segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Elroy "Saturated" (Spicy Records, 2000)




         O compacto com três canções é o único registro em disco do quarteto paulistano Elroy, soma-se ao compacto mais três fitas K7 que completam a "discografia" da banda, além de uma participação na coletânea "100% Stereo", encartada na revista 100% Skate. Formado em 1998 por Rafael Crespo (Guitarra e vocal - ex-Planet Hemp), Ricardo Mix (bateria), Sato (baixo - ex-Mickey Junkies) e Luana (guitarra), a banda teve uma curta trajetória e fez poucos shows.
Elroy ao vivo no lendário Garage, Rio de Janeiro (autor desconhecido)

O som é indie-guitar-lo-fi com influência de hardcore, altamente recomendável para quem gosta de bandas do underground norte-americano como Superchunk, Seaweed, Dinosaur Jr... tem momentos mais pesados, "Saturated" e "Season's end", e acústico "Alone".

O EP 7” lançado pela Spicy Records, selo de Rafael Crespo, não teve nenhuma repercussão de mídia especializada. O projeto gráfico traz poucas informações, mas é bem ilustrado.

domingo, 30 de dezembro de 2012

V.A. "Clip Independente" (Rádio Brasil 2000 FM, 1993)




         A coletânea “Clip Independente Volume 1” é parte do projeto do programa de rádio Clip Independente, idealizado e produzido por Osmar Santos Jr, o programa entrou no ar junto com a criação da Rádio Brasil 2000 FM 107,3, pela Faculdade Anhembi-Morumbi, em setembro de 1986.

         O programa semanal tinha por objetivo levar bandas independentes para a programação de rádio, pouco depois o programa também ofereceu para as bandas convidadas a possibilidade de gravação de fitas demo de boa qualidade, afinal, as apresentações ao vivo eram gravadas e as passagens de som também podiam ser registradas. Conta-se que no tempo de três anos que antecederam o álbum “Clip Independente Volume 1” foram gravadas mais de 150 fitas, o Mickey Junkies que participa desta coletânea gravou uma fita demo ao vivo no Clip Independente.

         Muitas bandas de vários estados passaram pelo programa, desde nomes importantes do underground nacional como Ratos de Porão, Second Come e Okotô, até bandas com experiências em grandes gravadoras, Made In Brazil e Ultraje a Rigor, por exemplo. As mais pedidas pelos ouvintes retornavam na programação normal com as canções gravadas no Clip Independente. Entretanto, “Clip Independente Volume 1” não é o primeiro disco do programa, que já havia editado em 1989 o álbum “Blues e derivados” de Nuno Mindelis, além de um disco ao vivo de Lord K e o único trabalho do Quinteto Buenos Aires.

“Clip Independente Volume 1” traz 9 bandas paulistanas escolhidas pelos ouvintes, cada banda com uma canção. O disco não se prende a nenhum estilo dentro do rock e tenta uma abrangência nas diversas linguagens da produção independente da época. Zero Vision e Canis representam a parte heavy pesada, a primeira se destaca com o som industrial de “Worms”; o Anjo dos Becos traz o rock festeiro com direito ao solo de saxofone do hit da banda “Na noite somos todos iguais”. Outros destaques ficam para o som psicodélico e estradeiro do 3 Hombres em “Geladeira amarela”, o som pesado e sujo do Mickey Junkies em “Holiday on ice” e o único registro em disco da banda de Stela Campos, o Lara Hanouska, em “The game is over”. Traz ainda o groove funk heavy do Malaco Soul, o rock inglês do All of Us e o progressivo do A Casa Caiu, com participação de Paulo Zinner na bateria.

Para a realização da coletânea, a Brasil 2000 FM fez uma parceria com a gravadora BMG-Ariola que se incumbiu de prensar uma pequena tiragem do LP que não seria comercializado e sim distribuído entre as bandas e na mídia. O projeto gráfico é bastante caprichado com direito a um fanzine preto e branco de 12 páginas com fotos e apresentação de todas as bandas, além de encarte com todas as letras e capa colorida com foto de todos integrantes das 9 bandas reunidos. Um trabalho único e honesto que não teve sequência principalmente pela sua característica não comercial. Bela iniciativa.

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sábado, 29 de dezembro de 2012

Dead Fish "Sonho Médio" (Terceiro Mundo, 1999)


"Sonho médio" é o segundo disco do quinteto hardcore de Vitória-ES Dead Fish. Um trabalho que trouxe mudanças para a banda, pois se trata do primeiro disco da banda com letras em português. O álbum tem 14 canções rápidas, algumas mais próximas do hardcore melódico, à Bad Religion, e outras mais pesadas. Há também duas música em inglês  "Damn' lie" e "Lost soul", retiradas da primeira demo tape do Dead Fish, de 1997.

Revista Rock Brigade
A mudança de idioma foi bastante positiva para a banda, que se adaptou muito bem às novas letras e assim ganhou força na transmissão de mensagens, algo importante e que pode ser observado nas boas letras do álbum. Alguns destaques estão na lembrança dos anos de Ditadura Militar brasileira e abertura política em "Modificar", exploração indígena e ambiental em "Paz verde", consumismo em "Sonho médio", esta também ganhou vídeo clipe e pode ser considerada como hit do disco.

"Sonho médio" foi o primeiro disco do Dead Fish lançado pelo selo próprio da banda, Terceiro Mundo Produções Fonográficas, relançado pela Deck Disc em 2005. Gravado inteiramente em Vitória por Índio e produzido pela banda, o projeto gráfico é bastante completo, traz letras, ficha técnica e foto, tudo na cor verde musgo. A repercussão foi bastante satisfatória para o Dead Fish, que se tornou um nome forte do hardcore nacional, consequência dos muitos shows por vários estados, da boa distribuição de material, além das entrevistas e resenhas positivas, principalmente em fanzines.

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Karne Krua (LóKaos Records, 1993)


  A mais tradicional banda sergipana, e uma das de maior longevidade no punk rock hardcore do Nordeste é o Karne Krua. Quarteto formado em 1985 por Silvio 'Suburbano' Campos (vocal) e Almada (bateria) e que resiste até os dias de hoje, da formação que gravou este primeiro disco, que conta com Marlio (baixo e Marcelo Gaspar (guitarra), apenas Silvio permanece na banda.

