sábado, 25 de agosto de 2012

Música Ligeira (Tinitus, 1994)




Primeiro disco  do grupo formado por três multi-instrumentistas, Mario Manga, Fabio Tagliaferri e Rodrigo Rodrigueso. Um CD com 15 interpretações de muitos clássicos.

Revista General, edição 08
O álbum abre com uma versão da bela “Quatorze anos” de Paulinho da Viola na voz de Rodrigo Rodrigues e segue como “Desafinado” de Tom Jobim e Newton Mendonça. Há releituras de autores internacionais: Paul Simon, em “Fifty ways to leave your lover”, e Lennon & McCartney em “You’re going to lose that girl”. “Chiclete com banana” de Gordurinha, grande sucesso nas vozes de Jackson do Pandeiro e Gilberto Gil, ganha uma versão correta, mas sem força. Diferente acontece em “Fenômeno” cuja divertida letra ganhou uma bela interpretação na voz de Mario Manga. Em “Here’s tomorrow” destaque para a incidental “Canto de Ossanha” no final apenas no violoncelo. “Qui nem giló” e “Sebatiana” ganham novos instrumentos, mas não perdem o balanço. “Amor proibido” de Cartola de tão bonita não deveria ser gravada por mais ninguém. Das inéditas, apenas “Deus nasceu foi no Brasil”, de Inácio Zatz, letra-homenagem ufanista com citações de Estados e referências culturais,  e “O máximo”, de Hamilton Vaz Pereira. O disco fecha com “Aquele abraço”.

O álbum foi gravado ao vivo e produzido por Egídio Conde e lançado pelo selo independente paulistano Tinitus. Teve uma repercussão mediana na mídia especializada que sempre batia de frente com o repertório e a falta de novidade das interpretações, com alguma razão. Posteriormente o grupo gravou mais um disco e um DVD e se desfez em 2005 com a prematura morte de Rodrigo Rodrigues.

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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Kães Vadius “Psychodemia” (Ataque Frontal, 1987)




Um clássico do psychobilly mundial!

O primeiro disco do quarteto de São Caetano/SP é também o primeiro álbum do psychobilly brasileiro. O estilo nada popular une o rockabilly dos anos 50 com punk rock, surf music e outros gêneros igualmente isolados. Do criativo balaio surgem temas sujos, encharcados de álcool, drogas e insanidades do submundo. Aqui distribuído em 14 canções.

O Kães Vadius na sua estreia era um quinteto formado por Hulk'a'Billy, George, Paulo Bide Pow, Denis animal e Marcos Veia. Vale destacar o sax de onipresente de Marcos e a guitarra limpa de George, que também assina a maioria das letras, por sinal, as melhores. 

           As canções funcionam como crônicas do submundo, tem o padre pervertido em "Padre Mané", o que antecipou a onda dos padres pedófilos. "Flyperman" traz um conto do adolescente que descontava sua puberdade (in)contida na máquina de jogos. "Notícias Populares" empresta o nome do jornal popular mais lido na capital paulista para relatar o caso do pai de família serial killer, o que facilmente poderia ter sido retirado de uma manchete real do NP. "Outdoor" traz a mensagem de deus oculta num anúncio de cigarros e o retorno do personagem a sua realidade trágica e cruel. Contém o clássico "A namoradinha que eu amei", também regravada pelo Devotos de Nossa Senhora de Aparecida e Magazine, uma das mais belas canções de amor que o psychobilly nacional já produziu!

Bizz, edição 28, novembro de 1987
“Psychodemia” foi produzido pelo Redson e lançado pela Ataque Frontal, até então um selo dedicado aos LPs de bandas punk rock e hardcore. Teve uma boa repercussão na época, pois apresentou o estilo ao Brasil e fomentou junto com outras bandas uma cena de psychobilly, inicialmente em São Paulo, mas logo com braços no Rio de Janeiro e Curitiba. Quem viu o Kães Vadius ao vivo nesta época têm boas memórias da banda.O projeto gráfico é muito caprichado.

