domingo, 28 de agosto de 2011

Repolho “Sorria, meu bem!” (Independente, 2004)


Um EP temático no formato compacto com 4 canções se tornou uma preciosidade do rock brasileiro. Por trás do disquinho estão os irmãos Panarotto e sua banda, o Repolho. Formada em 1991 na cidade de Chapecó/SC a banda já cometeu 5 álbuns, além de dois discos do projeto Irmãos Panarotto, o que lhes rendeu uma grande quantidade de fãs.
Notadamente, as influências do Repolho se concentram no extremo sul brasileiro, ecos de Graforréia Xilamônica, Cascavelletes, Marcelo Birck, Vanerão, Xote, Bugio e Milonga, podem ser percebidos em todos os trabalhos, ainda assim a banda faz questão de imprimir outras características e até mesmo fundir estilo. Entretanto, neste compacto não há espaço para experimentações em estúdio, o que rola aqui é rock, com guitarra, violão, baixo, bateria e uma zoeira de estúdio com participações de Plato Divorak, Carlo Pianta, Diego Medina, entre outros, tudo captado nas quatro canções do álbum.
Todas as letras são de Demétrio Panarotto, com exceção de “Pau na bucetinha” (de Marcelo Birck e Frank Jorge) e envolvem o mesmo tema. O Lado A abre com “B.U.C.E.T.A.” um rock com vanerão que narra a saudade do caminhoneiro em voltar para casa sempre pensando na “perseguida”. Em seguida tem “Cheirinho de buceta”, canção que exalta a fragrância peculiar do órgão feminino. O Lado B começa com a gravação de “Pau na bucetinha” e termina com “Vulva envolvente”.
O disco foi gravado em Porto Alegre e lançado de forma independente pelo Repolho, a parte gráfica é um trabalho muito caprichado do ilustrador multimídia Diego Medina que fez uma belíssima capa, a contracapa pode até enganar algum desavisado sobre o ano em que o disco foi lançado, pois foi concebida graficamente nos moldes das contracapas de LPs de trilha sonora dos anos 60 e 70.
Segue abaixo uma mini entrevista com Demétrio Panarotto especialmente para o blog Disco Furado:
1 Depois de mais de 10 anos de Repolho e com três CDs lançados, donde surgiu a ideia de lançar este compacto temático?
Demétrio Panarotto - A ideia do compacto surgiu mais ou menos na época em que eu, o Birck e o Blessmann finalizamos, andando pelas ruas de Porto Alegre, duas canções que abordavam um tema específico. Vale citar que a ideia das duas, “Cheirinho de Buceta” e “B.U.C.E.T.A”, partiu do Blessmann. Ao retornar a Chapecó mostrei-as para o Roberto e em poucos dias a ideia tinha tomado corpo. Juntamos ao repertório outras duas canções: "Vulva Envolvente", minha e do Eric Follmann (o Eric tocou em várias bandas curitibanas da década de 90, entre elas o Emílio e Mauro, Os Cervejas, Playmobillis...); e "Pau na Bucetinha" (ou "Jovem é uma Merda"), música do Marcelo Birck e do Frank Jorge – essa última integrava o repertório do show: Marcelo Birck e Frank Jorge do qual eu e o Thomas Dreher participamos tocando guitarra e bateria respectivamente.

           A partir daí juntamos a ideia de gravar um repertório que abordasse um tema específico e fazê-lo em vinil. Em vinil, pois, éramos (eu e o Roberto) aficionados com a ideia de lançarmos os nossos discos neste formato. E isso não aconteceu antes, pois, a partir da metade da década de 90 o vinil foi perdendo espaço e se tornou caro demais.

         Ainda pensamos em outras investidas, mas do jeito que a coisa anda não vale a pena fazer aqui no Brasil, o custo é muito alto. Dentre os projetos, lançar a Campo e Lavorá (nossa terceira demotape) em vinil, já até digitalizamos o material recentemente para não perdermos a fita rolo, que já estava bem deteriorada: http://www.youtube.com/watch?v=kKn9y9ilGlc .

      O compacto tem algumas curiosidades que acho legal citá-las: além do repertório abordar um tema específico, o fato de conseguirmos reunir em um mesmo disco uma série de artistas do rock do Rio Grande do Sul dos quais temos uma simpatia muito grande pelo trabalho que realizam. E isso nos alegra muito, pois o compacto é uma ideia que parte da banda Repolho, uma ideia que corremos atrás, mas é encampada por uma quantidade legal de pessoas que toparam participar do projeto.
A segunda é em relação à capa. O Diego Medina fez uma capa que tinha um tom envelhecido, pra parecer coisa velha mesmo. Mandamos fazer a capa em uma gráfica em Chapecó, e aí vêm as coisas engraçadas de morar em cidade interiorana. Quando o cara da gráfica nos entregou as capas nós quase caímos de costas, pois a proposta estética - do material parecer envelhecido -, tinha praticamente desaparecido, pelo menos em relação ao projeto inicial pensado pelo Diego. E o argumento do cara da gráfica foi simples, “achei que vocês não tinham percebido que estava sujo, aí dei um jeito de limpar um pouco, ainda não ficou bom, mas tá melhor do que tava”: o bom e velho conceito de limpeza do século XX, em que nada escapa a “máquina de embranquecer” as coisas. Assusta-me, neste caso, a dificuldade que as pessoas têm em não entender que aquilo que tu faz não precisa ser a cara daquilo que está sendo feito, daquilo que dita um “padrão”, aí ficam procurando falta ou excesso e não conseguem perceber que é daquele jeito, que foi feito pra ser daquele jeito e ponto.