O álbum sem título traz 15 canções de autoria própria e com letras em português, o som é punk rock e hardcore sem frescuras, canções curtas com letras que não fogem dos temas de protesto característicos das bandas punks: política e corrupção em "Hienas na carcaça" e "Política da seca", ameaça nuclear em "Contaminados", exploração dos trabalhadores em "Sindicato". Os destaques são "O vinho da história" e "Brasil heroico".

   Karne Krua, o disco, foi gravado em Recife/PE com instrumentos emprestados por outra importante banda de punk-hardcore, o Câmbio Negro HC, a produção é da própria banda com o auxílio de Nino, baterista do Câmbio Negro. Lançado pelo selo Lókaos, propriedade de Silvio que também funcionava como loja de discos em Aracaju/SE

            O projeto gráfico é bastante completo, feito em duas cores segue os ensinamentos do punk rock para as artes gráficas, foi relançado em CD. O disco teve uma boa repercussão local, mas não permitiu ao Karne Krua uma aproximação com outros cenários de punk rock e hardcore, entretanto a banda dividiu palco com praticamente todos os principais nomes do estilo. 

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Graforréia Xilarmônica "Coisa de Louco II" (Banguela, 1995)



O que dizer sobre um dos discos mais importantes do rock brasileiro de todos os tempos?  O que escrever sobre uma banda que reúne tantos talentos e faz músicas tão boas de sonoridade quanto de letras? Nada. Até porque faltam palavras para descrever o que acontece em “Coisa de Louco II”, o primeiro disco do trio porto-alegrense Graforréia Xilarmônica.

  
“Coisa de louco II” abre com “Literatura brasileira” e já mostra o potencial para os arranjos malucos, nos quais os três instrumentistas se destacam, impossível não observar o excelente trabalho de guitarra de Carlo Pianta, além da excelente letra de Marcelo Birck e Frank Jorge, com direito a citação incidental de “Slave to Love” de Brian Ferry. “Você foi embora” de Pianta & Jorge ganhou videoclipe.


Revista História do Rock Brasileiro, volume 04
A primeira gravação de “Amigo punk” em CD, um dos maiores clássicos do rock gaúcho e creditada a dupla Birck & Jorge, aconteceu neste álbum. Que dá outros hits não aproveitados, tais como “Nunca diga” e “Se arrependimento”, além de outras como “Denis”, “Benga velha companheira” e “Eu digo 7”, que de tão divertidas tornam difícil ouvir “Coisa de Louco II” apenas uma vez.

A maior parte das músicas do álbum trazem canções de amor, mas a criatividade dos arranjos chamam tanto a atenção quanto as letras, isto está na sequência “Tive teu nome”, “Grito de Tarzan” e “Empregada”, esta gravada também por Wander Wildner no álbum “Baladas Sangrentas”. As influências do punk rock e da Jovem Guarda estão presentes em “Minha picardia”, “Patê” e “Twist”, esta meio punk meio bubblegum.


Revista Zero, edição 05
O álbum teve uma repercussão muito positiva e saiu de catálogo tão logo entrou, tornou-se raridade muito por conta da estrutura do selo Banguela, que naquele ano, 1995, mais se preocupava em lançar bandas interessantes do que trabalhar os lançamentos, muitos ficaram apenas na tiragem inicial. Isto para a Graforréia Xilarmônica foi bastante prejudicial, afinal a banda já era um nome conhecido no Rio Grande do Sul e mesmo no underground brasileiro. O projeto gráfico de “Coisa de Louco II” é bastante trabalhado e traz fotos da banda, todas as letras e ficha técnica. Três anos depois a banda lançou por um pequeno selo de Porto Alegre o derradeiro segundo disco, “Chapinhas de ouro”, e depois entrou num grande intervalo. A curta discografia da Graforréia Xilarmônica é uma ofensa a criatividade da banda e a boa discografia do rock nacional. “Coisa de Louco II” é imperdível!


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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Bia Grabois "Rock Me" (Dubas, 1999)



A maringaense adotada pelo Rio de Janeiro Bia Grabois surgiu na coletânea “O ovo” e despontou para seu primeiro e único disco, “Rock me”. O álbum tem 12 músicas próprias com letras em português e sonoridade influenciada meio pop e meio punk.

Bizz, edição 172, novembro de 1999
“Rock me” abre com “Céu negro” e segue com o bom arranjo triste de violão e cordas em “Baby”. A faixa título põe o álbum na ordem do rock, foi razoavelmente executada em algumas poucas rádios e pode ser considerada como o 'hit' do disco. Em “Patricinha abandonada” a linguagem é de punk rock, a letra faz crítica à futilidade consumista da patricinha de baixa renda, o refrão ganhou o apoio vocal de Wander Wildner. A fantasmagórica “O medo” é apresentada em português e em espanhol escondida na última faixa. Todas as letras são autorias conjuntas de Bia e seu irmão Mário Grabois.

O disco foi lançado em CD pelo selo carioca Dubas e distribuído pela Universal Music, o que fez com que “Rock me” chegasse às lojas. Produzido por Tom Capone, Plínio Profeta e Vulgue Tostoi, traz projeto gráfico de Fernanda Villa Lobos e Barrão. As fotos de Bia são autorias de Christian Gaul com ilustrações de Daniel Grabois.

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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Astromato "Melodias de uma Estrela Falsa" (Midsummer Madness, 2001)


O único disco do trio de Campinas/SP Astromato é um dos poucos exemplos de registro de guitar band brasileira com letras em português. Algo que já estava presente nas demotapes que antecederam o álbum, e que de tão elogiadas abriram portas para a banda se tornar conhecida no cenário independente nacional na virada do século. 

 O trio já vinha de outras experiências, inclusive uma razoavelmente conhecida, o Weed, que fez bastante shows e lançou algumas fitas demo na primeira metade dos 90’s.

