sábado, 31 de dezembro de 2011

brincando de deus (WR Discos, 2000)


Bizz, edição 184, novembro de 2000
O brincando deus (em letras minúsculas mesmo) é um quarteto formado em Salvador em 1992 e este é o seu terceiro e derradeiro disco. O álbum, sem título, é um trabalho muito bem cuidado, traz 14 canções todas compostas pela banda.
A banda movimentou bastante o underground brasileiro com o seu guitar sound , o que garantiu-lhes um número considerável de seguidores, algum espaço na mídia com clipes e publicações, além de participar de festivais independente importantes.
O disco é bastante melodioso e se distingue dos trabalhos anteriores, de canções mais barulhentas, rápidas. Bons exemplos destas melodias estão em “mvsica” e na ótima “’till you come”. As letras do brincando de deus são todas em inglês, como a grande maioria das guitar bands brasileiras, e compostas pelo vocalista Messias, neste disco há três canções com versos em português, “Clap your hands”, “Livro de Rilke” e “Alegro II”. É notável a influência de bandas inglesas como Ride, Spacemen 3 e coisas dos selos Creation, Too Pure e Factory. O projeto gráfico primoroso traz ilustrações renascentistas e encarte com todas as letras.
            Os planos para a realização deste trabalho incluíam a produção de Dave Friedmann, que já fez discos com Mogway, Mercury Rev, entre outros, mas em 1999 o estúdio da banda sofreu um incêndio e todo o equipamento foi perdido, assim como a pré produção deste disco, que só foi realizado no ano seguinte. Lançado pelo selo local WR Discos, que lançou CDs da maioria das bandas de Salvador da época. A realização contou com o suporte da Secretaria de Cultura da Bahia e a pequena tiragem se esgotou rapidamente. A banda encerrou atividades no ano seguinte, deixaram três discos e um EP, “Playing god”, lançado apenas no Estados Unidos.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Ciro Pessoa "No meio da chuva eu grito help" (Voiceprint, 2003)


           Pode-se afirmar confortavelmente que este disco demorou muito tempo para ser lançado. Trata-se do primeiro disco solo de Ciro Pessoa, vocalista e letrista paulistano com anos de bagagem acumulada e de trajetória tortuosa.
Bizz, edição 61, agosto de 1990
Ciro Pessoa fez parte da primeira formação do Titãs, na época do Iê-Iê, co-autor dos hits “Sonífera Ilha” e “Toda cor”, e depois no sombrio pós-punk/new wave Cabine C, que deixou apenas um álbum, “Fósforos de Oxford”, lançado em 1987 pelo selo que foi a novidade fonográfica daquele ano, a RPM Discos (propriedade de Paulo Ricardo e Luiz Schiavon), mas que naufragou na falta de experiência e controle financeiro de seus proprietários. Levou junto o disco do Cabine C, sem divulgação e distribuição, sobrou para Ciro Pessoa a tentativa de resolver a situação judicialmente, enquanto o disco empoeirava em algum estoque, hoje é artigo disputado. O Cabine C ainda trilhou caminho para o segundo disco, mas, “Cotonetes Desconexos” não chegou a ser lançado.
Após estas experiências, em 1990 Ciro Pessoa voltou-se às canções de amor e melancolia, este ultrarromantismo recebeu o nome de CPSP que não deixou disco, mas, rendeu a canção/balada “Tudo que me faz sentir você”, lançada, enfim, em 2003.
O álbum “No meio da chuva eu grito help” não ganhou tal título por acaso, soa todo como um grito, emenda riffs pesados e levada acelerada e carrega uma urgência tensa. Em “Dúvidas e sonhos” há melancolia, nostalgia, abandono e algum sonho, as drogas dão a letra de “Days.e”, e criam uma fotografia lisérgica para “Boliche sideral”.
O disco gravado em 2000 e lançado em 2003 pelo selo Voiceprint, capitaneado no Brasil por Fábio Golfetti, teve distribuição nacional pela Tratore. Na capa e contracapa há fotos de Ciro Pessoa aos gritos sendo atingido por golpes de água, o encarte traz todas as letras. Eis o grito, eis o disco!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Beijo Aa Força “20 anos” (Independente, 2003)


O Beijo Aa Força (BAAF) foi uma das primeiras bandas punks de Curitiba. Formada em 1983, passou por várias formações, ainda que seu núcleo sempre envolvesse o trio Rodrigo Barros, Renato Quege e Luiz Ferreira.
O disco que comemora os vinte anos do BAAF também é uma volta aos primeiros anos, pois ao longo das duas décadas a banda absorveu muitas influências no seu som, tanto que no lançamento de seu primeiro álbum “Música Ligeira nos Países Baixos (Tinitus, 1993) pouco há da crueza punk rock dos início, assim como no segundo registro, “Sem Suingue” (Independente, 1996), no qual o BAAF esta mais para o Maxixe Machine, banda paralela dos rapazes que assumiu as influências que não cabiam mais no BAAF, dentre elas as marchinhas à Lamartine, o folk irlandês, a polka e o samba de polaco, meio torto, meio duro, meio sincopado.
As letras são compostas de poesia e falta de esperança, a maioria delas em parceria com poetas curitibanos como Marcos Prado, Thadeu Wojciechowski e Sérgio Virallobos. No disco tem várias delas, tente não se deliciar com carta à cerveja em “My dear beer” com direito à incidental “London calling”, ou então “Mulher de Marx”, um funk seco de apenas um verso, mas que rende uma canção fantástica.
"20 anos" foi lançado de forma independente, tem 13 canções e mais 3 bônus. A última, “Pé frio”, é um registro histórico do BAAF e foi gravada no 1º Festival Punk de Curitiba, ocorrido na Sociedade Beneficente Protetora dos Operários em 1983. A capa e projeto gráfico é do artista gráfico Magoo, o encarte traz todas as letras. O BAAF encerrou atividades em 2007, mas, com sorte você ainda pode pegar algum retorno comemorativo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Soutien Xiita “Cantando pra subir” (Tamborete Entertainment, 1999)