        O encarte de 6 páginas traz as canções transformadas em quadrinhos, algo raro naqueles tempos, obra de Hulk’a’billy e George, que também dividem a autoria da capa e toda a parte gráfica do disco. “Psychodemia” foi relançado em CD em 1997 junto com o segundo disco da banda, o EP “Delirium Tremens”, hoje em dia tanto o LP quanto o CD são itens bastante procurados.

Algumas músicas chegaram a ser executadas em rádios paulistanas, fora do horário comercial, e a banda foi convidada algumas vezes para programas musicais da TV Cultura, como o Boca Livre e Matéria Prima, que podem ser vistos no youtube.

    Há mais de 10 anos está emperrado um disco em tributo ao Kães Vadius, enquanto o projeto-homenagem hiberna, fiquemos com as crônicas cômicas originais do underground topetudo.

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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Momento 68 “Tecnologia” (Voiceprint, 2002)




O trio de rock psicodélico paulistano cometeu um belo disco de estreia. O Momento 68 surgiu com a intenção de ser a nova banda de apoio de Plato Divorak, o excêntrico roqueiro gaúcho, pai dos psicodélicos dos pampas, porém a formação não durou muito tempo, mas o suficiente para render duas K7s e um compacto que precederam "Tecnologia".

O disco abre com “Antiglitter” de Plato Divorak, também gravada no seu primeiro disco solo. "Calendário da Imaginação" (Baratos Afins, 1988). Outros destaques são a instrumental “Jazzy man-metropole”, com o belo piano de Consuelo Gregori dando à canção um quê de cinematográfico, poderia ter rendido um vídeo clipe. “Turn on, tune in, drop out” tem um arranjo de guitarra cheio de efeitos psicodélicos. Em “Outra cidade” criou-se a trilha de uma passagem lisérgica urbana. A instrumental “On/Off” recebeu a cítara de Fábio Golfetti e a bossa-fuzz de “Chá da tarde" são outros bons momentos.

 “Tecnologia” foi lançado pela representação brasileira do selo inglês Voiceprint, com o $uporte do Sebo 264, recebeu resenhas elogiosas da mídia especializada e o Momento 68 fez vários shows com este trabalho.

O projeto gráfico é bastante caprichado traz todas as letras, ficha técnica e ilustrações de Marcelo Badari, que também tocou bateria em duas canções do disco. Na capa um desenho de uma “gerigonça”, uma máquina de música comandada à distância por um mod.

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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Zumbi do Mato “Menorme” (Qualé Maluco Records, 1997)




Primeiro disco do Zumbi do Mato, uma das bandas mais malucas do Rio de Janeiro, cidade que nos anos 90 cultivava uma porção de formações roqueiras absurdas. Aqui as letras e interpretações cômicas de Löis Lancaster combinam com as músicas produzidas pelo quarteto completado por Zé Felipe, Marcos Maskin e Bernardo Carvalho

Bizz, edição 131, julho de 1996
"Menorme" traz 28 músicas entre vinhetas, experimentos de estúdio, discursos improvisados e telefonemas gravados (serão falsos?). O disco começa (mesmo) com “O alien que veio pro espaço”, segue com “Buraco do Jabor”, um convite para todos conhecerem o buraco do famoso cineasta, jornalista e comentarista de política nacional, não sobra pra ninguém e todo mundo cabe. Dentre os versos da canção do Jabor há uma pérola da filosofia marxista contemporânea que diz: “a mamata é a mais valia do trabalhador”. A mesma canção também foi gravada pela banda brasiliense Macakongs 2099, poucos se atreveram até hoje a visitar o repertório do Zumbi do Mato. “Casinha de Papel” mostra que o niilismo dos ateus pode chegar a níveis mais complexos do que a descrença em deus e diabo. “Travestibular” é impagável, começa com uma divertida gravação de conversa telefônica para depois cair na letra que mostra que para ser travesti também exige uma certa dedicação acadêmica, cita a AIDS do filme “Kids” e ganha “Legalize Já” do Planet Hemp como música incidental.