Bizz, edição 189, abril de 2001
“Melodias de uma estrela falsa” tem 17 canções, todas de autoria da banda e bastante melodiosas com bateria programada e guitarras distorcidas solando nos espaços entre os vocais sussurrados do trio Armando, Pedro e Frebs. As letras trazem melancolia adolescente, mas são otimistas. Algumas poderiam facilmente entrar na programação de FM, como “Sonhos de alta definição”, “Não sei jogar” e “Canção do adolescente”, esta foi incluída na coletânea em CD que acompanhou a primeira edição da revista Frente, curiosamente o CD intitulava-se “Canções que gostaríamos de ouvir no rádio”. “No macio, no gostoso” é hit instantâneo, um ‘clássico’ que chamou a atenção do público quando o Astromato participou do programa Musikaos, na TV Cultura.

O álbum teve boa repercussão na mídia especializada, rendendo até uma matéria de duas páginas na revista Bizz, numa de suas últimas edições antes do primeiro grande intervalo. Lançado pelo selo carioca Midsummer Madness o disco não permaneceu muito tempo em catálogo e há muitos anos encontra-se esgotado. O projeto gráfico é bem trabalhado, traz letras, ficha técnica e fotos. Os bons resultados obtidos com o álbum não foram suficientes para o Astromato seguir e pouco tempo depois a banda encerrou atividade.

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Violeta de Outono "The Early Years" (Wop Bop, 1989)



          O cultuado trio paulistano registrou em 1989 uma K7 com quatro regravações de bandas influentes para o Violeta de Outono. Era uma ideia antiga da Wop Bop, mas que ficou guardada após a banda ser contratada pela BMG, que lançou dois discos da banda, um homônimo de 1987 e o "Em toda parte", de 1989. Por sinal, foi o Violeta de Outono a banda escolhida por René Ferri, proprietário da veterana e importante loja de discos Wop Bop, para inaugurar o filão fonográfico da loja. Assim surgiu o primeiro registro do Violeta de Outono, o EP "Reflexos da Noite", lançado no formato LP de 12 polegadas e 45 RPM, e o início do curto catálogo da Wop Bop.

A ideia do EP de covers foi retomada anos depois, e funcionaria como um objeto raro e caprichado. A Wop Bop não lançava fitas K7, apesar de fazê-lo em duas únicas ocasiões, neste registro do Violeta de Outono e numa reedição do disco "Fairy tales" do Harry, que no K7 contém 4 músicas a mais. 

     Para “Early Years” foi preparado um pacote especial para os fãs, além da fita K7, havia um flexidisc com um trecho de canção inédita e um fanzine de 10 páginas impresso em papel couché com release, fotos, trajetória dos integrantes pré-Violeta, além de curiosidades como o playlist do programa 12’o Clock Rock da rádio KPFK de Los Angeles, no qual a canção “Reflexos da noite” é executada no mesmo bloco que “The candle and the flame” do estreante álbum “Ragin’ full on” do Firehose.

   As regravações ficam por conta dos heróis do trio: Gong, Pink Floyd, Rolling Stones e Beatles. Do clássico disco “The piper at Gates of dawn”, primeiro do Pink Floyd, foi retirada “Interstellar overdrive”, com participação especial de RH Jackson nos teclados e programações eletrônicas. “Citadel”, do álbum “Their Satanic Magestic Request” do Rolling Stones, ganhou arranjo bastante fiel ao original de 1967. "Blues for findlay" e "Within or without you", do Gong e Beatles, tem participação do sax tenor de Lívio Tragtemberg. As quatro canções também estão presentes como bônus no disco “Eclipse” (Record Runner, 1995), que traz o Violeta de Outono numa gravação ao vivo de show realizado no SESC Pompéia em 1986.

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domingo, 23 de dezembro de 2012

Julio Reny & Expresso Oriente (Pirata Sulista, 1989)




Primeiro disco de Julio Reny, realizado depois de alguns anos batalhando espaço no underground porto-alegrense e se tornar nome conhecido também como DJ do programa Negras Melodias, na Ipanema FM. Antes de gravar este disco Julio Reny já tinha composições gravadas e participações em coletâneas, porém aguardava uma oportunidade de ser lançado por uma grande gravadora, o que não aconteceu, mas também não impediu que Julio Reny gravasse suas belas canções de maneira independente.

          O álbum divide umas canções mais funks com baladas românticas. “Anita”, que abre o disco, tem um arranjo de guitarra bem trabalhado e é considerada um dos hits do álbum que rendeu outras canções bastante executadas pelas FMs rio-grandenses, como “Não Chores Lola” e “Amor e Morte”, esta apresentou Julio Reny para além do Rio Grande do Sul e teve clipe bastante veiculado pelos programas de música do final da década de 80. O clássico “Sandina”, de Jimi Joe, surge bastante dançante com um arranjo de percussão marcada pelos ritmos latinos. Há também um reggae em “Jogada noturna”.

Da parte romântica não há como não destacar a beleza das letras de amor desesperadas de “Razões do Coração” e “Expresso oriente”; na regravação de “Amada Amante”, de Roberto Carlos, Julio destila todo o seu potencial de crooner.

Julio Reny & Expresso Oriente foi lançado pelo selo independente porto-alegrense, quase desconhecido, Pirata Sulista. O projeto gráfico é bastante caprichado e feito em apenas duas cores, na contracapa há um foto da banda completa, o encarte traz todas as letras e ficha técnica.

        O disco teve uma excelente repercussão local, mas sua distribuição não atingiu outros estados, fato que inviabilizou a ascensão nacional de Julio Reny que neste álbum demonstrava qualidade para atingir uma popularidade maior, bom para Porto Alegre que ficou com uma de suas vozes mais características.

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sábado, 22 de dezembro de 2012

Maybees "Picture Perfect" (Polytheme Pam, 2000)


O quinteto paulistano Maybees se deu bem no seu segundo disco. Depois do primeiro trabalho que apresentou a banda num jeitão meio jovem-guarda-bubblegum com letras em inglês, “Picture perfect” mostrou que a banda tinha canções mais elaboradas, arranjos mais criativos e boas letras, a maioria composta pelo guitarrista e tecladista Mauro Motoki.