O underground carioca dos anos 90 foi o cenário das mais improváveis bandas que haviam no underground brasileiro na época. Zumbi do Mato, Funk Fuckers, Gangrena Gasosa, Piu Piu e sua Banda e Soutien Xiita se destacavam, cada uma à sua maneira, pelas suas peculiaridades e pela longevidade.
Ao Soutien Xiita coube a particularidade de ter as letras mais sujas do Rio de Janeiro, um páreo realmente difícil! Formada em 1992, a banda gravou quatro fitas demo, fez muitos shows entre RJ e São Paulo e lançou seu único disco em 1999. Na verdade, um disco póstumo que recebeu apenas um único show de lançamento, no Garage, é claro.
“Cantando pra subir” tem 17 pedradas de hardcore rápido e nervoso que embala letras com os singelos títulos: “Sex from hell”, “Me and your mother”, “Boquete”, entre outras, esta última é um clássico do HCRJ! A maioria das letras foram escritas pelo vocalista Cláudio. A banda, em 1998 se completava com o trio Cabelada (baixo), Mutley (bateria) e Leonardo Panço (guitarra). A gravação coube ao produtor Rafael Ramos, na época era baterista do Jason e sócio da Tamborete Entertainment, selo responsável por lançar discos de bandas clássicas do underground brasileiro, como Little Quail and the Mad Birds, Wry, Sex Noise, Poindexter, Inkoma, e muitas outras...
O projeto gráfico é caprichado e as ilustrações de Flávio Flock chamam a atenção, a começar pela capa com uma mulher obesa de três peitos, em outra ilustração a “garota da capa” surge estraçalhada pelo seu cãozinho.
O álbum foi prensado em 500 cópias e recebeu péssimas resenhas da mídia especializada, nem mesmo o bônus com todas as canções do disco em versão acústica atraiu a atenção de alguém para o disco do Soutien Xiita.
           Quer Ouvir? Download aqui!
          Também disponível no Youtube!

domingo, 27 de novembro de 2011

V.A. "Melopéia: Sonetos Musicados" (Rotten Records, 2001)

         
        "Melopéia" é um disco atípico. Não se trata de um tributo, mas pode assumir tal função, pois homenageia e apresenta sonetos musicados do poeta paulistano Glauco Mattoso, maldito, e mais que isso, o preferido dos punks, skinheads e outros malditos. O álbum traz 23 canções, todas introduzidas por vinhetas de cravo, e 19 interpretes diferentes. Segue abaixo um pouco de alguns sonetos e suas versões:

Tato Ficher e sua versão para “Tropicalista”, soneto nostálgico que presta sua reverência Tropicália e afirma a importância que o movimento teve na vida e obra de Glauco Mattoso.
Inocentes apresenta “Preguicista”, soneto que exalta o direito à preguiça e o fim da ditadura da magriça.
Arnaldo Antunes e Laranja Mecânica fizeram interpretações diferentes do mesmo soneto “Confessional”, de (des)amor e dor.
Humberto Gessinger lê “Revista”, belo texto que descreve o ato de ler uma de nossas revistas semanais, o verso final altera as rimas e mostra a idiossincrasia habitual do seu intérprete.
Glauco Mattoso
DJ Krâneo divide “Utópico” em  duas partes, soneto que afirma o sonho masculino da autofelação.
Edvaldo Santana, que não poderia faltar neste projeto, faz bonito em “Bélico” soneto que se encerra no verso: “... quanto menos ronda a bota faz, mais folga ostentará o pé de chinelo”. O mesmo tema também aparece em “Pacifíscta”, gravada por Luiz Roberto Guedes e Fábio Stefani.
Wander Wildner, acompanhado de Flu, grava “Ensaístico”, soneto-ensaio que sintetiza a obra de Glauco Mattoso em duas fases, iconoclasta e podorasta, separadas pelo glaucoma, “... ao cego, o feio é belo, e a dor é vida”.
Ayrton Mugnaini Jr traz “Flatulento” soneto que afirma ser hilariante o ato de peidar, sozinho, em público e indiscriminadamente, canção, interpretação e soneto caíram muito bem.
Billy Brothers faz um rockabilly de “Escatológico”, soneto que aponta a insatisfação do autor quanto ao uso da palavra merda, sendo preferido o seu sentido próprio visto às suas aplicações no figurado.
Devotos transformam “Dercy Gonçalves” num hardcore, o soneto é uma homenagem à centenária vedete, atriz e boca suja de primeira, “... com ela é pau no cu da carochinha!”.
Falcão, o ídolo brega, e Eriberto Leão, fazem de “Precípuo” uma balada “brega” bem ao estilo Falcão, nada demais.
          Itamar Assumpção fez sua derradeira gravação neste disco, junto com Renata Mattar, gravou “Amélia & Emília”, soneto que aproximam duas mulheres de mentira, a Amélia de Ataulfo Alves e a Emília de Monteiro Lobato.
       Claudia Wonder & Edson Cordeiro encerram o álbum com "Virtual" em versão disco-clubber que os dois interpretes conhecem bem. Um das poucas gravações de Claudia Wonder.
            A capa de “Melopéia” é obra de Lourenço Mutarelli, e reproduz a foto que estampa a capa de “Tropicália ou Panis et Circencis”, no encarte há todas as letras e ficha-técnica das gravações, um trabalho gráfico eficiente e bem produzido. O álbum foi lançado saiu pelo selo independente Rotten Records, propriedade de Luís Português, ex-baterista do Garotos Podres, e Glauco Mattoso, em 2001, teve mil cópias e hoje é item raro. Aproveite para conhecê-lo!

           Quer ouvir? Download aqui! (Chave: !s86GUxKQ79tAAdTIxQFSqwZh_xeRcYnhdtcuJXAZlJI)
Também disponível no Youtube!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sala Especial (Bizarre Music, 2000)


Bizz, edição 173, dezembro de 1999
            Um EP com apenas 4 canções instrumentais fez um grande estrago quando lançado, capturou uma banda muito criativa e com uma proposta completamente diferente de tudo o que acontecia no underground brasileiro de mudança de século. Uma pena que a trajetória discográfica do Sala Especial tenha ficado apenas neste registro oficial, além de demo tapes disputadas à tapa.
            O Sala Especial fazia um som lounge, easy-listening, ou “música de elevador”, pura trilha sonora de sci-fi, ou trilha de vídeos de fórmula 1 dos anos 60, tem até os efeitos e barulhinhos que fazem toda a diferença. Não há canções para recomendar, o disco tem 12 minutos, ouça todas e repita-as! Não é à toa que a banda foi escalada sem titubear para abrir os shows que o Stereolab fez no Brasil em 2000, desnecessário afirmar que o combo franco-inglês ficou fã na hora.
            A capa do disco tem ilustração do jornalista Sérgio Barbo e design do baixista Mauro Cunha, tudo bastante caprichado. Foi lançado pelo selo e loja Bizarre Music, que também lançou o primeiro disco do Transistors, banda que divide referências com o Sala Especial. Enfim, este é um daqueles discos únicos, se eu encontrar mais um, compro e fico com dois!
               Quer ouvir? Download aqui!
               Também disponível no Youtube!

