabilly teve o seu maior expoente ainda durante o ressurgimento do estilo com o quarteto paulistano Coke Luxe, de vida efêmera, mas com influência em tudo o que se fez no rockabilly nacional nos anos seguintes. Entretanto, por aqui poucas bandas se aventuraram em fazer rockabilly, muitas formações não chegaram a gravar e outras enveredaram o estilo para híbridos com a surf music, além de psychobilly, punk-a-billy, jazz-a-billy e  outros. Pode-se afirmar que não há muitos nomes do Neo Rockabilly em atividade, dá para contar nos dedos de apenas um mão e corre-se o risco de sobrar dedo. Dentre os nomes mais importantes do estilo no Brasil está o trio paulistano Crazy Legs.

          "Off society rules" é o primeiro registro da banda formada por Henry Paul, Sonny Rocker e McCoy. Um petardo de 13 canções em pouco mais de meia hora, no qual o Crazy Legs desfila as características básicas do rockabilly: baixo acústico bem marcado, kit de bateria econômico - apenas bumbo, caixa, prato de condução e chimbau -, e guitarra limpa desfilando solos em quase todas as canções. Todas as letras são em inglês, a maioria composta pelo baterista McCoy, com exceção das regravações, que não são poucas, com destaque para uma improvável e deliciosa versão para "Tainted love". 

            Não vale a pena destacar esta ou aquela canção, até mesmo a ordem das músicas no disco favorece a audição completa, "Please, please dad" e "16 & pine" servem para aquecer, em "Jack & his triumph" você já está estalando os dedos no ritmo da caixa e em "Leave me alone little baby" e "Off society rules" a mesinha de centro da sala já foi empurrada para o canto. Para acalmar tem a balada "Mostest girl".

            O álbum foi produzido pela própria banda e lançado pelo selo de Taubaté/SP Thirteen Records. O projeto gráfico é bastante completo e traz letras, ficha técnica e várias pequenas fotos do trio posando ao lado de um carro GMC. "Off society rules" é o único trabalho do Crazy Legs gravado com o vocalista Henry Paul. Um daqueles discos que pode-se ouvir em qualquer lugar e com qualquer companhia. Desconfie de quem não gostar!

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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Saci Tric (CD-demo, 1997)


             Formado em 1994, o quarteto de Salvador/BA Saci Tric atravessou a década de 90 produzindo demos, fazendo shows e influenciando uma série de outras formações na capital baiana.
Bizz, edição 184, novembro de 2000

           Este trabalho é um CD-demo, tem apenas quatro canções e não passa dos 12 minutos. A produção é muito boa e o disco podia ser um caprichado EP se tivesse recebido o mesmo cuidado com a produção gráfica, esta concebida de forma artesanal ainda que acompanhe letras e ficha técnica.

           O disco abre com "Coração superbacana", canção com cara de jovem guarda alterada tipicamente tropicalista, com contornos mais hard no refrão. "Botei" é mais funk e com solos de guitarra que atravessam toda a canção. Todas as letras são do vocalista Ronei Jorge. "Canal 100" fala sobre a alegria de torcer/sofrer por um time pequeno e também fez parte do repertório ao vivo da Penélope, outra banda baiana que dividiu palco e integrantes com o Saci Tric.

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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Space Invaders "Nas infecções mais graves, a posologia pode ser aumentada para 100 angstrons (2 comprimidos de 50)" (Bizarre, 2001)


           O longo e estranho título já dá uma mostra: o primeiro disco do trio de Pouso Alegre/MG não é um trabalho fácil. Criado na liberdade anarquista de arranjos, o som do Space Invaders é inclassificável. O híbrido de baixo-guitarra-bateria não segue nenhuma linha, ainda que divida com outros grupos, como o PexbaA, Diagonal e Debate, uma semelhança criativa, cada um à sua maneira.

        "Nas infecções mais graves..." traz 10 canções próprias de nomes tão improváveis quanto o que marca a lombada do CD, tais como "Seco ao abrigo da luz" e "Roberto Carlos". Muitas músicas têm vozes, mas não exatamente letras, ou então, sim, há letras, mas numa língua que ninguém entende. Portanto, não se trata de um álbum instrumental, mas é experimental até o som do último acorde. Os melhores resultados do trio estão em "Image coat hanger", "Valnei" e "Dança do sofá", esta puro Minutemen, muito bom! "Riff guide" fecha o álbum e traz a participação do coletivo Instituto e Lurdez da Luz. 