Bizz, edição 185, dezembro de 2000
O álbum tem 14 canções próprias e bastante melodiosas, nas quais se destaca a bela voz de Vanessa Krongold. Os arranjos são calmos, mas dão espaço para guitarras distorcidas e outras intervenções, como os instrumentos de sopro. Têm canções muito boas, como “Too late”, do guitarrista Habacuque Lima, “Heaven is a movie theatre” e “Erika”. Em “Understand you’re tired” o arranjo de cordas transforma a canção numa daquelas baladas de rock adolescente norte-americano, do tipo filmes de formatura. A faixa título é uma das mais bonitas do Maybees e tem participação da guitarra inconfundível de Edgard Scandurra, em “Onion taste hater” a convidada é FernandaTakai.

“Picture perfect” teve uma excelente repercussão, a tiragem inicial foi rapidamente esgotada e o Maybees fez bastante shows, além de participar de programas de TV, tais como  Musikaos e RG, ambos da TV Cultura. O disco teve uma produção caprichada, lançado pelo selo paulistano Polytheme Pam, assim como no primeiro álbum, e produzido por Marcelo Fontanesi, proprietário do selo, um contrato de distribuição com a RDS Fonográfica fez com que o disco chegasse às lojas, algo raro quando se trata de discos independentes. O projeto gráfico é completo e traz belas fotos de todos os integrantes, além de ficha técnica e letras.

Durante o lançamento do disco o Maybees passou por uma mudança que provocaria o fim na banda. As novas composições com letras em português não se encaixavam no repertório dos discos e com por esta razão a banda encerrou atividades para dar lugar ao Supertrunfo, nome provisório até chegar ao Ludov.

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

V.A. "O Começo do Fim do Mundo" (SESC, 1982/Gravações Sem Qualidade, 1997)

            

         O terceiro lançamento de punk rock nacional foi a coletânea "O Começo do Fim do Mundo" (antecedida pelo compacto do Lixomania e pela coletânea "Grito Suburbano" - com Cólera, Inocentes e Olho Seco). Um disco histórico, pois registra o evento ocorrido no SESC Pompéia, em São Paulo/SP, nos dias 27 e 28 de novembro de 1982, considerado como o primeiro festival punk na América Latina.

Retirado da revista General, edição 08
O festival foi idealizado pelo escritor e teatrólogo Antônio Bivar e Tonhão Calegari, do Inocentes, que entraram em contato com o SESC com a proposta do evento. Para o SESC, além de ceder o espaço, ficou a incumbência de alugar o equipamento de som e lançar o LP com as a gravação ao vivo das bandas. E foi assim que aconteceu, obviamente a polícia interveio e acabou com o festival antes do previsto. Contudo, a violência policial não eliminou a importância do evento, que marca a aproximação dos punks da capital paulista com o punks do ABC, além de provar que existia uma grande quantidade de punks em São Paulo. 

Muito dessa "onda punk" surgiu como moda, o estilo chegou ao Brasil como estética visual de calças rasgadas, alfinetes nas faces e cabelos desgrenhados, junto vieram as bandas, algumas mais politizadas, panfletárias, e outras que se importavam apenas com barulho. Porém, uma coisa é certa, de lixo, miséria e violência aqueles jovens dos subúrbios paulistanos conheciam muito bem.

Foram 21 bandas divididas em dois dias, praticamente todas as bandas de punk rock que existiam em São Paulo no ano de 1982 participaram do festival. 19 delas entraram na coletânea em LP, na reedição em CD, de 1997, foi incluída uma canção do Ulster, e na fita VHS com as raras imagens do festival tem a apresentação da banda punk de garotas Skizitas, que ficou fora do álbum, inclusive a autoria das imagens do vídeo é uma incógnita até os dias atuais.

Pipoca Moderna, edição 03, janeiro de 1983
A gravação é tosca e foi feita num tape deck, ou seja, foi gravado numa fita cassete e depois reprocessado num estúdio de dois canais para se tornar o LP lançado pelo SESC  com tiragem de 300 unidades. A edição em CD mantém a qualidade do LP, afinal, teve o áudio retirado do próprio vinil e foi relançado pelo selo Gravações Sem Qualidade, de Fábio Sampaio, vocalista do Olho Seco e dono da loja Punk Rock Discos, um personagem fundamental para a história do movimento punk brasileiro.

As bandas contribuem para a "tosquêra" e poucas conseguem se sobressair no meio dos vocais berrados, da guitarra com a mesma distorção e da bateria martelada, ainda assim, no meio da selvageria surgem bons trabalhos. O Neuróticos com "Careca" mostram-se bastante informados com seu som Oi! Inocentes apresentam o clássico "Salvem El Salvador", gravada posteriormente nos álbuns “Miséria e fome” (Independente, 1983) e "Pânico em SP" (Warner, 1986). Ratos de Porão com Jão no vocal em "Novo Vietnã". Cólera engajados com "C.D.M.P. (Cidade dos meus pesadelos)". Ulster que tocavam encapuzados e se aproximam do hardcore com "Heresia". Olho Seco, rápidos e pesados, em sintonia com os sons europeus mais violentos com a não menos clássica "Haverá futuro?", que contém o mesmo discurso de abertura repetido em quase todas as posteriores execuções da canção. Outros destaques ficam para o Lixomania, Extermínio e Hino Mortal.

Imagem da bandeja do CD, não traz autoria
         
        O Começo do Fim do Mundo acabou com uma grande quantidade de jovens sendo levados pela polícia e outros tantos pelo Juizado de Menores. O festival entrou para a história como o evento mais representativo do punk rock latino-americano. O disco e sua bela capa com os punks no pátio do SESC Pompéia, local em que foi montado o palco, logo se tornou item disputado.

             Nos jornais da época o evento ganhou destaque não pela sua relevância e sim pela violência dos punks, tidos com agressivos, e até eram, não dá para negar, e pela ação da polícia, está como controladora da ordem e a serviço do público. Dizem que os vizinhos do SESC Pompéia chiaram e a presença da polícia se tornou inevitável. Por outro lado, em 1982 um festival punk não poderia terminar de outra maneira.

