sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

V.A. "O Começo do Fim do Mundo" (SESC, 1982/Gravações Sem Qualidade, 1997)

            

         O terceiro lançamento de punk rock nacional foi a coletânea "O Começo do Fim do Mundo" (antecedida pelo compacto do Lixomania e pela coletânea "Grito Suburbano" - com Cólera, Inocentes e Olho Seco). Um disco histórico, pois registra o evento ocorrido no SESC Pompéia, em São Paulo/SP, nos dias 27 e 28 de novembro de 1982, considerado como o primeiro festival punk na América Latina.

Retirado da revista General, edição 08
O festival foi idealizado pelo escritor e teatrólogo Antônio Bivar e Tonhão Calegari, do Inocentes, que entraram em contato com o SESC com a proposta do evento. Para o SESC, além de ceder o espaço, ficou a incumbência de alugar o equipamento de som e lançar o LP com as a gravação ao vivo das bandas. E foi assim que aconteceu, obviamente a polícia interveio e acabou com o festival antes do previsto. Contudo, a violência policial não eliminou a importância do evento, que marca a aproximação dos punks da capital paulista com o punks do ABC, além de provar que existia uma grande quantidade de punks em São Paulo. 

Muito dessa "onda punk" surgiu como moda, o estilo chegou ao Brasil como estética visual de calças rasgadas, alfinetes nas faces e cabelos desgrenhados, junto vieram as bandas, algumas mais politizadas, panfletárias, e outras que se importavam apenas com barulho. Porém, uma coisa é certa, de lixo, miséria e violência aqueles jovens dos subúrbios paulistanos conheciam muito bem.

Foram 21 bandas divididas em dois dias, praticamente todas as bandas de punk rock que existiam em São Paulo no ano de 1982 participaram do festival. 19 delas entraram na coletânea em LP, na reedição em CD, de 1997, foi incluída uma canção do Ulster, e na fita VHS com as raras imagens do festival tem a apresentação da banda punk de garotas Skizitas, que ficou fora do álbum, inclusive a autoria das imagens do vídeo é uma incógnita até os dias atuais.

Pipoca Moderna, edição 03, janeiro de 1983
A gravação é tosca e foi feita num tape deck, ou seja, foi gravado numa fita cassete e depois reprocessado num estúdio de dois canais para se tornar o LP lançado pelo SESC  com tiragem de 300 unidades. A edição em CD mantém a qualidade do LP, afinal, teve o áudio retirado do próprio vinil e foi relançado pelo selo Gravações Sem Qualidade, de Fábio Sampaio, vocalista do Olho Seco e dono da loja Punk Rock Discos, um personagem fundamental para a história do movimento punk brasileiro.

As bandas contribuem para a "tosquêra" e poucas conseguem se sobressair no meio dos vocais berrados, da guitarra com a mesma distorção e da bateria martelada, ainda assim, no meio da selvageria surgem bons trabalhos. O Neuróticos com "Careca" mostram-se bastante informados com seu som Oi! Inocentes apresentam o clássico "Salvem El Salvador", gravada posteriormente nos álbuns “Miséria e fome” (Independente, 1983) e "Pânico em SP" (Warner, 1986). Ratos de Porão com Jão no vocal em "Novo Vietnã". Cólera engajados com "C.D.M.P. (Cidade dos meus pesadelos)". Ulster que tocavam encapuzados e se aproximam do hardcore com "Heresia". Olho Seco, rápidos e pesados, em sintonia com os sons europeus mais violentos com a não menos clássica "Haverá futuro?", que contém o mesmo discurso de abertura repetido em quase todas as posteriores execuções da canção. Outros destaques ficam para o Lixomania, Extermínio e Hino Mortal.

Imagem da bandeja do CD, não traz autoria
         
        O Começo do Fim do Mundo acabou com uma grande quantidade de jovens sendo levados pela polícia e outros tantos pelo Juizado de Menores. O festival entrou para a história como o evento mais representativo do punk rock latino-americano. O disco e sua bela capa com os punks no pátio do SESC Pompéia, local em que foi montado o palco, logo se tornou item disputado.

             Nos jornais da época o evento ganhou destaque não pela sua relevância e sim pela violência dos punks, tidos com agressivos, e até eram, não dá para negar, e pela ação da polícia, está como controladora da ordem e a serviço do público. Dizem que os vizinhos do SESC Pompéia chiaram e a presença da polícia se tornou inevitável. Por outro lado, em 1982 um festival punk não poderia terminar de outra maneira.

             Quer ouvir? Download aqui!

4 comentários:

  1. Obrigado por disponibilizar este player que retrata parte da Historia Punk no Brasil.

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    1. Não há de quê Rafael. Obrigado pela visita

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  2. bem interessante esse festival mesmo, dá até arrepios só de ver aquele punk com cabelo vermelho e os nomes das bandas! sou de 1996 e não faço ideia como era ser punk nessa época, gosto muito do som, ideologia e claro, atitude! vlw pela postagem!

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