       Gravado em 1999 no estúdio El Rocha, em São Paulo/SP, o álbum foi o primeiro lançamento do selo paulistano Bizarre Music. O projeto gráfico é simples e com poucas informações, não há fotos do trio, muito menos "letras", se resume à ficha técnica econômica e design do ilustrador Rafael Lain.

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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Grenade (Slag Records, 2004)


            A capa com foto das quatro faces dos integrantes da banda em tom azul sob o fundo vermelho no qual se lê o nome Grenade na margem superior centralizada entrega, estamos diante do quinto disco da banda de Londrina/PR.

          O quinto trabalho do Grenade é também o primeiro. O primeiro a trazer o Grenade no formato banda, pois nos trabalhos anteriores quem assumia a banda era apenas o vocalista/guitarrista Rodrigo Guedes e seu porta-estúdio de quatro canais responsável pela gravação dos discos que fizeram do Grenade a one-man-band mais cultuada no underground brasileiro no final da década de 90.

           Grenade, o álbum, não tem título, o que mostra que o disco trouxe realmente uma guinada musical na vida de Rodrigo Guedes, do lo-fi à Guided By Voices, que deixou pelo menos um clássico - o disco "Grenade Is an Out of Body Experience" (Ordinary/Duckweed, 1999) - para o rock estradeiro de pés fincados nos anos 60/70.

               O álbum abre com a curta vinheta "Turn the page" que remonta aos tempos do porta-estúdio e logo em seguida, com "Old wish", já atira para longe a primeira das demais 15 canções próprias de arranjos caprichados e letras em inglês, num caso raro de banda que sabe compor e cantar na língua de Paul McCartney sem parecer um aluno do CCAA.

              As guitarras puxam canções como "Rainmaker", "Erase your head" e "Secret trick" e alternam momentos mais acústicos e bucólicos - "Gooday", "For her" - com riffs distorcidos que remetem ao Crazy Horse de Neil Young, influência mais que assumida de Rodrigo Guedes. O disco é repleto de lindas canções e aconselha-se ouvi-lo todo. Contudo, vale destacar algumas pérolas como a delicadeza alt-country de "Moving on", o 'crescendo' blues hipnótico de "Tonight" e a psicodelia de "Leave me alone" que fecha o álbum, impossível ouvir o fim do tema com barulhos de guitarra sem se lembrar do primeiro álbum do Killing Chainsaw.
Revista Zero, edição 11

         O formato banda foi fundamental para as canções ganharem pungência, mas a produção, feita toda num pequeno estúdio em Londrina, e, principalmente, a masterização a cargo de Steve Fallone - que tem no currículo trabalhos com Luna, Strokes, Sonic Youth, dentre outros - são responsáveis pelo som equilibrado do álbum, ainda que as guitarras sempre se sobressaiam.

            Gravado em 2002 o disco só chegou ao mercado em 2004 pelas mãos do selo paulistano Slag Records. A repercussão na mídia especializada foi excelente e o álbum figurou nas listas dos melhores discos do ano em várias publicações, também foi lembrado como um dos melhores discos nacionais lançados na primeira década do novo milênio. Há muito fora de catálogo, assim como os demais raros trabalhos do Grenade. Altamente recomendado!

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domingo, 27 de outubro de 2013

Psycho Drops "Another people" (W.O.D, 1994)


           O Psycho Drops atravessou a década de 90 lançando demo tapes, produzindo discos e fazendo shows,, neste tempo chamou atenção de produtores e público, mas sumiu sem deixar maiores vestígios depois de lançar o segundo disco, "Medo de ninguém" (Warner, 1996). O trio surgiu em 1991 na capital paulista, dois anos depois lançou a primeira fita demo e no ano seguinte o primeiro registro oficial.

               "Another people" é bem produzido, traz 13 canções próprias com letras em inglês em 38 minutos. Como um bom fruto de sua época, é possível observar características de bandas grunges, como em "Dinner" e "Slow". Mas não fica apenas na referência contemporânea daqueles anos, o disco é pesado e soa como poucos álbuns nacionais disponíveis até então, destaques para "Rage", "Art" e "Children watchin' TV".

           O álbum foi lançado pelo obscuro selo francês W.O.D. numa ocasião no mínimo curiosa. Um acordo verbal entre o Psycho Drops e o dono da gravadora garantia que o selo pagaria a gravação e lançaria o álbum, para a banda ficariam mil cópias e serem distribuídas no Brasil, o restante seria divulgada da França. O que de fato ocorreu. As cópias brasileiras logo desapareceram, assim como a W.O.D. Records e toda a promoção gringa. O CD foi fabricado nos Estados Unidos, entretanto, o encarte do disco apresenta um endereço em São Paulo para a W.O.D.