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Os Skywalkers "Correndo atrás do Perigo" (Baratos Afins, 2002)


“Correndo atrás do perigo” é o primeiro disco do trio paulistano Os Skywalkers e traz 12 canções que atualizam as referências da banda perdidas entre re-tropicalismo, underground paulistano dos anos 70, psicodelia e garage rock, temas que ajudam a entender algo que eles próprios definem como Tropitralha.

A maioria das músicas são do vocalista e guitarrista Pedro Bizelli. O disco abre com a faixa título, que tem videoclipe e funciona como um bom cartão de visitas d'Os Skywalkers e do disco, garage rock com o auxílio luxuoso de um órgão no fundo. O álbum com “Ave Lanny Gordin!” que, como o título induz, é uma homenagem ao guitarrista preferido dos tropicalistas e pós-tropicalistas, um gênio do instrumento para o qual as reverências não são à toa. Os destaques ficam para “Devaneio”, com um belo arranjo de guitarra, “Sonho sorriso” de letra feliz e otimista e arranjo circense, e a instrumental “Os caiaques”, do baixista Rafael Roque. De bônus, quatro canções gravadas num porta estúdio de 4 canais fora das sessões do álbum.

O projeto gráfico é completo com letras, ficha técnica e muitas fotos da banda. Gravado no estúdio Submarino, de Clayton Martin, e produzido por Luiz Calanca, que lançou o álbum pelo seu selo, a lendária Baratos Afins. A repercussão de “Correndo atrás do perigo” foi bastante favorável e abriu caminho para seu sucessor, o aclamado “Zen Makumba”, de 2005.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Língua de Trapo “Brincando com fogo” (Devil Discos, 1992)



O quarto disco do quinteto paulistano Língua de Trapo mantém afiado o canivete do grupo. Traz 14 temas que, como Jô Soares afirma na abertura, "não perdoam ninguéééém", além das letras, a maioria composta pelo ‘crooner de bingo’ Laerte Sarrumor, a execução das canções também se destaca, os arranjos seguem o humor das letras e vice-versa-ao-contrário.

“Brincando com fogo” abre com “Evridei”, uma balada em “inglês” como o próprio título indica. Segue romântico na narrativa de amor nostálgica de “Historinha” e mostra como uma Kombi pode ser importante na construção de uma família. O amor também faz parte de “Pederasta”, letra de Ruy Fernando Barboza e interpretação de Laerte tal qual Maysa para uma história triste de traição homossexual.

Carlos Melo é autor de “Vasectomia” que podia ser música de campanha publicitária do Ministério da Saúde não fosse pelas citações de personalidades não poupadas de existência pela vasectomia, de conhecidos ditadores, personagens de novelas televisivas e famosos nomes da música internacional, incluindo o próprio Língua de Trapo. Se por um lado a prevenção a paternidade rende uma boa canção, por outro “Acalanto”, de Ayrton Mugnaini Jr e Wilson Rocha, rende uma canção-de-ninar sobre agruras da maternidade.

A única regravação é a versão do Língua para “Sampa”, a homenagem de Caetano Veloso para a capital paulista, nos primeiros minutos guarda uma versão bastante correta e dá impressão que seguirá assim, até entrar guitarra distorcida e um Raul Seixas (será ele?) por conta de Laerte Sarrumor para encerrar a letra, ainda assim não conseguiram destruir a beleza da homenagem baiana à paulistana.

         “Crocodilo” funciona como crítica a ascensão social dos fazendeiros do Centro-oeste brasileiro, ocorrido nos anos 80, à custa da migração em massa da população rural em busca de melhores oportunidades nos grandes centros urbanos. Fato que gerou concentração de terras nas mãos de poucos. Paralelamente, a ascensão da região central também envolveu uma novela de sucesso da TV Manchete, além de uma infinidade de duplas sertanejas que inundaram as rádios e lojas de discos e funcionaram como trilha sonora de um governo corrupto no início dos anos 90.

Em “Cagar é bom” João Gilberto incorpora a interpretação de Laerte Sarrumor para cantar o prazer de botar a “máquina de churros” para funcionar. “Insatisfaction” apresenta a saga de um músico em busca de satisfação e construção de personalidade criativa. “Benzinho” trata de bizarrices sexuais, pois de sacanagem quem entende mesmo são os ministros da economia. O álbum fecha com a ótima “A insurreição feminista” um sambão de conteúdo feminista que garante a gargalhada do ouvinte no refrão. Devia entrar numa coletânea da Marcha das Vadias!

O álbum foi lançado pelo selo paulistano Devil Discos em LP, e posteriormente em CD, e teve uma repercussão mediana se comparado com trabalhos anteriores e até mesmo pelo conteúdo do álbum, sem dúvida um dos melhores discos do Língua de Trapo. O projeto gráfico é eficiente, contém todas as letras, foto e ficha técnica, além das eventuais brincadeiras, tais como “CD é Lazer” ou “CD é fogo”, tem a bela capa com as figuras medonhas dos quadros do menino chorando e do palhaço triste, bastante comuns nas paredes das casas há poucas décadas e hoje, quase, desaparecidos.

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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Baratas Tontas "Nervos à Flor da Pele!" (Cogumelo, 1996)


O primeiro e único disco do trio de psychobilly de Belo Horizonte/MG é também um daqueles raros discos do estilo produzido no Brasil nos anos 90. “Nervos à flor da pele!” tem 20 canções curtas com temas que não podem faltar ao psychobilly: assassinatos em série com requintes de crueldade, sexo, mulheres, drogas, álcool, morte.... velhos temas psicóticos.

“Nervos à flor da pele!” abre com “Terror e sacanagem” cuja letra narra a obsessão de uma mulher pelo terror e sua capacidade de atrair vítimas. Segue com os zumbis de “Comedores de cérebros” e a história da criatura fraterna “O monstro do esgoto”, que não mata por maldade e sim por diversão. “Borzeguins ao leito”, com letra de Glauco Mattoso, é a 'canção de amor’ do disco e  ganhou videoclipe. Também há temas instrumentais, como “Bad mama jama” e “Engula sua Motosserra!”