sábado, 8 de outubro de 2011

V.A. “Rock de Autor” (Manifesto, 1991)



"Rock de autor" reúne uma grande quantidade de músicos, produtores e jornalistas com canções e experimentos de estúdio. Ao todo são 19 nomes que interpretam suas criações, daí o nome “Rock de Autor”. Entretanto, o rock aqui é tratado de uma maneira bastante livre, há referências espalhadas por toda parte.
O álbum só existe no formato LP e teve uma tiragem de 1000 unidades. Foi o segundo lançamento do selo Manifesto, propriedade do jornalista Alex Antunes e do produtor R.H. Jackson, que antes havia lançado outra coletânea, “Enquanto Isso...”. “Rock de Autor” é algo como um "disco-alívio", aqui todos os envolvidos não têm compromissos para apresentar sua autoria. Fruto da ressaca do rock brasileiro dos 80's, "Rock de autor" é uma flecha sem alvo. Chama a atenção um detalhe na ficha técnica: a afirmação de que o selo Manifesto não detém ou questiona direitos autorais, ideia de R.H. Jackson.
O Lado A abre com o “We Bop” de P* Antunes (heterônimo de Alex Antunes) acompanhado de Akira S. e Bocato. Em seguida vem o multifacetado Aguilar, egresso da sua Banda Performática, com o reggae “As Gangs”. Paulo Miklos em sua primeira incursão solo apresenta “Esse é o Lugar” em versão bastante diferente da gravada em seu primeiro disco. O saudoso guitarrista e jornalista Minho K (apelido de Celso Pucci) se destaca com a instrumental “Drunk Rock”, o bottle neck soa bonito nas cordas deste amante fiel do velho rock’n’roll. Cid Campos também merece atenção com “O Verme e a Estrela”, música e letra bastante sensíveis, com direito à participação de seu pai, Augusto de Campos, na leitura de parte do poema da letra. A última do lado A traz Akira S., Charlie Crooijmans e Miguel Barella na ótima “Tokei”, com letra em holandês e a bela voz de Charlie, possivelmente a melhor canção da coletânea.
Bizz, edição 79, fevereiro de 1992
            O Lado 1 começa com a instrumental “Xote Inglês”, um xote mesmo, na verdade, uma bela zoeira entre Carlos Eduardo Miranda, Ricardo Salvagni, Jimi Joe, Neneco e Maria Andrade. Na sequência o produtor e guitarrista R.H. Jackson apresenta “O Gato de Schrodinger”. Dequinha e Zaba Moreau vêm com a ótima “Preposições”, uma letra feita de com preposições (sic) sob a música etérea. Arnaldo Antunes vem acompanhado apenas do violão em “E Só”, um poema concreto musicado de estilo característico. A instrumental “O Gato Vermelho” de Maria Andrade traz uma guitarra como golpes de navalha sob violão e meia-lua, uma das melhores do álbum, porém, faltam informações sobre esta faixa no encarte. Os guitarristas de mãos cheias Miguel Barella e Giuseppe Lenti apresentam a instrumental “Borgosan Frediano”, a única faixa do disco que não foi gravada especialmente para este projeto, pois data de 1988, e também pode ser encontrada, na mesma versão, no primeiro disco do Alvos Móveis (Suck My Discs, 1996) projeto inspirado dos guitarristas. Por fim, outro début solo, Nasi e a sua “Arábia Maldita (1h e 12min)”, uma letra de texto curto e música com colagens de estações de rádio.

            "Rock de autor" não teve nenhuma ocasião de lançamento, a característica do projeto de ser feito com experiências em estúdio se tornou difícil de se reproduzir ao vivo. A resenha de lançamento na Bizz, feita pelo DJ e jornalista Camilo Rocha, não destaca nenhuma faixa, pelo contrário, sobrou para Cid Campos o título da caretice MPBóide e uma constatação, projetos como este dão mais prazer para quem faz do que para quem ouve. Hmmm... pode ser.
            A produção de “Rock de Autor” é de R.H. Jackson e Eucy Próprio (também conhecido como Alex Antunes), a bonita capa é de Zaba Moreau, e no encarte cada autor tem seu espaço. Trata-se de uma obra dividida entre boas canções e outras nem tanto. Como coletânea, cumpre sua função e vale conferir, mesmo 20 anos após seu lançamento os momentos inspirados podem surpreender o ouvinte curioso.
             Quer ouvir? Download aqui!
             Também disponível no Youtube!

domingo, 25 de setembro de 2011

Kid Vinil & Verminose “Xu-Pa-Ki” (Verminose Records, 1995)


         O Verminose foi uma das pioneiras bandas punk brasileiras, surgida entre o fim do AI-5 e o início do Magazine, liderada por Kid Vinil, que na época, final dos anos 70, era DJ de rádio e “homem-de-gravadora”. Em seus primeiros anos de existência a banda não deixou nenhum registro, isso só foi acontecer em 1995 e de forma independente.
         “Xu-Pa-Ki” é praticamente um disco perdido, pois quase não teve repercussão de mídia na ocasião de seu lançamento, nem mesmo distribuição. São 10 canções, contando 6 regravações. A faixa título é dos punks portugueses do Mata Ratos, “A namoradinha que eu amei” do Kães Vadius, “Anjo da Guarda”, do Made in Brazil, “Sou coroa” está no único LP do Ayrton Mugnaini Jr,  “Como vovó já dizia” do Raul Seixas, e “Ela só gosta de pizza” do Destemidos Limonadas. Das inéditas, 3 foram aproveitadas no disco posterior de Kid Vinil, com o reformulado Magazine, o álbum “Na honestidade” (Trama, 2002), são: “Conversível irresistível” (letra de Roger Moreira), “O jogador” e “Marlene”. Restou apenas “Numas de horror”, presente apenas em "Xu-pa-ki".
          O disco foi gravado no estúdio Bonadio e produzido por Rick Bonadio e Duca Belintani, este também era guitarrista do Verminose, que se completava com o baterista Trinkão, remanescente da primeira encarnação do Verminose e  também do Magazine, e pelo baixo de Lu Stopa. A capa do disco traz uma “bela imagem" de seus trajes mínimos, no mínimo provocante!
       Quer ouvir? Download aqui!
       Também disponível no Youtube!