           Nos anos seguintes a banda preparou outra demo tape e foi sondada pelo selo Banguela para um novo disco. Mas a Banguela Records fechou as portas antes de "Medo de ninguém", que trouxe o Psycho Drops com letras em português, chegar ao mercado, o que só veio via WEA, a gravadora que dava suporte de distribuição para a Banguela.

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

V.A. "Baião de Viramundo - Tributo a Luiz Gonzaga" (YB/Candeeeiro, 2000)


              Em 2000 o Velho Lua completaria 88 anos, mas "Baião de Viramundo" não se trata de um disco comemorativo, e sim de um tributo com vários nomes brasileiros, grande maioria pernambucanos, afirmando (ou não) a influência que o rei do baião tem em seus trabalhos próprios. A seleção é bastante abrangente e os arranjos nem sempre são levados à risca. Pelo contrário, dos 16 nomes selecionados poucos são os que mantém suas versões próximas do originais.

             O disco abre com o encontro dos rappers Black Alien & Speed Freaks com Rica Amabis para recriar o lamento "Vozes da seca". DJ Dolores, acompanhado de vozes das meninas da Comadre Florzinha e mais samplers desconstrói "A dança da moda". Otto injeta pandeiro e eletrônica pé-de-serra em "Orélia". Stela Campos desacelera "Sabiá". Um dos maiores clássico de Gonzagão, a linda "Qui nem jiló", não perde tanto na voz de Andrea Marquee, ainda que a canção merecesse um melhor tratamento. O mesmo acontece com os arranjos finos do Nouvelle Cuisine para "Acauã", descaracterizando completamente a toada composta especialmente para o "William Hearst canastrão" Assis Chateubriand. O Sheik Tosado desce a lenha frevo-hardcore em "Assum preto" outro grande sucesso de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Anvil FX em companhia do canto narrado de Lex Lilith - aka Alex Antunes - despejam esquisitice noise-eletrônica na homenagem "LG - tu'alma sertaneja". A Nação Zumbi imprimiu sua personalidade no forró viajante de "O fole roncou". O Eddie, que é bom de ritmo, quebrou o balanço de "Retrato de um forró". A percussão infinita de Naná Vasconcelos e as cordas de João Carlos transformaram o lamento de "Juazeiro" numa canção instrumental, densa e detalhista. 

              Dos que fazem do "Baião de Viramundo" uma homenagem sem interferir tanto nos xotes, baiões e forrós, vale destacar a bela interpretação do Mestre Ambrósio para "Cacimba nova", na qual Siba se mostra como um dos herdeiros da melancolia do filho de Exu. O mundo livre s/a reinterpreta bem o divertido debate-embolada "Dezessete e setecentos". O Cascabulho segue a mesma linha do Mestre Ambrósio e levantam a poeira 'for all' em "De Juazeiro a Crato", a canção não deu trabalho para a voz Silvério Pessoa, altamente influenciada pelo menino de Exu. Chão e Chinelo mantém o peso no baião de retirante "Marimbondo". O quarteto de vozes femininas Comadre Florzinha resgatam o baião "Minha fulô" num arranjo econômico de percussão.

         "Baião de Viramundo" foi lançado pela união dos selos YBrazil?Music, de São Paulo/SP, com o selo candeeiro, de Recife/PE. O projeto gráfico, a cargo de Valentia Trajano e Jorge Du Peixe, é caprichado e bastante completo, traz ficha técnica dos participantes e texto do jornalista Xico Sá para todas as canções. O disco teve uma repercussão razoável e logo tornou-se um trabalho de difícil alcance de público, que em sua maior parte não viu homenagem alguma nas 16 versões de sucessos de Luiz Gonzaga.

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Living in the Shit "Chá Magiológico" (Rec Beat Records, 1996)


              O Living in the Shit foi formado em Maceió/AL no começo da década de 90, as primeiras demo-tapes da banda traziam um som pesado, meio metal e punk, com letras em inglês de títulos bastante explícitos como "Carrot in the ass" e "Expectorate in you". Com o passar dos anos a banda foi adicionando novas influências em seu som, notadamente do manguebeat, mas também do rap e hardcore.
Bizz, edição 130, maio de 1996
              O fruto destas transformações no som do quinteto está presente em seu primeiro e único disco, "Chá magiológico". O álbum gravado entre 1994 e 1995 traz 16 canções com letras em inglês e português em quase uma hora de duração. A influência do manguebeat está na percussão e nos arranjos de guitarras, cheias de peso e groove. Por sinal groove é o que não falta em "Chá magiológico", com destaque para "Rojão", "Chá magiológico" e a instrumental "Awinthila dreams". O disco também traz punk rock sem letra, "B line"; reggae, "Raputenga" e ska, "Cabelo é bom pra descabelar". Assim como seus contemporâneos, a maconha também é reverenciada nas letras, "Ganja yeah!" e "Eu quero charlar", esta uma das melhores canções do álbum.