Outros destaques ficam para “Tiroteio do esqueleto sem cabeça” o que em principio seria um relato de alguma ofensa descamba para momentos indescritíveis, mas muito divertidos, Löis tá possuído! “Potinho de anhanha” conta a história do fanhoso na farmácia, a canção ganhou um vídeo-clipe que na época provavelmente não foi exibido em lugar nenhum, mas tem no youtube. Em “Fica molhada que eu quero meter” Löis afirma ter um pau descomunal. Ainda tem outras “pérolas”, como “Quero ser seu PH”, “Zorba o grego” e “Europeido”. No final do disco há um discurso de mais de vinte minutos no qual Löis incorpora um misto de cientista e pastor evangélico, numa maluquice chamada “As primeiras células da vida”.

“Menorme” foi lançado pelo selo Qualé Maluco Records, propriedade de Formigão, baixista do Planet Hemp, e recebeu reedição em 2005 numa parceria dos selos Tamborete e Ant-Discos. O projeto gráfico é próprio para o disco, acompanhar as letras é um desafio, além dos pequenos caracteres, tudo foi feito à mão e as letras não seguem a ordem das canções.

Depois de “Menorme” o Zumbi do Mato continuou com seus shows esporádicos e gravou mais três discos. Se você gostou do álbum, saiba que os outros são altamente recomendáveis. Se você não gostou, passe longe.

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domingo, 19 de agosto de 2012

Stela Campos "Céu de Brigadeiro" (Independente, 1999)



               
             A paulistana Stela Campos já acumulava uma bagagem antes de chegar ao seu primeiro disco solo. Ainda em São Paulo, Stela participou da banda Lara Hanouska e do projeto Funziona Senza Vapore, criado por Cadão Volpato após o primeiro fim definitivo do Fellini, e foi pela participação que Stela no FSV que ela se mudou para Recife/PE. Primeiro para participar de um show em homenagem à banda pós-punk paulistana, Chico Science, Fred 04 e boa parte do manguebeat reverenciava o Fellini como uma de suas maiores influências. Stela se inseriu muito bem à atividade artística recifense e logo começou a produzir suas próprias canções, fez parte da trilha tema do filme "Baile Perfumado" e de "América Au Poivre".

Bizz, edição 167, junho de 1999
             "Ceú de brigadeiro" tem 16 canções, algumas são vinhetas, foi composto em parceria com Adriano Leão e produzido pelo percussionista experimental-eletrônico Loop B. O disco traz arranjos elaborados, alguns com guitarras distorcidas sob bases e programações eletrônicas, tem letras em português e inglês. A canção "Uma questão de prioridade" com letra de Fred 04 é um destaque, assim como "Os últimos dias de Tio Sávio", letra de Luciano Buarque, e "Se você for, eu vou também", letra de Cadão Volpato, também gravada no único disco do Funziona Senza Vapore.

          O projeto gráfico traz fotos de Stela Campos, letras, ficha técnica. A capa de Luciano Pessoa criada a partir da capa da primeira edição de "Céu de brigadeiro". O álbum foi gravado em 1998, lançado de forma independente e logo teve sua tiragem esgotada. Em 2002 o selo paulistano Outros Discos debutou no mercado relançando "Céu de brigadeiro". O trabalho teve uma boa repercussão na mídia especializada e shows por várias capitais.

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sábado, 18 de agosto de 2012

Rubinho Troll “Stinkin like a brazilian” (Independente, 2010)




Rubinho Troll levou muito tempo para lançar seu primeiro disco solo. O ex-vocalista do Sexo Explícito e parceiro musical de John Ulhoa, do Pato Fu, é um compositor de mãos cheias e com bastante anos de bagagem.

Rubinho é o autor de 14 das 15 canções do álbum, além das letras, gravou com John todos os instrumentos. Destaque para “Peçonhas ocultas” letra de refrão pegajoso e arranjos de guitarra em primeiro plano. “Fique comigo neste natal” é uma genuína balada natalina com arranjo de orquestra feito por Lulu Camargo. “Gênio de 3 Corações” tem uma letra biográfica, uma homenagem ao rei do futebol.. “Você só quer tocar o seu violão” abusa dos recursos do estúdio para distorcer a voz de Rubinho, e olha que ele continua cantando com os mesmos maneirismos vocais que caracterizaram seus trabalhos anteriores. “Repelente” é regravação do clássico do DeFalla, excelente versão!   