O álbum foi lançado pelo selo Cogumelo Records, é o único disco dedicado ao psychobilly no extenso catálogo da gravadora mineira. O projeto gráfico é bem trabalhado com fotos e ilustrações, além de todas as letras e ficha técnica. No encarte os Baratas Tontas aproveitam o espaço para declarar sua preferência pelas motosserras Huqsvarna, que ornamenta as fotos da banda.

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

CMU Down "Spiner" (Bloody Records, 1993)




“Spiner” é um compacto com quatro músicas, o único registro do quinteto curitibano CMU Down (Caustic Minds Upside Down), uma banda barulhenta e de vida curta.

          A sonoridade de “Spiner” tem sintonia com nomes do rock britânico, tais como Jesus & Mary Chain e Inspiral Carpets, guitarras altas saturadas de wah-wah, muitas viradas de bateria e letras em inglês que não querem dizer nada. Um lado abre com a pesada “Loophole”, que lembra as produções dos malucos do Butthole Surfers, e fecha com “On the float” com a participação de um saxofone bem sacado. Outro lado segue mais melodioso em “Air plane” e “Higher sunnyday”.

          Produzido pela banda com a ajuda de Victor França e gravado no Solo Studio, em Curitiba, o disquinho foi lançado pela Bloody Records e faz parte do pacote de 13 compactos do selo que capturaram as novas bandas da capital do começo dos anos 90. O projeto gráfico é caprichado, traz letras e foto da banda, um dos únicos lançamentos da Bloody em vinil com a arte colorida.

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

La Carne "Bom dia Barbárie" (Independente, 2002)




O segundo disco do quarteto de Osasco-SP La Carne é uma das daquelas porradas bem dadas, de violência implícita em 7 canções curtas e diretas. Não, não é um disco de punk rock ou algo pretensamente violento. A violência está nas letras urbanas e sombrias, na interpretação caótica de Linari, nas guitarras criativas de Jorge e na bateria quebrada de Fábio, ou seja, no pós-punk paulistano da década de 80, uma fonte admitida pela banda.

O álbum abre com “Tava aqui pensando” e dá boas mostras da sequência do disco, esta com direito a citação incidental de “Não enlouqueça”, do Smack. Os destaques ficam para a canção título, “Bom dia barbárie”, “A sujeira e a cegueira” e a excelente letra de “Brasa nos pé”.

Lançado pela própria banda, que recebeu apoio do estúdio Bonham, o disco parece saído do catálogo dos anos 80 da Baratos Afins. O projeto gráfico é muito criativo, impresso em papel manteiga, criação de Vânia Ferreira. Pode-se afirmar que o disco teve uma boa recepção, visto a repercussão na mídia especializada e no público que acompanha a banda. Com este trabalho o La Carne retornou ao programa Musikaos, da TV Cultura, e assim como em sua primeira passagem, chamou bastante a atenção.

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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

DeFalla “Kingzobullshitbackinfulleffect'92” (Cogumelo, 1992)


          Um clássico imediato! Não é um exagero se referir desta maneira ao quinto disco do quarteto porto-alegrensse DeFalla. Lançado em 1992 em vinil pelo selo independente mineiro Cogumelo Records, “Kingzobullshitbackinfulleffect'92” foi o primeiro sopro de renovação no rock nacional da década de 90, ao mesmo tempo, apresentou novamente uma banda que desde o primeiro disco (“DeFalla", 1986, BMG-Plug) não se encaixava em nenhum rótulo ou segmento do rock produzido no Brasil.



Revista Dynamite (por Tibet)
    “Este disco foi um marco histórico, consolidou uma nova categoria de banda no Brasil: a banda “alternativa” ou “independente” que era relevante e atuante no mercado normal, antes as bandas independentes existiam perdidas por aí, eram ignoradas pelo mercado. Já havíamos feito trabalhos numa grande gravadora, a BMG-Ariola, e chamamos a atenção da mídia com o “Kingzo..”, um trabalho ousado e avançado para a época que colocou em evidência a cena independente a alternativa, o que caracterizou muitas bandas dos anos 90 em diante” (Castor Daudt) 
        
          Para a Cogumelo Records este lançamento também representou uma novidade, pois, outrora o selo que lançava em sua grande maioria bandas de segmentos extremos do metal  lançou um LP que flertava com thrash metal, mais rap, com samplers e músicas incidentais, usadas sem a menor cerimônia ou autorização. Depois deste disco a Cogumelo diversificou seu catálogo.


Revista Zero

“Desde o final dos anos 80, época em que eu morava em São Paulo, o DeFalla passou a fazer mais parte da cena metal, thrash, hardcore. Devido à nossa amizade com o Sepultura e o Ratos de Porão acabamos entrando em contato com o João, dono da Cogumelo. Apresentamos para ele o material que viria a se tornar o “We Give A Shit” e, mesmo o Defalla sendo uma banda que vinha de outro(s) segmento(s), ele se interessou em lançar o vinil, já que o nosso som nessa época era um protótipo do estilo que viria a se firmar na cena metal como crossover. Mas, como é contumaz ao Defalla, demos "aquele" susto no João quando aparecemos com o “Kinzo...” (risos!) Mas, mesmo não sendo um disco tradicionalmente "metal", ele resolveu apostar no trabalho e, no fim, o “Kingzo...” acabou se tornando um dos discos mais vendidos do selo" (Edu K)



Revista História do Rock Brasileiro
         "Até hoje não sabemos por que a Cogumelo decidiu nos dar mais esta chance , o operador de áudio do estúdio da Cogumelo comentou, meio de brincadeira, que uma cartomante havia dito que o DeFalla era a banda escolhida para fazer muito sucesso naquele ano. Até que ela teve razão, não? Creio que o estouro do Nirvana e as atividades da MTV Brasil, que sempre nos deu apoio, contribuiu para que a Cogumelo se rendesse ao DeFalla, lembro-me que no ano anterior, 1991, ganhamos como melhor demo-clipe”(Castor Daudt)


            O LP é o 51º lançamento da Cogumelo e tem 21 canções, o CD, lançado em 1993, traz 24, a maioria das letras são em inglês, porém, são letras escrachadas, repletas de palavrões e pornográficas, num estilo de escrita criado, aprimorado e desenvolvido por Edu K e que já estava presente nos dois discos independentes anteriores, “We give a shit” (Cogumelo, 1989) e “Screw you!” (Devil Discos, 1990).