          E a terceira - e ainda teria mais, rs - é a maneira como o Plato Divorak fez aquelas vinhetas maravilhosas que abrem cada faixa. Fomos até o apartamento dele eu, o Medina e o Dreher. Sentamos na sala da casa do Plato e o Thomas, que levou um equipamento apropriado para isso, foi registrando as improvisações que o Plato compunha a partir do nome das canções: dizíamos o nome da letra e ele bolava algo, música e letra, de total improviso. O legal é que entre uma história e outra, o material foi registrado e o disco ganhou um toque todo especial.
2 O Repolho lança discos, geralmente, sem o apoio de nenhum selo, como foi a produção deste disco?

           
Demétrio Panarotto - Foram 500 cópias. Gravado de forma independente e contando, como citei acima, mas é sempre bom retomar, com a participação dos amigos que toparam se envolver no projeto: O Diego Medina fez a capa e participou das gravações. E junto com ele participaram o Pianta, os irmãos Birck, o Thomaz Dreher, o Blessmann, o Frank Jorge, o Plato, a turma d’os Massa, e por aí vai.
          Essas são duas características dos nossos trabalhos: lançar os discos de maneira independente e procurar envolver outras pessoas nos projetos. Dos discos lançados, com exceção do primeiro - que saiu pela Grenal Records, um selo do produtor do disco, o Marcelo Birck, e que contou com nada mais nada menos que o disco do Repolho e o da banda do Birck, o Aristóteles de Ananias Jr. -, o restante foi de forma independente.

      Trabalhamos assim desde os primórdios, juntamos uns troco, discutimos repertório, convidamos as pessoas para participarem, gravamos e colocamos pra circular da maneira que nos parece, diante das nossas condições, mais eficiente. Foi assim com a “e a horta da alegria”, nossa segunda demo, lançada em 1994, que só das nossas mãos gravamos mais de mil cópias. Chegamos na época a comprar um aparelho que gravava de cassete pra cassete pra dar conta da demanda. A sala da casa em que morávamos durante um período se transformou em uma sala de montagem, trabalho manufaturado.

           E continuou sendo assim a partir do recurso da internet: sempre usamos essa ferramenta para potencializar o trabalho da banda, não é para menos que todos nossos discos estão disponíveis para download. E aí surge uma questão, pois, não sei até que ponto isso é bom, mas temos o costume de gerenciar as coisas que fazemos. Desta forma, muitas vezes, por não estarmos tocando, parece que estamos parados, um pouco é porque a vida mudou bastante, acho que ficamos mais velhos e mais chatos, e o resto é porque continuamos envolvidos com os projetos da banda ou com outros paralelos que muito mais do que dinheiro nos dão é muita alegria.



3. Qual a repercussão que este disco teve para o Repolho? Como e onde foram os shows de lançamento deste disco?

           
Demétrio Panarotto - Nós pensamos ele de maneira diferente e por esse motivo não nos preocupamos em fazer show do disco. Afinal de contas, a maioria das pessoas, quando o disco foi lançado, não tinha mais onde escutá-lo. E por aí também passava a ideia do disco: quem estivesse a fim de escutar teria que correr atrás de uma mídia que por incrível que pareça da noite para o dia havia se tornado obsoleta.
          Vi o disco na casa de muita gente como elemento decorativo, na estante ou na parede, como se fosse um quadro. As pessoas sabiam sobre o que se tratava, mas nem todos o escutavam: pra muita gente, por mais contraditório que possa parecer, escutar não era o mais importante.
         Hoje é diferente, está disponível na internet para download, mas acho que o fato de baixar ele na internet, no caso deste trabalho, diz pouco a respeito dele. O mais legal de tudo é ter a bolacha e fazer todo o ritual de tirar da capa, tirar do plástico, limpar o disco, colocar na vitrola, conferir se a agulha não está suja, colocar pra tocar e escutar esparramado no sofá. Talvez tenha se tornado um disco para apreciadores de vinil, nem sei se isso por causa da qualidade do que está gravado, mas pelo fato de ser uma banda que surge na  transição entre o vinil e o CD, mas que retoma uma ideia que no Brasil havia “caído de moda”

            Eu acho engraçado isso da cultura brasileira, a maneira como a novidade apaga o que em algum momento foi novidade e faz com que as coisas se tornem meramente obsoletas: no Brasil ou tu consome o que está sendo feito ou tu parece estar fora do eixo. E aí acho que vem uma das grandes contribuições da internet para esses casos, não apenas o fato de poder baixar o disco, mas de fazer com que pessoas que curtam o que para muitos se tornou ultrapassado se encontrem e troquem experiências sobre o assunto. O compacto repercute aí, por aí, a partir daí...



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