“Stinkin like a brazilian” foi quase todo gravado no estúdio 128 Japs e produzido por John Ulhoa. Outra parte foi gravada em Londres, onde Rubs vive atualmente. O projeto gráfico é caprichado e eficiente, autoria do próprio Rubinho em parceria com Érika Machado, traz todas as letras e ficha técnica. Na capa a imagem de Rubinho e o divertido nome do álbum: "fedendo que nem brasileiro".

          Segue abaixo uma exclusiva do Disco Furado com Rubinho Troll!



[Disco Furado] Depois de tantos anos compondo você deve ter acumulado muitas canções, como foi o processo de escolha destas 14 canções?

[Rubinho Troll] Se bem me lembro, quando entrei numas de fazer o disco, dei uma olhada nas demos no meu computer e fiz uma lista das que achava que nao iriam me envergonhar muito. Fui la no  John quando estive ai e conversamos sobre quais seriam apropriadas. Algumas ainda nao tinham demo,,eu tinha a letra a melodia e os acordes,,uma musica ficou de fora a conselho do John ("Meu Coracao é um musculo") ele disse que a Maresia Aos Montes tinha uma com o titulo parecido,dai eu falei: Vamo limar essa. Tinham mais algumas que simplesmente não caberiam no disco por uma questão de espaco físico mesmo. Resumindo: umas 3 músicas já tinham mais de 10 anos (as Bônus), mas o resto é mais recente, tipo de 2008 pra cá.

[Disco Furado] O álbum foi quase todo gravado em parceria com o John Ulhoa, que assina a produção, outra parte foi gravada em Londres unicamente por você. Como é produzir/trabalhar de maneira solitária?

[Rubinho Troll] É a diferença entre Trepada/Bronha. Fazer coisas com os outros involve um acordo, mas, o resultado surpreende pelo inusitado que de outra forma não aconteceria.Sozinho você é o Boss mas sempre há a duvida: Será que eu estou pirando ou isso é bom mesmo?

[Disco Furado] Como você avalia a repercussão que este disco teve? Houve algum tipo de trabalho com este disco onde você vive atualmente? Existe alguma perspectiva de mais um trabalho solo?

[Rubinho Troll] Não estou sabendo de repercussão nenhuma não, também não tive como promovê-lo (com excecao de um único show que fiz em BH ano passado) por conta dos meus compromissos familiares aqui na Inglaterra. Aqui o povo não é muito interessado em música cantada em português,,a nao ser que seja Bossa Nova ou Samba (isso pros geeks musicais) mas, o povo pra quem eu dei o disco gostou (gente de boa educacão)... Estou preparando um outro disco, espero que leve menos tempo pra ficar pronto que esse daí.

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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

PELVs “Península” (Midsummer Madness, 2001)




O terceiro álbum do quinteto carioca é um dos melhores discos de guitar bands brasileiras - ou loud surf como os próprios membros da PELVs se autodenominam. Melodioso e barulhento em treze faixas, todas com letras em inglês, assim como nas gravações anteriores.

Bizz, edição 191, junho de 2001
A ordem das músicas alterna momentos mais melancólicos e outros mais eufóricos. O que pode ser observado na sequência de “Backdoor” e “Equador”. A sutileza jazzy/surf de “Barbecue”, com destaque para o trompete de Pedro Alcoforado, e “Abrasive song” fazem justiça ao título com aqueles deliciosos noises de guitarra. O álbum se encerra com final feliz em “Ricardo”, com vocais doces de Beatriz Lamego, violão, piano, palmas e trompete.

O projeto gráfico é simples e eficiente, não traz letras, muito menos imagens da banda, assim como nos dois discos anteriores, apenas ficha técnica e fotos ilustrativas.

“Península” foi lançado pelo selo Midsummer Madness, que sempre apoiou as guitar bands nacionais, principalmente a Pelvs. O álbum teve uma boa repercussão na mídia especializada, ganhou resenhas elogiosas, mas a banda não fez muitas apresentações, e também não tocou em Londrina/PR como costumeiramente ocorrera durante vários anos.

