quinta-feira, 7 de julho de 2011

Zé do Bêlo "Acústico" (Barulhinho, 1999)



            "Acústico" é a estréia do cantor, compositor e violonista gaúcho Zé do Bêlo (heterônimo de Maurício Cambraia Sanches), um disco com 13 baladas de boteco cujos temas passeiam do amor a mais feliz escatologia.

            O que mais atrai a atenção do ouvinte é a interpretação embriagada das canções, como em “Meu Deus, uma luz” e “Rato de buteco”, porém Zé do Bêlo está além da contatação alcoólica, não bastasse assinar todas as composições, Zé também compôs os arranjos.

          O título do álbum não nega o seu conteúdo, o disco é realmente acústico, sem guitarras, e até mesmo, sem bateria, sendo assim, destaca-se o violão do Zé do Bêlo. O ritmo que predomina é o samba, o que já lhe rendera o apelido de Bezerra da Silva dos pampas, ocasião na qual abriu a coletânea “Os Excluídos” (lançada pelo selo Purnada  Y Pranada em 1998,) tais como o samba trágico de “O Gil Gomes falou”, e o samba escatológico exaltação-à-felicidade em “Bolinhas”, a letra desta resume a felicidade em algo muito simples, localizada dentro de qualquer nariz.
            As letras de amor também são muito boas “Diz que eu sou besta” é uma declaração de amor sem medo das cicatrizes e hematomas, já em “Reprise” Zé do Bêlo não perdoa a pretendente que furou um encontro esperado. Em “Jason” Zé empresta o nome do personagem de "Sexta-Feira 13" para contar a história do rapaz que era bonito feito um Alain Delon, mas “que pegaram pra Jason”. O disco ainda traz duas canções instrumentais e termina com o blues “Mississipi River”.
            “Acústico” foi gravado em 1998 e lançado em 1999 pelo selo gaúcho Barulhinho, propriedade de Frank Franklin, que durante uns 4 anos lançou a estréia solo do Frank Jorge e discos de Wander Wildner, Arthur de Faria, Os The Darma Lóvers, entre outros. O projeto gráfico do disco é bastante simples, e traz fotos do autor no melhor estilo rato de boteco e as "belíssimas" letras.
              Segue abaixo uma mini entrevista do Zé do Bêlo a pedido do blog Disco Furado:
 Como foi a confecção deste “Acústico”?
           Zé do Bêlo -  Foi rapidão, eu nem sabia como se faz, mas, fiz do meu jeito, meu amigo Frank Franklin conseguiu a produção, gravamos na casa do Costa, num Tascan de fita rolo, eu no corredor da casa com as quatro portas fechadas, no escurão, e o gravador no quarto, gravei o violão e a voz e aos poucos fomos colocando os outros instrumentos, as percussões, tem aquele piano na faixa “reprise” que eu mesmo gravei, naquele tempo nem tinha esse negócio de Pro-Tools, tinha que voltar a fita e fazer de novo, não tinha negócio de mudar os timbres como tem hoje, depois escrevi os arranjos de violino e flauta e chamei amigos pra participar, acho que em duas semanas tava tudo pronto, isso foi em 1999. A capa foi concepção minha também, produzida pelo Caco Escobar, autor das fotos, foram tiradas ali no Partenon, na rua e depois dentro duma sinuca no boteco da esquina. Fizemos 100 cópias deste CD e eu vendia nos shows.

Antes do disco, como foi a sua “caminhada fonográfica”?
     Zé do Bêlo - Gravei uma fita cassete em 1995, eu vendia nos shows várias cópias que eu mesmo fazia em casa passando de um gravador pro outro, e a capa eu fazia de xerox colorido, era a novidade da época o tal do xerox colorido... depois, em 1996 fui convidado pro CD coletânea “Os Excluídos”, de produção de Egisto 2, gravei 3 faixas com minha banda, e em 1998 entrei na coletânea da rádio Ipanema FM 15 anos, com a faixa “Samba Enredo”, com banda, também por intermédio do Egisto 2. Tem uma gravação que foi feita no estúdio profissional da Acit, com ótimos músicos me acompanhando, teve solos geniais do saxofonista Paulo Lata Velha, foi produzido pelo Egisto 2 também, mas o material nunca foi lançado.
 Como ocorreu o contato com o selo Barulhinho?
            Zé do Bêlo - Alguns meses depois que lancei o meu CD, em 1999, alguém deu uma copia pro Branco Produções, e ele gostou e propôs comprar os direitos pra lançar pelo selo Barulhinho e representar as vendas. A gente aceitou e ele passou a vender meus shows também, isso durou até 2003 mais ou menos. Me queimei com o Branco porque eu pegava CDs pra vender nos shows e acabava gastando a grana, daí dava briga na hora dos acertos.
Hoje, mais de dez anos depois, como você avalia a repercussão da sua estréia?
           Zé do Bêlo - Na época eu tinha recém chegado de Belo Horizonte do BHRIF - BH Rock Independente Festival, onde participei com a banda Lorenzo Y La Nota Falsa, este foi um evento onde davam palestras sobre carreira musical independente, gravação, distribuição... O Carlos Eduardo Miranda tava metido na organização, eu assisti a todos os cursos, workshops e palestras, eu tive essa formação e foi muito boa, por isso quando voltei a Porto Alegre já sabia o que fazer com meu trabalho e tratei logo de fazê-lo, enquanto muitos me criticavam, diziam que não dava pra fazer assim, que precisava uma gravadora por trás bancando, que não ia dar certo, etc... Mas como meu trabalho não era nada padronizado, nem as músicas nem o estilo, então tratei de fazer tudo do meu jeito próprio e funcionou... O marketing da coisa funcionou... Tinha músicos a minha volta que faziam um trabalho mais dentro do "padrão" do mercado e por isso eles não conseguiriam o mesmo resultado que eu, porque não é só a questão de lançar a música de forma independente, a minha própria música era totalmente fora de parâmetros também.

Como foram os shows? Este trabalho ficou restrito ao sul ou você pode viajar com este álbum? Sempre havia uma banda te acompanhando?
           Zé do Bêlo - Eu fiz Florianopolis, Curitiba, fui bem recebido, apareceu muito na imprensa e TV porque a produção do Branco era de primeira, eu ia sempre no esquema voz e violão, e fiz muitas cidades do Interior do RS, impulsionado pela participação nos comerciais da Polar, mas tinha contratantes que queriam banda, daí eu montava uma banda pra estas ocasiões, e a partir de 2001 convidei o saxofonista king Jim, pra fazer um trio violão, sax e percussão, como ele é muito competente passou a exercer papel de produtor musical, compositor e produtor de gravações e vídeo-clipes. Negócio de banda é complicado, eu prefiro tocar sozinho acompanhado do King Jim e do Alemão da Vila no tambor, apesar que a banda com o João Guedes no baixo e o Luiz Maurinho nos teclados ficou sensacional.
                Quer ouvir? Download aqui!

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