             "Degustação" é a única exceção às próprias, e também a mais escatológica de todas, autoria de Rita Lee e Roberto de Carvalho. "Pessoas bad comunication" já havia sido apresentada na coletânea "Brasil Compacto" (Rockit!, 1996) e conta com a participação de Lucio Maia (Nação Zumbi) na guitarra e Stela Campos nos vocais.

          "Cha magiológico" foi lançado pelo selo de Recife/PE Rec Beat Discos e teve excelente repercussão. O projeto gráfico e bastante completo com letras, ilustrações, ficha técnica e endereços de fanzines fundamentais para a cena roqueira do nordeste como Escarro Napalm, de Aracaju/SE, e Bio Arte, de Maceió.

           Provavelmente o Living in the Shit tenha sido o nome mais conhecido do cenário roqueiro alagoano de projeção nacional nos anos 90. Entretanto, tal recepção ao trabalho não foi suficiente para manter a banda em atividade nos anos seguintes. Depois do fim da banda, e 10 anos após o lançamento de seu único disco, o Living in the Shit voltou para uma ocasião comemorativa no Festival de Música Independente, em Maceió.
        
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domingo, 20 de outubro de 2013

Grinders (Ataque Frontal, 1987)



               Principal nome do skate punk brasileiro, o Grinders foi formado no ABC Paulista em 1984 por jovens punks que andavam de skate. A proposta inicial era fazer um som, punk rock/hardcore, cujas letras não fugissem dos temas do cotidiano, mais precisamente do cotidiano das pistas de skate.

            A primeira gravação em disco aconteceu no ano seguinte à formação da banda, na coletânea "Ataque Sonoro", que reuniu 10 bandas punks de Sâo Paulo e Rio de Janeiro. Da coletânea saíram dois clássicos do Grinders, "Skate gralha" e "Como é que pode?". "Skate gralha" foi cantada em pistas do Brasil todo, atravessou gerações e tornou conhecidos os autores daqueles versos que enxotavam o mau skatista que "tesourava" e atrapalhava os outros, "vai prá casa animal!". "Skate gralha" é entoada em picos de skate até os dias de hoje.

Bizz, edição 28, novembro de 1987
           A gravação do primeiro disco aconteceu em 1986, 12 canções com produção de Redson Pozzi (1962-2011), o lançamento só veio no ano seguinte pelo selo Ataque Frontal. O som era punk rock com influência de surf music que já se esboçava nas bandas de skatepunk norte-americanas, como Agent Orange, TSOL e Boneless Ones. O disco abre com a canção instrumental que dá título à banda, segue com o clássico "Skate gralha", o tema skate também ganha as letras de "Ande de skate ou morra" e "Minha vida". Uma versão, também instrumental, para o tema do "Homem Aranha" comprova a aproximação do punk rock com surf music. Outros temas caros às bandas punks também dão as caras aqui como o anti-nazismo, "Destrua um monstro nazista", militarismo, "Serviço militar", e miséria, "Ruas de Soweto".

           O álbum fecha com "Como é que pode?" e "Puta vomitada", esta última é outro clássico do Grinders, também gravada pelo DFC e sempre presente no repertório de muitas bandas punks brasileiras, como os curitibanos do Ovos Presley que sempre incluem a música em seus shows.

                O álbum teve excelente repercussão e levou o Grinders a se apresentar em muitos festivais. A capa de George G, sob idealização do baterista Tuka, tem muita identificação com o trabalho sonoro do quarteto e está entre as melhores capas de discos brasileiros.

               O Grinders se manteve até na ativa 1993 e retornou em 1996 para shows. Em 2000 o primeiro disco foi relançado em CD, pela mesma Ataque Frontal e com o acréscimo de mais 16 faixas incluídas como bônus. A volta foi comemorada e incentivada por fãs da banda como Marcelo Donald (Gritando HC), Chorão (Charlie Brown Jr.), Tatola (Não Religião) e Renato Martins (Ataque Frontal). No final da primeira década do novo milênio o disco ganhou nova edição em CD no formato digipack, numa parceria da Ataque Frontal e Thirteen Records, mantendo todos os bônus da primeira edição em CD e com o título "Skatepunkmusic".

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