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Ainda tem para vender no site: www.mmrecords.com.br

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Itamar Assumpção “Sampa Midnight: Isso não vai ficar assim” (MPA, 1986)




Em 1986 Itamar Assumpção já tinha chamado a atenção de muita gente. Reconhecido como um dos pilares da Vanguarda Paulistana, movimento não-organizado que agitou palcos pouco concorridos de São Paulo/SP desde o final dos anos 70, Itamar carregava elogios da crítica que aproximavam sua obra às suas referências de Hendrix, Gil, Samba e música Afro, e tinha no público universitário da Vila Madalena sua maior audiência.

“Sampa Midnight” é seu terceiro disco, antecedido pela estreia estrondosa de “Beleleu, Leleu, Eu” e pelo ao vivo “Às Próprias Custas S/A”, todos independentes sendo que o primeiro, de 1980, também foi o primeiro lançamento do selo Lira Paulistana.

Itamar Assumpção tinha muita facilidade para compor letra e música, tanto que seus discos todos têm mais de 15 músicas, algo que foge dos padrões dos discos lançados por grandes gravadoras. Itamar não desperdiçava o tempo de duração de um disco, assim como não perdia tempo na gravação. Seu ritmo de composição era tão intenso que seus cadernos eram frequentemente visitados e sobrava repertório para outros cantores e compositores.

"Sampa midnight" tem 15 canções e começa com “Prezadíssimos ouvintes”, composta em parceria com o escritor londrinense Domingos Pellegrini, uma de suas primeiras composições e que já estava na “mala” quando Itamar migrou de Londrina para São Paulo. Segue com “Ideia fixa”, cozinha firme e coesa com um trompete perdido sobre a letra que não deixa espaço para refrão. “Movido à água” é um reggae cuja letra questiona alternativas de combustíveis para automotores até chegar a brilhante ideia de um motor que pudesse ser alimentado por detritos humanos, Em “Desapareça Eunice” uma mostra de um homem irritado com o comportamento de sua parceira e que deseja seu sumiço antes que algo de pior lhe aconteça – esta é uma característica de Itamar como letrista, em quase todos os seus discos existem composições endereçadas aos nomes femininos, só neste são três. “Sampa Midnight” narra uma noite embriagada na qual Itamar e mais dois amigos - tal como os "Adorinianos" Matogrosso e Joca - presenciaram um blecaute no olho do furacão noturno paulistano. “Navalha na liga” é parceria de Itamar com a Alice Ruiz. "Vamos nessa" é um poema de Paulo Leminski musicado por Itamar, quase uma vinheta. “Chavão abre porta grande” foi gravada pouco tempo depois por Ney Matogrosso.

Bizz, edição 15, outubro de 1986
Com este disco Itamar arriscou uma carreira internacional e teve uma recepção surpreendente na Alemanha, país que relançou seus discos, através do selo Messidor, e convidou-o para algumas turnês, suas letras até foram traduzidas para o idioma teutônico. Curiosamente, "Sampa midnight" também abriu um novo mercado no Brasil, o mercado carioca que tanto fomentou a parte ensolarada do rock brasileiro dos anos 80, abriu seus palcos concorridos, Circo Voador e Teatro Ipanema, à calejada trupe paulistana de Itamar, Premê, Língua de Trapo, Rumo e outros.

"Sampa Midnight" foi lançado pelo desconhecido selo MPA (Mifune Produções Artísticas), porém não há informações sobre a atividade deste selo, no seu logotipo um dedo médio em riste torna-se outro dado interessante. O projeto gráfico de Eduardo Lima é bastante simples, a capa traz uma sombra em imagem incompreensível e o encarte traz todas as letras. O disco teve boa vendagem apesar da pequena tiragem inicial, foi reeditado pela Baratos Afins em 1989 e relançado em CD pela Atração em 1998.

Após “Sampa Midnight” Itamar Assumpção conseguiu um contrato com a gravadora Continental, na qual lançara em 1988 o LP “Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!!!”, único disco do Itamar com suporte de grande gravadora.

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domingo, 12 de agosto de 2012

V.A. “No Major Babes Vol. 2” (Caffeine/Paradoxx, 1994)




 O segundo e derradeiro volume da coletânea "No Major Babes" traz mais 17 bandas que movimentaram o underground brasileiro na primeira metade dos 90’s, momento em que o que mais interessava para as bandas era promover sua própria revolução, longe do dinheiro e dos olhos das multinacionais do disco, e consequentemente longe das rádios e dos grandes palcos.