            “O “Kingzo...” foi o primeiro disco no qual pude trabalhar com música eletrônica, música feita no computador. Nessa época ainda era muito difícil ter acesso à tecnologia e só o fato de se entrar em estúdio para gravar já merecia comemoração - e a ressaca monster no outro dia... Esse fato se deu ao feliz encontro da banda com Vicente Rubino, um entusiasta fervoroso tanto das maluquices do DeFalla quanto do uso da tecnologia de ponta para se produzir música. O Push Da Button Man, como foi apelidado pela banda, fazia música num computador Atari com o programa de áudio Notator, o avô do Logic e abriu as portas, primeiro de sua casa, depois de seu estúdio Midi Mídia, para a banda gravar tanto a versão do disco em vinil quanto em CD (que é diferente e saiu no ano seguinte). Muitos vocais foram gravados no corredor e no banheiro do apartamento do Vicente. Portanto este é um disco que tem menos a característica mór da banda de criar faixas em estúdio, à partir de jam sessions e muito improviso. Algumas faixas foram desenvolvidas em estúdios de gravação - o lado B do disco, mais "de banda" e orgânico -  mas as faixas mais eletrônicas foram feitas no computador from scratch. Mas, claro, em se tratando de DeFalla, mesmo assim, muita coisa também rolou na hora, ao acaso”(Edu K)

“Tínhamos a maioria das músicas e as algumas bases prontas, foi um disco muito bem pensado e trabalhado, já tínhamos uma boa bagagem de tempo de estúdio de estrada naquela época, além de material inédito. Algumas faixas não foram gravada até hoje. As faixas tiveram participação de todos e nos envolvemos o máximo possível com as condições técnicas da época, eram precárias, os computadores eram pré-históricos e trabalhávamos no quarto do produtor em Porto Alegre, o Vicente Rubino, que trabalhou na parte eletrônica do “kingzo..” Quando entramos no JG Estúdio, em Belo Horizonte, muita coisa surgiu e incorporamos ao disco, foi bastante trabalhoso e nos dedicamos muito, coisa rara para o DeFalla (risos)”(Castor Daudt)




Revista Bizz


“Um amigo em comum me disse que o DeFalla precisaria de uma produção com samplers para uma "vinhetinha" a sair em um novo disco e perguntou se eu topava. Disse que sim, e o Edu K me ligou para vir em meu estúdio que era no meu apartamento. Avisei o Porteiro que um "ET" iria me visitar e fiquei esperando. Foi um verdadeiro "casamento musical". Eu conseguia passar para as máquinas e computadores as ideias que o Edu tinha dentro de sua cabeça e resolvemos ir além da vinheta e começamos a produzir as bases eletrônicas de várias músicas. Foram meses de trabalho e todas as noites o Edu vinha para meu estúdio” (Vicente Rubino, produtor)
           



“O Edu K tinha uma visão muito clara do que ele pretendia nas musicas. Os recursos tecnológicos foram muito importantes, pois nos permitiram uma grande inovação nas possibilidades. Haviam várias sessões só de pesquisa sonora para obter os samplers. Por exemplo: para escolher as vozes de orgasmo em “Slaugtherhouse” tivemos que assistir mais de 10 fitas pornô”. Eu produzi a parte eletrônica, mas têm várias musicas só com guitarra baixo e batera, como “Money Mine” e aquelas mais pesadas. Essas foram gravadas nos estúdios da Cogumelo. A minha parte consistia em pesquisa sonora dos samplers e programação dos sintetizadores, e depois um meticuloso trabalho de sequenciamento MIDI das músicas. A bateria do “Satisfaction” é totalmente sequenciada e até hoje eu me surpreendo com a qualidade da execução, timbres e programação. Depois nós gravamos as bases em um gravador digital de 8 canais, o ADAT, um grande marco na gravação digital mundial; fomos talvez a primeira banda a usar o ADAT aqui no Brasil. Guitarras foram gravadas em vários estúdios, levando só o ADAT, já que não se podia fazer tanto barulho no meu apartamento.
O equipamento usado foi de ponta para a época. Usamos o melhor sequencer, o Notator Logic, um dos samplers mais poderosos que era o Roland S-770, vários módulos sintetizadores e baterias eletrônicas. A parte de efeitos também foi muito bem trabalhada, e ousamos bastante nessa área. Por isso a sonoridade do disco é tão boa. E no final, gravamos em multicanal digital, ou seja, a qualidade foi preservada em todos estágios da produção.
“Em “Cullo Fuck (in full effect)” temos a bateria indefectível de “Óculos”, do Paralamas do Sucesso, e uma cítara de George Harrison. Em “Bitch” temos um loop do Olodum em Central Park, do disco de Paul Simon em cima da programação de bateria R-8M da Roland. E um pianinho...
“Satisfaction” tem os samplers originais dos Rolling Stones. Temos samples também de Janis Joplin e Jimi Hendrix. Esse disco não poderia ser lançado agora, pois os royaltes dos samplers inviabilizariam a produção, mas naquele tempo as pessoas não davam muita bola para isso. Se fosse lançado nos EUA seriamos presos, certamente...
        E em “The end” temos o vocal clássico de Jim Morrison, do Doors, e uma barulheira infernal obtida deixando cair panelas no piso de mármore da minha sala. Tenho várias tracks que não entraram no disco e talvez vamos lançar um disco ainda com esse material. Uma das musicas o Edu cantou pelo telefone e eu gravei do outro lado e o resultado ficou muito bom...” (Vicente Rubino, produtor)                 