sábado, 17 de setembro de 2011

Concreteness “Numberum” (Tinitus, 1996)


            Extraterrestres estiveram no Brasil, se instalaram no interior de São Paulo, abduziram influências de toda parte e montaram uma banda que permaneceu em atividade durante boa parte da década de 90, de tão espertos ainda compuseram em nossa língua!
Bizz, edição 135, outubro de 1996
            
        Esqueça tudo isso. O quarteto Concreteness, de Santa Barbara d’Oeste formado pelos irmãos Cesar, Marco e Marcello Maluf, mais o Véio no baixo, fez muito barulho e chamou a atenção por onde passou, o Concreteness fez parte de uma cena, uma invasão de bandas do interior de São Paulo que sopraram para longe a poeira levantada pelo festival Juntatribo. "Numberum" é seu primeiro disco, depois de várias demos e participações em coletâneas.
            A faixa título abre o disco e a letra é uma lista de nomes e marcas que precursoramente nos revelam os efeitos globalizantes. O álbum segue com “Tchau”, um libelo anti-amor com a urgência do punk e poesia de ódio. Por sinal, estes três itens citados, a poesia, o punk e o anti-amor, são uma constante no disco. Marcello Maluf programou sua bateria eletrônica para desfilar 12 canções de raiva concentrada e que por vezes soam como poesias concretas musicadas, como em “Se” (Leminski deveria ouvir essa!) e na regravação de “Batmacumba”, outro clássico da MPB abduzido para o disco é “Deus lhe pague”. Não é à toa que a mídia chamava o Concreteness carinhosamente de "industrial caipira".
            “Numberum” foi um dos últimos lançamentos do selo Tinitus, propriedade de Pena Schmidt que deixou um catálogo de bons discos do período, e foi antecedido por uma experiência rara entre os independentes. Antes do début do Concreteness chegar às lojas foi lançado um single com quatro remixes da canção “Se”.
            A capa do disco traz quatro alienígenas e foi retirada da tatuagem de Marco Maluf, o encarte traz todas as letras, foto dos integrantes, ficha técnica e uma grande lista de agradecimentos. O Concreteness encerrou atividades poucos anos após o primeiro disco e deu lugar a outra banda de curta trajetória, o Jardim Elétrico. Atualmente, em 2014, a banda ensaia uma volta comemorativa mesmo sem o baixista Véio, falecido em 2009. 

domingo, 28 de agosto de 2011

Repolho “Sorria, meu bem!” (Independente, 2004)


Um EP temático no formato compacto com 4 canções se tornou uma preciosidade do rock brasileiro. Por trás do disquinho estão os irmãos Panarotto e sua banda, o Repolho. Formada em 1991 na cidade de Chapecó/SC a banda já cometeu 5 álbuns, além de dois discos do projeto Irmãos Panarotto, o que lhes rendeu uma grande quantidade de fãs.
Notadamente, as influências do Repolho se concentram no extremo sul brasileiro, ecos de Graforréia Xilamônica, Cascavelletes, Marcelo Birck, Vanerão, Xote, Bugio e Milonga, podem ser percebidos em todos os trabalhos, ainda assim a banda faz questão de imprimir outras características e até mesmo fundir estilo. Entretanto, neste compacto não há espaço para experimentações em estúdio, o que rola aqui é rock, com guitarra, violão, baixo, bateria e uma zoeira de estúdio com participações de Plato Divorak, Carlo Pianta, Diego Medina, entre outros, tudo captado nas quatro canções do álbum.
Todas as letras são de Demétrio Panarotto, com exceção de “Pau na bucetinha” (de Marcelo Birck e Frank Jorge) e envolvem o mesmo tema. O Lado A abre com “B.U.C.E.T.A.” um rock com vanerão que narra a saudade do caminhoneiro em voltar para casa sempre pensando na “perseguida”. Em seguida tem “Cheirinho de buceta”, canção que exalta a fragrância peculiar do órgão feminino. O Lado B começa com a gravação de “Pau na bucetinha” e termina com “Vulva envolvente”.
O disco foi gravado em Porto Alegre e lançado de forma independente pelo Repolho, a parte gráfica é um trabalho muito caprichado do ilustrador multimídia Diego Medina que fez uma belíssima capa, a contracapa pode até enganar algum desavisado sobre o ano em que o disco foi lançado, pois foi concebida graficamente nos moldes das contracapas de LPs de trilha sonora dos anos 60 e 70.
Segue abaixo uma mini entrevista com Demétrio Panarotto especialmente para o blog Disco Furado:
1 Depois de mais de 10 anos de Repolho e com três CDs lançados, donde surgiu a ideia de lançar este compacto temático?
Demétrio Panarotto - A ideia do compacto surgiu mais ou menos na época em que eu, o Birck e o Blessmann finalizamos, andando pelas ruas de Porto Alegre, duas canções que abordavam um tema específico. Vale citar que a ideia das duas, “Cheirinho de Buceta” e “B.U.C.E.T.A”, partiu do Blessmann. Ao retornar a Chapecó mostrei-as para o Roberto e em poucos dias a ideia tinha tomado corpo. Juntamos ao repertório outras duas canções: "Vulva Envolvente", minha e do Eric Follmann (o Eric tocou em várias bandas curitibanas da década de 90, entre elas o Emílio e Mauro, Os Cervejas, Playmobillis...); e "Pau na Bucetinha" (ou "Jovem é uma Merda"), música do Marcelo Birck e do Frank Jorge – essa última integrava o repertório do show: Marcelo Birck e Frank Jorge do qual eu e o Thomas Dreher participamos tocando guitarra e bateria respectivamente.

           A partir daí juntamos a ideia de gravar um repertório que abordasse um tema específico e fazê-lo em vinil. Em vinil, pois, éramos (eu e o Roberto) aficionados com a ideia de lançarmos os nossos discos neste formato. E isso não aconteceu antes, pois, a partir da metade da década de 90 o vinil foi perdendo espaço e se tornou caro demais.