           O CD abre e se encerra com o DeFalla fazendo uma versão para “Everybody is in the place”, do Prodigy. A última faixa recebe um remix de RH Jackson para  mesma canção e que pouco acrescenta à original. Em seguida os impagáveis punk rockers de Campinas do Muzzarelas e sua versão porrada para “Macho man”, muito bom, apesar que uma coletânea de bandas independentes geralmente preza por composições próprias. o Adventure, duo de Porto Alegre, traz “The way I feel” com base programadas e guitarras em sintonia com a produção inglesa da época. Mais autênticos são os paulistanos Pavilhão 9, ainda como trio, em “Manos errados”, e o Yo Ho Delic, bastante reconhecidos e bons vendedores de seu único disco, lançado pela Tinitus em 1992, com uma nova versão para “Edge of insanity”. 

 Okotô, adoráveis barulhentos e esquisitões, mostram o hardcore “Gorda”, também gravada noutra versão no derradeiro álbum “Cobaia”. Pin Ups, vem com “Stabbin’”, volumes do talo, distorção de guitarra beirando o noise em vários momentos somados aos berros de Luiz Gustavo. Mickey Junkies surge com o proto-hit “Waiting for my girl”, na mesma que consta no seu único disco, “Stoned”. Happy Cow, de Piracicaba-SP, surge bastante influenciado pelo underground norte-americano e até mesmo pelos conterrâneos do  Killing Chainsaw, não por acaso Rodrigo e Gozo assinam a produção de “Matches & cigarretes”. Beach LizardsGarage Fuzz trazem uma parte mais melódica do hardcore, o primeiro na excelente “Friction” e o segundo em “When all the things”, canção presente em seu primeiro disco, “Relax in the favorite chair”, e que ganhou vídeo-clipe bastante exibido na MTV Brasil.

 Cold Turkey passam despercebidos em “Sweet dreams”. As guitar bands estão representadas com os cariocas do Pelvs, aqui num duo com Dodô e Gustavo, que bagunçam bonito no noise-loud-surf de “Uterine Ana Luisa”, filhos pródigos de J. Mascis. Sonic Disruptor, de São Paulo/SP, surgem acústicos em “Swerve me”. brincando de deus, de Salvador/BA, com lindas melodias barulhentas em “Tweedledum...”. Los Fantomas fazem um punk rock em “Wackened” e passam tão rápidos quanto despercebidos. Das esquisitices inomináveis: Caracol, o nome do projeto do produtor do disco, RH Jackson com João de Bruçó, já haviam registrado um LP independente em 1990, e ressurgem aqui com “Fala Vagabundo”, experimentos sobre programações eletrônicas e camadas de guitarras.

           Na grande maioria das gravações predominam referências sonoras às sucursais norte-americanas e inglesas, a influência dos nomes que pululavam lá fora e que chegavam aqui através da MTV, difundidos por revistas e fanzines, é explícita, comprovado no fato de a grande maioria das bandas optar cantar em inglês. A originalidade não era um critério, pelo contrário, emular as bandas do underground gringo fazia parte da própria identidade das bandas brasileiras, obviamente, dessa leva sobressaíram-se as bandas que trouxeram elementos novos, as minimamente autênticas.

         O álbum é um projeto do jornalista e entusiasta do underground nacional Marcel Plasse, que criou o selo Caffeine e selecionou as bandas. A masterização ficou a cargo de RH Jackson, com anos de bagagem no underground paulistano. O projeto gráfico bastante caprichado é do ilustrador e cartunista MZK, o encarte não traz as letras, mas tem informações sobre as bandas.

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sábado, 11 de agosto de 2012

Merda “Curtição dos Jovens” (Läjä Records, 2001)





Um dos discos mais divertidos do hardcore brasileiro. Não bastasse isso, talvez seja o disco mais importante do power violence nacional. O primeiro álbum do trio de Vila Velha/ES é uma coleção de 25 pequenas porradas entremeadas de vinhetas em pouco mais de 20 minutos.

