quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Itamar Assumpção “Sampa Midnight: Isso não vai ficar assim” (MPA, 1986)




Em 1986 Itamar Assumpção já tinha chamado a atenção de muita gente. Reconhecido como um dos pilares da Vanguarda Paulistana, movimento não-organizado que agitou palcos pouco concorridos de São Paulo/SP desde o final dos anos 70, Itamar carregava elogios da crítica que aproximavam sua obra às suas referências de Hendrix, Gil, Samba e música Afro, e tinha no público universitário da Vila Madalena sua maior audiência.

“Sampa Midnight” é seu terceiro disco, antecedido pela estreia estrondosa de “Beleleu, Leleu, Eu” e pelo ao vivo “Às Próprias Custas S/A”, todos independentes sendo que o primeiro, de 1980, também foi o primeiro lançamento do selo Lira Paulistana.

Itamar Assumpção tinha muita facilidade para compor letra e música, tanto que seus discos todos têm mais de 15 músicas, algo que foge dos padrões dos discos lançados por grandes gravadoras. Itamar não desperdiçava o tempo de duração de um disco, assim como não perdia tempo na gravação. Seu ritmo de composição era tão intenso que seus cadernos eram frequentemente visitados e sobrava repertório para outros cantores e compositores.

"Sampa midnight" tem 15 canções e começa com “Prezadíssimos ouvintes”, composta em parceria com o escritor londrinense Domingos Pellegrini, uma de suas primeiras composições e que já estava na “mala” quando Itamar migrou de Londrina para São Paulo. Segue com “Ideia fixa”, cozinha firme e coesa com um trompete perdido sobre a letra que não deixa espaço para refrão. “Movido à água” é um reggae cuja letra questiona alternativas de combustíveis para automotores até chegar a brilhante ideia de um motor que pudesse ser alimentado por detritos humanos, Em “Desapareça Eunice” uma mostra de um homem irritado com o comportamento de sua parceira e que deseja seu sumiço antes que algo de pior lhe aconteça – esta é uma característica de Itamar como letrista, em quase todos os seus discos existem composições endereçadas aos nomes femininos, só neste são três. “Sampa Midnight” narra uma noite embriagada na qual Itamar e mais dois amigos - tal como os "Adorinianos" Matogrosso e Joca - presenciaram um blecaute no olho do furacão noturno paulistano. “Navalha na liga” é parceria de Itamar com a Alice Ruiz. "Vamos nessa" é um poema de Paulo Leminski musicado por Itamar, quase uma vinheta. “Chavão abre porta grande” foi gravada pouco tempo depois por Ney Matogrosso.

Bizz, edição 15, outubro de 1986
Com este disco Itamar arriscou uma carreira internacional e teve uma recepção surpreendente na Alemanha, país que relançou seus discos, através do selo Messidor, e convidou-o para algumas turnês, suas letras até foram traduzidas para o idioma teutônico. Curiosamente, "Sampa midnight" também abriu um novo mercado no Brasil, o mercado carioca que tanto fomentou a parte ensolarada do rock brasileiro dos anos 80, abriu seus palcos concorridos, Circo Voador e Teatro Ipanema, à calejada trupe paulistana de Itamar, Premê, Língua de Trapo, Rumo e outros.

"Sampa Midnight" foi lançado pelo desconhecido selo MPA (Mifune Produções Artísticas), porém não há informações sobre a atividade deste selo, no seu logotipo um dedo médio em riste torna-se outro dado interessante. O projeto gráfico de Eduardo Lima é bastante simples, a capa traz uma sombra em imagem incompreensível e o encarte traz todas as letras. O disco teve boa vendagem apesar da pequena tiragem inicial, foi reeditado pela Baratos Afins em 1989 e relançado em CD pela Atração em 1998.

Após “Sampa Midnight” Itamar Assumpção conseguiu um contrato com a gravadora Continental, na qual lançara em 1988 o LP “Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!!!”, único disco do Itamar com suporte de grande gravadora.

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