         Ainda pensamos em outras investidas, mas do jeito que a coisa anda não vale a pena fazer aqui no Brasil, o custo é muito alto. Dentre os projetos, lançar a Campo e Lavorá (nossa terceira demotape) em vinil, já até digitalizamos o material recentemente para não perdermos a fita rolo, que já estava bem deteriorada: http://www.youtube.com/watch?v=kKn9y9ilGlc .

      O compacto tem algumas curiosidades que acho legal citá-las: além do repertório abordar um tema específico, o fato de conseguirmos reunir em um mesmo disco uma série de artistas do rock do Rio Grande do Sul dos quais temos uma simpatia muito grande pelo trabalho que realizam. E isso nos alegra muito, pois o compacto é uma ideia que parte da banda Repolho, uma ideia que corremos atrás, mas é encampada por uma quantidade legal de pessoas que toparam participar do projeto.
A segunda é em relação à capa. O Diego Medina fez uma capa que tinha um tom envelhecido, pra parecer coisa velha mesmo. Mandamos fazer a capa em uma gráfica em Chapecó, e aí vêm as coisas engraçadas de morar em cidade interiorana. Quando o cara da gráfica nos entregou as capas nós quase caímos de costas, pois a proposta estética - do material parecer envelhecido -, tinha praticamente desaparecido, pelo menos em relação ao projeto inicial pensado pelo Diego. E o argumento do cara da gráfica foi simples, “achei que vocês não tinham percebido que estava sujo, aí dei um jeito de limpar um pouco, ainda não ficou bom, mas tá melhor do que tava”: o bom e velho conceito de limpeza do século XX, em que nada escapa a “máquina de embranquecer” as coisas. Assusta-me, neste caso, a dificuldade que as pessoas têm em não entender que aquilo que tu faz não precisa ser a cara daquilo que está sendo feito, daquilo que dita um “padrão”, aí ficam procurando falta ou excesso e não conseguem perceber que é daquele jeito, que foi feito pra ser daquele jeito e ponto.

          E a terceira - e ainda teria mais, rs - é a maneira como o Plato Divorak fez aquelas vinhetas maravilhosas que abrem cada faixa. Fomos até o apartamento dele eu, o Medina e o Dreher. Sentamos na sala da casa do Plato e o Thomas, que levou um equipamento apropriado para isso, foi registrando as improvisações que o Plato compunha a partir do nome das canções: dizíamos o nome da letra e ele bolava algo, música e letra, de total improviso. O legal é que entre uma história e outra, o material foi registrado e o disco ganhou um toque todo especial.
2 O Repolho lança discos, geralmente, sem o apoio de nenhum selo, como foi a produção deste disco?

           
Demétrio Panarotto - Foram 500 cópias. Gravado de forma independente e contando, como citei acima, mas é sempre bom retomar, com a participação dos amigos que toparam se envolver no projeto: O Diego Medina fez a capa e participou das gravações. E junto com ele participaram o Pianta, os irmãos Birck, o Thomaz Dreher, o Blessmann, o Frank Jorge, o Plato, a turma d’os Massa, e por aí vai.
          Essas são duas características dos nossos trabalhos: lançar os discos de maneira independente e procurar envolver outras pessoas nos projetos. Dos discos lançados, com exceção do primeiro - que saiu pela Grenal Records, um selo do produtor do disco, o Marcelo Birck, e que contou com nada mais nada menos que o disco do Repolho e o da banda do Birck, o Aristóteles de Ananias Jr. -, o restante foi de forma independente.

      Trabalhamos assim desde os primórdios, juntamos uns troco, discutimos repertório, convidamos as pessoas para participarem, gravamos e colocamos pra circular da maneira que nos parece, diante das nossas condições, mais eficiente. Foi assim com a “e a horta da alegria”, nossa segunda demo, lançada em 1994, que só das nossas mãos gravamos mais de mil cópias. Chegamos na época a comprar um aparelho que gravava de cassete pra cassete pra dar conta da demanda. A sala da casa em que morávamos durante um período se transformou em uma sala de montagem, trabalho manufaturado.

           E continuou sendo assim a partir do recurso da internet: sempre usamos essa ferramenta para potencializar o trabalho da banda, não é para menos que todos nossos discos estão disponíveis para download. E aí surge uma questão, pois, não sei até que ponto isso é bom, mas temos o costume de gerenciar as coisas que fazemos. Desta forma, muitas vezes, por não estarmos tocando, parece que estamos parados, um pouco é porque a vida mudou bastante, acho que ficamos mais velhos e mais chatos, e o resto é porque continuamos envolvidos com os projetos da banda ou com outros paralelos que muito mais do que dinheiro nos dão é muita alegria.



3. Qual a repercussão que este disco teve para o Repolho? Como e onde foram os shows de lançamento deste disco?

           
Demétrio Panarotto - Nós pensamos ele de maneira diferente e por esse motivo não nos preocupamos em fazer show do disco. Afinal de contas, a maioria das pessoas, quando o disco foi lançado, não tinha mais onde escutá-lo. E por aí também passava a ideia do disco: quem estivesse a fim de escutar teria que correr atrás de uma mídia que por incrível que pareça da noite para o dia havia se tornado obsoleta.
          Vi o disco na casa de muita gente como elemento decorativo, na estante ou na parede, como se fosse um quadro. As pessoas sabiam sobre o que se tratava, mas nem todos o escutavam: pra muita gente, por mais contraditório que possa parecer, escutar não era o mais importante.
         Hoje é diferente, está disponível na internet para download, mas acho que o fato de baixar ele na internet, no caso deste trabalho, diz pouco a respeito dele. O mais legal de tudo é ter a bolacha e fazer todo o ritual de tirar da capa, tirar do plástico, limpar o disco, colocar na vitrola, conferir se a agulha não está suja, colocar pra tocar e escutar esparramado no sofá. Talvez tenha se tornado um disco para apreciadores de vinil, nem sei se isso por causa da qualidade do que está gravado, mas pelo fato de ser uma banda que surge na  transição entre o vinil e o CD, mas que retoma uma ideia que no Brasil havia “caído de moda”

            Eu acho engraçado isso da cultura brasileira, a maneira como a novidade apaga o que em algum momento foi novidade e faz com que as coisas se tornem meramente obsoletas: no Brasil ou tu consome o que está sendo feito ou tu parece estar fora do eixo. E aí acho que vem uma das grandes contribuições da internet para esses casos, não apenas o fato de poder baixar o disco, mas de fazer com que pessoas que curtam o que para muitos se tornou ultrapassado se encontrem e troquem experiências sobre o assunto. O compacto repercute aí, por aí, a partir daí...