O debute do Merda abre com “Xézus Kräst” um apelo para a juventude se distanciar das drogas. Em “Enfia seu próprio piru no seu cu” há em algum lugar um manifesto feminista. “Cidade” é bonita, versos bem gritados pelo guitarrista e vocalista Fábio Mozine, o mesmo vale para a faixa que dá nome a banda “Merda” e para todas as outras. “Usuários de drogas pesadas” é introduzida por um sampler do Piu Piu de Marapendi e finalizada com um áudio de rádio que relata um depoimento sobre um garoto de quatro anos que conhece diversas drogas, até parece brincadeira, vai ver é isso mesmo, pelo menos aqui.

 “Eu menti para você durante toda a minha vida...” alterna versos em inglês e português, momento relax do disco. “Feio” é uma auto declaração de que a beleza não é fundamental. “Graças ao merda” mostra que o Merda pode salvar vidas! “I love japanese bands” abre com um sample de “Anos 80” de Raul Sexias e é uma homenagem às bandas japonesas que certamente são muito influentes para os garotos do Merda; “Tô com vontade de sair louco correndo gritando pelado pelo meio da rua” encerra o disco e depois você dá um repeat!

O projeto gráfico é muito bom, porém não informa quem foi o artista que o criou a capa e o encarte de colagens com fotos e zoações com Shelter, atores globais, bode, partes do boi, o papa... Contém todas as letras e ficha técnica da gravação.

“Curtição dos Jovens” foi o sexto lançamento da Läjä Records, um dos principais selos independentes brasileiros da atualidade e que atualmente conta com um extenso catálogo de mais de 100 títulos. O selo criou uma marca registrada e todos os seus lançamentos podem ser identificados com um padrão de qualidade Läjä, quase sempre sujo, tosco e sem vergonha, contudo com um capricho poucas vezes observado em discos independentes.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

MQN “Television in Full Colour” (Independente, 1998)




"Television in full colour" é primeira gravação da conhecida banda rock’n’roll de Goiânia que fez muito barulho em muitos festivais pelo Brasil a arriscou até uma turnê nos EUA, em 2003. Nesta gravação o MQN ainda era um quinteto, nas gravações seguintes a banda já estava reduzida a um quarteto.

Showbizz, edição 165, abril de 1999
 O EP traz 5 canções, destaque para o groove de “Brain working” e “Space boat to vênus”, esta com as guitarras surf music que chamaram atenção de Robert Coco, guitarrista do Man or Astro-man?, que convidou o MQN para gravar seu primeiro disco em Atlanta, EUA, o que de fato aconteceu!

Curiosamente, este EP é um CD Demo mais bem produzido na parte gráfica do que em sua sonoridade. Não é um disco bom, nem demonstra o potencial que a banda apresentava em discos e shows. Contudo, trata-se de um material especial que antecedeu a parceria de amigos para a idealização do selo Monstro Discos e fez parte da construção roqueira da cidade de Goiânia, junto com os festivais Bananada e Goiânia Noise, que criaram modo de produzir encontros de bandas independentes.

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sábado, 4 de agosto de 2012

V.A. “LOTOTOL” (+Mais Records, 1998)



Coletânea com 26 bandas curitibanas da segunda metade dos 90’s e dos mais variados estilos. Este é o CD “LOTOTOL”, um dos primeiros lançamentos do selo local + Mais Records que cobriu bem a efervescência do underground local da época.

O CD abre com o Estigma, uma banda de rap core. Numa pegada semelhante surge na sequência o Pogoboll. O Fuksy Faluta, banda muito comentada na época, com shows elogiados nos quais valia até a presença de um integrante que simplesmente não fazia nada no palco. Zirigdum Pfóin une rap, percussão e guitarra pesada em “Vila Kennedy”. Resist Control foi a banda que mais repercussão teve fora do Paraná na época, também segue um levada rap core na faixa que também batiza a banda. Até aqui as coisas ficam meio repetitivas.