              “Kingzobullshitbackinfulleffect'92” teve seus méritos reconhecidos assim que fora lançado, na revista Bizz (edição maio de 1993) uma foto o Edu K dividia uma capa com mais três nomes que surgiam com trabalhos relevantes na época (os outros eram Samuel Rosa-Skank, Cherry – Okotô e Carlinhos Brown), estas bandas receberam a alcunha de MPopB, um rótulo de buscava englobar e sintetizar um grande número de bandas numa proposta: "mistura todas as suas influências e não sinta vergonha se dentre estas houver um forte elemento característico brasileiro", foi assim que chegou ao disco o manguebit de mundo livre s.a e Chico Science e Nação Zumbi e o “forrócore” do Raimundos, por exemplo. 
                 “O “Kingzo...” foi cartilha pra muita gente. A mistureba sônica era, e ainda é, inédita: nunca uma banda mesclou tantos gêneros díspares como o DeFalla fez ao longo da carreira, mas em especial nesse disco. Acho que o “Kingzo...” é um marco desse momento onde o pop assumiu de vez sua antropofagia. Antes disso era ‘feio’ ser metaleiro e curtir rap, amar ACDC e Duran Duran ao mesmo tempo, curtir jazz e doom metal.... Essa coisa toda tem muita influência da nossa vida em Porto Alegre, da Oswaldo Aranha, rua onde punks, patricinhas, roqueiros e coxinhas conviviam numa boa, trocando fluídos e influenciando gostos musicais mútuos. Mas, a pegada rap e dancehall do disco influenciou muita gente. O “We Give a Shit” e o “Screw You” eram discos mais de nicho, bem menos abrangentes: no primeiro o DeFalla brincou de ser crossover (outro pioneirismo) e no segundo a onda era o Sunset Strip do final dos anos 80 e o famigerado renascimento do hard rock. O "Kingzo..." foi o disco onde a banda reuniu todas suas influências gerando a maior esculhambação sonora do rock brazuca desde os Mutantes!” (Edu K)

             
               “Escuto um pouco do “Kingzo...” em muita coisa que surgiu desde então, até hoje... Só não é meu disco preferido por que tenho um amor especial pelos dois primeiros do DeFalla, nos quais participei mais das composições. Embora o “Kingzo...” seja um trabalho em conjunto, o Edu K levou a direção das bases eletrônicas, que era uma coisa dele. Não sou o maior fã de bases e baterias eletrônicas, embora veja que usadas com adequação e inteligência se transformam em ferramentas maravilhosas. “Prefiro a magia que acontece quando reunimos a banda num estúdio, nem sempre isso é possível, mas para mim, é sempre mágico. E se der para reunir esta “magia humana” sintonizada com bases eletrônicas interessantes e bem produzidas, aí teremos um disco único e fantástico como no querido “Kingzobullshitbackinfulleffect’92”!” (Castor Daudt)


                A regravação do “hit” “It’s borin fuckin’ to death” foi o único videoclipe realizado neste disco que também deixou um “hit” underground “Caminha (Q aqui é de Osasco)”. O DeFalla fez muitos shows com este álbum e participou do memorável Hollywood Rock de 1993. A formação da banda nesta época mantinha os membros originais Edu K, Castor Daudt e Flu, mais 4nazzo na guitarra. O projeto gráfico do disco é bastante interessante, uma capa lisérgica com as faces dos quatro rapazes, colagens de fotos no encarte e todas as letras e ficha técnica escritas sem espaços entre as palavras, o que torna um tanto difícil o acompanhamento junto com o disco.


Revista Dynamite

“Foi um disco bastante trabalhado, pois, juntava eletrônica com música orgânica, além do fato de a versão das músicas eletrônicas do CD serem completamente diferentes das lançadas no vinil, mais um ineditismo ímpar: alguém aí sabe de alguma outra banda que lançou versões diferentes do mesmo disco em vinil e CD, assim na cara dura? Hahaha! E, no quesito shows, o DeFalla sempre foi agraciado com os mais memoráveis e mais bizarros. Como o estúdio da Cogumelo, o JG, era em Belo Horizonte,ficamos um mês na cidade para as gravações. E nesta época fizemos alguns shows na cidade e dois deles entraram para a história da banda: um deles, numa pizzaria (!!!) com a galera comendo sentada à mesas, com a banda amontoada num palquinho de 2X2 e todas as luzes da casa acesa e outro onde, na saída do show a banda foi cercada por um bando de punks querendo nosso couro porque no dia eu tinha dado um entrevista para a TV dizendo que o DeFalla era uma banda hardcore e os caras vieram tirar as caras! Eu tive que sair girando a guitarra para todos os lados pra abrir caminho entre o mar de jaquetas de couro e moicanos enfurecidos (risos!) Entretanto, é claro que tocar no Hollywood Rock para 70 mil pessoas, estávamos lançando o “Kingzo..” em CD quase um ano após o lançamento do vinil, também foi inesquecível!” (Edu K)
  
Revista Bizz
           “Antes do lançamento do disco fazíamos alguns shows, retomando a estrada aos poucos e organizando a banda com a entrada do Marcelo, o 4nazzo, na guitarra. Mas, tínhamos vídeos na MTV e alguns shows bem filmados por amigos de produtoras de Porto Alegre, como o Beto Andrade, Alex Sernambi... Depois do lançamento do disco o show mais importante foi o do Hollywood Rock de 1993, um show no Morumbi, em São Paulo, e outro na Apoteose, no Rio de Janeiro. Abrimos para o Red Hot Chili Peppers, conhecemos os caras, e do Nirvana também, foi uma experiência marcante e inesquecível. Durante 1993 e 94 viajamos bastante pelo país, fizemos muitos shows marcantes e promovemos o disco. Fizemos uma tour como Evandro Mesquita, da Blitz, e foi muito divertido” (Castor Daudt)


          "O processo todo foi incrível e também o fato de, finalmente, eu ter conseguido produzir música eletrônica, fazem do “Kingzo...” um dos meus discos preferidos! Sinto orgulho desta influência admitida que tivemos na cena musical da época. Foi um disco catalisador de muita coisa que estava acontecendo naquele momento, por isso também sua importância e relevância até os dias de hoje” (Edu K) 

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