            Quer ouvir? Download aqui!
            Também disponível no Youtube!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Marcelo Birck (Grenal Records, 2000)


                 Esse disco é essencial! O primeiro álbum do mestre das experimentações de estúdio, multi-instrumentista e letrista de mãos cheias das bandas Graforréia Xilarmônica, Aristóteles de Ananias Jr. e Os Atonais, eis "Marcelo Birck", o disco.
     
                 O processo de confecção do álbum foi longo, de 1997 a 2000, gravado nos estúdios de Thomas Dreher e Marcelo Birck, com um grande revezamento dos dois entre baixos, teclados, guitarras, bateria, percussão, mixagem e produção, além das participações adicionais de Alexandre Birck, Cristina Birck, Leandro Blessmann, Felipe Petry e Lawrence David.

     O disco abre com um possível hit “O meu cigarro”, uma balada à Jovem Guarda (qualquer música incidental é mera coincidência), cheia de ruídos e barulhinhos, ora a guitarra aparece no primeiro plano dos volumes, ora o vocal assume nossos ouvidos, um efeito estéreo analógico que dá um nó no cérebro, não se engane nem o disco ou seu aparelho estão com defeito. Logo depois entra “Dodecaedro”, a primeira experiência em estúdio do disco, outras virão. Em seguida mais um hit em potencial, “Biquínis em verso”, um ié-ié-ié em parceria com Plato Divorak e Julio Cascaes, essa canção também fez parte do repertório da Pipodélica. E seguem-se mais preciosidades como “Ié-ié-ié do Oiapoque ao Chuí”, “Sei que vou chorar”, “Surf atonal”, todas entrecortadas pelas intervenções de estúdio e fitas invertidas.

           O álbum foi lançado de forma independente pelo selo do próprio Birck, Grenal Records, que também é o autor da capa e toda arte do disco, que não traz fotos nem letras, mas a ficha-técnica é grande.
     
      Não há palavras para descrever esse disco (e quem precisa?). Então, parafraseando Chacrinha, Marcelo Birck está aí para confundir e não para explicar. Segue abaixo uma mini entrevista com o próprio especialmente para o blog Disco Furado:
     
1.    Como foi a criação deste disco?
Marcelo Birck - Na época da gravação do disco, os recursos digitais estavam recém se popularizando. Eu tinha alguns microfones de qualidade bem razoável, e várias demos que haviam sido gravadas ainda em gravador de rolo, além das pistas de algumas sessões (mas que em geral não passavam de três instrumentos). Com a possibilidade de edição, eu pensei: dá pra transformar este material em disco. E foi o que fiz. Composição e gravação acabaram saindo praticamente juntas, porque do material que eu tinha a maior parte acabou sendo editada, um processo de recriação mesmo. Detalhe: na época, eu tinha um 486 com 16 MB de memória RAM, e apenas dois canais de gravação. A solução foi gravar uma base para retorno em CD, e  depois ir sobrepondo os instrumentos em um programa de edição, um por um, na base da tentativa e erro. Me lembro da lerdeza de processamento, mas eu estava bem convicto do que eu queria.  Depois de começado este processo, levei em torno de um ano pra finalizar. 

2. Como foi a repercussão do álbum quando lançado? Como você vê o trabalho independente neste disco? 

Marcelo Birck - A repercussão foi muito boa, várias críticas elogiosas e bons espaços na mídia. Estava rendendo ainda em 2006 (seis anos depois de lançado), quando recebi  o convite pra tocar no TIM Festival. Também tive muito retorno indireto com esse disco. É fundamental entender que uma produção bancada pelo próprio artista tem um tempo muito próprio, e é preciso reconhecer isso, e saber dançar conforme a música. 


3. Como foram os shows? A banda e os lugares por onde este trabalho passou?

Marcelo Birck - Teve vários shows muito legais. O lançamento no Teatro de Arena, em Porto Alegre, foi um deles. Como não é um trabalho com características comuns, testei vários formatos de acordo com as circunstâncias. Por exemplo, usar bases gravadas. Ou acrescentar um laptop à banda de apoio. Usar três guitaras. Improvisar uma bateria com sucata de instrumentos de banda misturada com uma bateria eletrônica muito simples. Creio que os dois principais shows foram no já citado TIM Festival (2006) e no Festival Isso é Música?/! (2004), no Centro Cultural Banco do Brasil, ambos no Rio de Janeiro.
     
       Quer ouvir? Download aqui!
        Também disponível no Youtube!
     
No site do Marcelo Birck tem o disco em streaming (aproveite para conhecer os outros trabalhos do Birck! Os discos também estão à venda pelo site ou no email eletrolas@gmail.com)

domingo, 21 de agosto de 2011

The Charts “Carbônicos” (Suck My Discs, 1996)



Bizz, edição 134, dezembro de 1996
The Charts foi um trio paulistano, formado por Sandro Garcia, Flávio Telles e Roberto Tomé, que incendiava os palcos por onde passava, tanto que era nome frequente nas revistas de música e fanzines da década de 90. O som era rock’n’roll e rhythm’n’blues, dançante e com letras sobre o cotidiano de um garoto que queria ser um mod.
“Carbônicos” tem 10 canções sem firulas e com um punch que amarra o álbum todo, nem parece que o álbum surgiu da junção de demo-tapes da banda. A gestação deste disco foi longa, 4 canções foram gravadas em 1993 e as outras em 1995; produzido por Rainer Pappon e a própria banda, foi lançado em 1996 pelo selo e loja de discos Suck My Discs, propriedade dos jornalistas e músicos Alex Antunes e Minho K (heterônimo de Celso Pucci, falecido em 2002).                    
      O projeto gráfico é bastante completo, traz todas as letras e um texto de apresentação escrito pelo jornalista Sérgio Barbo, na capa o trio aparece fotografado do alto, com detalhe para a calçada em referência explícita a São Paulo.
“Carbônicos” teve boa repercussão e foi bastante elogiado em resenhas da época, até hoje o disco é lembrado com entusiasmo. Não é para menos, ouça “Vamos danças em outro lugar”, “Ipsilone alone” e “Carbônicos” e tente ficar parado!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Jimi Joe “Saudade do futuro” (Pineapple Music, 2005)