"LOTOTOL" também traz bandas de punk rock e hardcore, com o Anões de Jardim, estilo HC novaiorquino em “Owner”, No Milk Today, mais rápidos do que de costume em “Morte”, AAAAAA Malencarada com sua garota gritalhona em “Movimento concreto”, Adjustement hardcore old school em “My crew”. Uma instituição do psycho drunk’a’billy nacional, o Ovos Presley com a impagável “A minha rola”, legitimamente um clássico abandonado pela banda. Prankish, mais crossover em “Over the edge”. Numtemcaô, mais pro hardcore melódico em “Consciência”. The Jerks punk rock do tipo protesto bastante influenciado pelos clássicos brasileiros do estilo em “Eu não me importo com você”

Industrial com o Zeitgeist Co., belo arranjo e produção em “Simple fraction” e o Mecanotremata com percussão de ferro velho e letra tipo poesia concreta em “Pele e osso”, poderíamos até denominar a banda como concretista.

Música eletrônica com Paulo de Tarso, aka Clone DT, apresenta um projeto de música eletrônica experimental e niilista em “Tetracaína”. LIFO com “Foolstrong” eletrônica industrial. Beat Dada surpreendente com “Studio blunted session” eletrônica em sintonia com o que se produzia no mundo no estilo, mistura breakbeat, downtempo e trip hop. Anhanguera 2099, eletrônica experimental com letra retirada de dois poemas de Roberto Prado gravadas em estéreo, em cada canal surge um letra diferente. Mosha demonstra um potencial para as belas melodias em “Stoned”, lembra muito as bandas do selo inglês Creation, produção apuradíssima.

Indie rock com o Zigurate, boa banda que flertava bastante com as atmosferas sombrias dos anos 80 em “O vento”. Universo Paralelo, melodiosos e acústicos em “Um verso”. Whir, banda das irmãs Rety e Qué, bastante influenciada por guitar bands e que conseguiu bastante notoriedade entre os anos 90 e 00, surge aqui com “Appaluse”. Plastic Fish é outra guitar band, guitarras barulhentas em “Hoteland”. Uma banda mais rock’n’roll, Mandioca Radioativa em “Remédio colorido”; e para encerrar uma banda inaudível, mas, com vocal feminino e um monte de guitarras, Fucke em “Turn your head”, muito bom para quem gosta de noise-barulho.

O projeto gráfico é muito curioso. O CD é tratado como um medicamento, de tarja vermelha, com bula, recomendações de uso, uma embalagem bastante caprichada. O encarte traz ficha técnica, todas as letras e apresentação das bandas, naquelas letras miúdas, tal como uma bula mesmo. Dois anos antes desta edição em CD circulou um "LOTOTOL" em fita K7 com muitas bandas de vários estilos, com predominância para o hardcore curitibano da época. A fita é uma raridade, e o blog Disco Furado aceita doações!

“LOTOTOL” foi produzido por Manoel de Souza Neto e Rodrigo “Digão” Duarte, recebeu apoio da 96 Rádio Rock, que veiculava as bandas presentes no disco, além de bares, estúdio e da loja de discos Temptation. Curiosamente eu descobri uma mensagem oculta, mal educada por sinal, ao abrir cuidadosamente a embalagem de papelão que é a capa do CD, ela diz: “ATENÇÃO: LOTOTOL serve na verdade como supositório para babacas, retrógrados e quem não gostou dele (isso não está escrito na bula!!!)”.

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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Quartz “By Quartz” (Liric Music, 1995)





Bizz, edição 127, fevereiro de 1996
Quartz é o nome do projeto solo de Ricardo Salvagni, baixista do Fellini que aproveitou o mais longo dos adeuses de sua banda/ex-banda para produzir seus experimentos eletrônicos.

O disco foi todo produzido e executado num sintetizador Sound Canvas SC-33. São 15 canções de autoria própria e um tanto indescritíveis, pois não se trata de um trabalho convencional, muitas vezes estas canções remetem a paisagens cinematográficas, tais como trilhas sonoras, destaque para “Postcard”, “Mercado Negro”, “A noite dos tempos” e “Enchantment” cujo arranjo lembra muito partes da canção “Valsa do Père Lachaise” gravada pelo Fellini Cadão Volpato em seu primeiro projeto solo, o Funziona Senza Vapore.

“By Quartz” é um disco quase desconhecido, não teve nenhuma repercussão expressiva na mídia, muito menos ocasião de lançamento, nem mesmo o seu próprio autor trabalhou com seu disco depois de lançado. O projeto gráfico de Liane Abdalla e Salvagni traz apenas informações técnicas

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