  
          A contribuição do gaúcho Jimi Joe para o rock brasileiro é enorme, além de jornalista e radialista, Jimi é guitarrista e compositor. Com o Atahualpa Y Us Panquis formou uma das primeiras bandas punks de Porto Alegre. É o autor da canção “Sandina”, um clássico do Replicantes, também gravada por Julio Reny e Expresso Oriente e outros.
“Saudade do futuro” é seu primeiro e, até agora, único disco de Jimi Joe. Aqui estão 16 canções próprias que ainda não haviam ganhado registro do próprio autor, entretanto algumas já ganharam outras interpretações, tais como “Tarde demais”, gravada pelo Replicantes no disco “Em teste” (Antídoto, 2004) e “Dani”, presente em “Caminando y cantando” (Fora da Lei, 2010) de Wander Wildner. Por sinal, Jimi Joe é o guitarrista de Wander Wildner em ocasiões e participou no disco “Acústico MTV: Bandas Gaúchas", de 2005.
            A iniciativa para a realização deste álbum surgiu do multi instrumentista e “mago do moog” Astronauta Pinguim, que tocou em quase todas as canções, produziu e lançou o disco pelo seu selo Pineapple Music. O projeto gráfico do disco é bastante simples, mas eficiente, na capa há uma foto em polaroide de Jimi Joe, no encarte outras polaroides e todas as letras.
“Saudade do futuro” é algo como um álbum homenagem e aproveita para fazer justiça com um grande incentivador e enciclopédia do rock. Salve Jimi Joe!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

V.A. “Leite Quente” (Independente, 1998)


"Leite Quente" traz 14 bandas brasileiras que tocaram no Festival Leite Quente de Bandas Independentes realizado em Curitiba como parte da 5ª Semana de Cultura da Universidade Federal do Paraná (UFPR) no ano de 1995, mas que chegou ao CD apenas em 1998.
A seleção de bandas para o festival priorizou os nomes mais atuantes e mais representativos do underground brasileiro na época, somados às bandas curitibanas. Neste disco estão presentes, em gravações ao vivo, guitar bands e alternativos em geral, como Low Dream, UV Ray, Tods, Dash, Dive e Victoria X; mod, Relespública; punk rock, Linguachula; rock’n’roll, Acústicos e Valvulados e Dalvvo; ska, Intruders; e os indescritíveis Ultramen, Boi Mamão e Frutos Madurinhos do Amor. No festival ainda tocou a veterana banda curitibana Woyzeck, que não está no disco por problemas técnicos da gravação.
Nesta época o underground brasileiro vivia um momento de conquistas. Desde o festival Juntatribo, ocorrido em Campinas nos anos de 1993 e 94, o cenário independente ganhou mais festivais, tais como o BHRIF em Belo Horizonte, BIG em Curitiba, além de palcos espalhados pelo Brasil e público envolvido com a proposta das bandas. Além disso, havia o trabalho das revistas Bizz, Rock Brigade, Dynamite, Top Rock, e depois General, Underguide, Rock Press, Vírus, além de fanzines, tais como Esquizofrenia, Papakapika, por exemplo, que abriram espaço para divulgar o que acontecia nas garagens brasileiras e assim fomentaram a iniciativa de novos fanzines e gravadoras independentes dispostas a lançar discos de bandas desconhecidas e sem apelo popular, sendo que algumas destas cantavam em inglês. Foi um grande pé na porta que abriu possibilidades para o cenário independente brasileiro.

domingo, 31 de julho de 2011

Boi Mamão (Bloody Records, 1993)

          O ano de 1993 foi muito importante para as bandas de Curitiba. Foi o ano quem que as bandas dos nos 90 realmente deram as caras e isso se deveu à iniciativa do selo Bloody Records, propriedade de JR Ferreira, em lançar uma série de 13 compactos de nomes que ainda não haviam chegado ao disco. Dentre estas, o Boi Mamão se destacava com seu math rock e shows imperdíveis, o compacto com 4 canções foi o primeiro registro do quarteto que contava com Glerm Pawdphita, Renê Bernunça, Nillo Mariolla e Bruno Balainha.
          Agora, você sabe o que é math rock? Pense em Mr. Bungle, Red Hot Chili Peppers, Funkadelic, Fishbone, Yo Ho Delic, Pato Fu e, ainda assim, restará alguma descrição. Responder isso é tão difícil quanto entender as letras deste compacto. Entretanto, difícil também é não deixar de se divertir ao som de “Scaraphojidascolah”, “Pecilothermic gummy” e, do “hit”, “Capitão Gabiru”, a letra desta narra a odisseia do retirante que ao chegar à cidade grande descobre que a vida não é fácil, no fim há o grito anti-separatista do Boi Mamão, um clássico curitibano!

          O projeto gráfico traz o logo em cores na capa, encarte com letras, ficha-técnica e agradecimentos escritos à mão. O disco foi produzido pela banda junto de Vitor França, proprietário do estúdio Solo e responsável pela produção de grande maioria das bandas curitibanas. Quanto ao Boi, após este disco a banda continuou levando seu math rock para outros palcos e gravando demotapes, participou das coletâneas “Alface” (Banguela, 1995) e “Borboleta 13” (+Mais Records, 1996), gravou seu primeiro álbum “Compre, grave ou roube!” (Paradoxx, 1998), porém este já estava mais para ska (com 'paulêra') do que para o math rock dos primeiros anos. O Boi morreu em 1999, viva o Boi!
          Quer ouvir? Download aqui!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

The Gilbertos “Os Eurosambas 1992-1998” (Midsummer Madness, 1999)


Gazeta do Povo, 18 de fevereiro de 2000
          O primeiro disco do projeto solo de Thomas Pappon e sua esposa Karla reúne 12 canções compostas após o primeiro fim do Fellini, em 1991, e a ida do casal para a Alemanha no ano seguinte. As canções foram compostas e gravadas entre Alemanha e Inglaterra - onde o casal vive até hoje - num porta-estúdio de 4 canais semelhante ao que Fellini usava para registrar seus discos.
          O disco abre com uma canção em francês, “Les trois maries”, e segue com letras em português e inglês, com direito a uma regravação de “Polly”, de Gene Clark. É um disco low-fi muito bem produzido e repleto de belas canções, tais como “Erundina song”, “Everywhere” (parceria com Cadão Volpato), “Baby is not at home”, “I hope”, entre outras.
         O projeto gráfico deste disco é muito bonito, na capa de Renato Yada há uma bucólica foto de Thomas e Karla, o encarte e contra-capa têm ilustrações de Cadão Volpato além de informações curtas sobre a confecção do álbum. O disco recebeu excelentes resenhas na mídia especializada.
          “Os Eurosambas 1992-1998” foi lançado em 1999 pelo selo carioca Midsummer Madness, que também lançou o segundo disco do The Gilbertos “Deite-se ao meu lado”, de 2005, os dois podem ser encontrados no site www.mmrecords.com.br,

             Quer ouvir? Download aqui!



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Zé do Bêlo "Acústico" (Barulhinho, 1999)



            "Acústico" é a estréia do cantor, compositor e violonista gaúcho Zé do Bêlo (heterônimo de Maurício Cambraia Sanches), um disco com 13 baladas de boteco cujos temas passeiam do amor a mais feliz escatologia.

            O que mais atrai a atenção do ouvinte é a interpretação embriagada das canções, como em “Meu Deus, uma luz” e “Rato de buteco”, porém Zé do Bêlo está além da contatação alcoólica, não bastasse assinar todas as composições, Zé também compôs os arranjos.

          O título do álbum não nega o seu conteúdo, o disco é realmente acústico, sem guitarras, e até mesmo, sem bateria, sendo assim, destaca-se o violão do Zé do Bêlo. O ritmo que predomina é o samba, o que já lhe rendera o apelido de Bezerra da Silva dos pampas, ocasião na qual abriu a coletânea “Os Excluídos” (lançada pelo selo Purnada  Y Pranada em 1998,) tais como o samba trágico de “O Gil Gomes falou”, e o samba escatológico exaltação-à-felicidade em “Bolinhas”, a letra desta resume a felicidade em algo muito simples, localizada dentro de qualquer nariz.
            As letras de amor também são muito boas “Diz que eu sou besta” é uma declaração de amor sem medo das cicatrizes e hematomas, já em “Reprise” Zé do Bêlo não perdoa a pretendente que furou um encontro esperado. Em “Jason” Zé empresta o nome do personagem de "Sexta-Feira 13" para contar a história do rapaz que era bonito feito um Alain Delon, mas “que pegaram pra Jason”. O disco ainda traz duas canções instrumentais e termina com o blues “Mississipi River”.
            “Acústico” foi gravado em 1998 e lançado em 1999 pelo selo gaúcho Barulhinho, propriedade de Frank Franklin, que durante uns 4 anos lançou a estréia solo do Frank Jorge e discos de Wander Wildner, Arthur de Faria, Os The Darma Lóvers, entre outros. O projeto gráfico do disco é bastante simples, e traz fotos do autor no melhor estilo rato de boteco e as "belíssimas" letras.
              Segue abaixo uma mini entrevista do Zé do Bêlo a pedido do blog Disco Furado:
 Como foi a confecção deste “Acústico”?
           Zé do Bêlo -  Foi rapidão, eu nem sabia como se faz, mas, fiz do meu jeito, meu amigo Frank Franklin conseguiu a produção, gravamos na casa do Costa, num Tascan de fita rolo, eu no corredor da casa com as quatro portas fechadas, no escurão, e o gravador no quarto, gravei o violão e a voz e aos poucos fomos colocando os outros instrumentos, as percussões, tem aquele piano na faixa “reprise” que eu mesmo gravei, naquele tempo nem tinha esse negócio de Pro-Tools, tinha que voltar a fita e fazer de novo, não tinha negócio de mudar os timbres como tem hoje, depois escrevi os arranjos de violino e flauta e chamei amigos pra participar, acho que em duas semanas tava tudo pronto, isso foi em 1999. A capa foi concepção minha também, produzida pelo Caco Escobar, autor das fotos, foram tiradas ali no Partenon, na rua e depois dentro duma sinuca no boteco da esquina. Fizemos 100 cópias deste CD e eu vendia nos shows.

Antes do disco, como foi a sua “caminhada fonográfica”?
     Zé do Bêlo - Gravei uma fita cassete em 1995, eu vendia nos shows várias cópias que eu mesmo fazia em casa passando de um gravador pro outro, e a capa eu fazia de xerox colorido, era a novidade da época o tal do xerox colorido... depois, em 1996 fui convidado pro CD coletânea “Os Excluídos”, de produção de Egisto 2, gravei 3 faixas com minha banda, e em 1998 entrei na coletânea da rádio Ipanema FM 15 anos, com a faixa “Samba Enredo”, com banda, também por intermédio do Egisto 2. Tem uma gravação que foi feita no estúdio profissional da Acit, com ótimos músicos me acompanhando, teve solos geniais do saxofonista Paulo Lata Velha, foi produzido pelo Egisto 2 também, mas o material nunca foi lançado.
 Como ocorreu o contato com o selo Barulhinho?
            Zé do Bêlo - Alguns meses depois que lancei o meu CD, em 1999, alguém deu uma copia pro Branco Produções, e ele gostou e propôs comprar os direitos pra lançar pelo selo Barulhinho e representar as vendas. A gente aceitou e ele passou a vender meus shows também, isso durou até 2003 mais ou menos. Me queimei com o Branco porque eu pegava CDs pra vender nos shows e acabava gastando a grana, daí dava briga na hora dos acertos.
Hoje, mais de dez anos depois, como você avalia a repercussão da sua estréia?
           Zé do Bêlo - Na época eu tinha recém chegado de Belo Horizonte do BHRIF - BH Rock Independente Festival, onde participei com a banda Lorenzo Y La Nota Falsa, este foi um evento onde davam palestras sobre carreira musical independente, gravação, distribuição... O Carlos Eduardo Miranda tava metido na organização, eu assisti a todos os cursos, workshops e palestras, eu tive essa formação e foi muito boa, por isso quando voltei a Porto Alegre já sabia o que fazer com meu trabalho e tratei logo de fazê-lo, enquanto muitos me criticavam, diziam que não dava pra fazer assim, que precisava uma gravadora por trás bancando, que não ia dar certo, etc... Mas como meu trabalho não era nada padronizado, nem as músicas nem o estilo, então tratei de fazer tudo do meu jeito próprio e funcionou... O marketing da coisa funcionou... Tinha músicos a minha volta que faziam um trabalho mais dentro do "padrão" do mercado e por isso eles não conseguiriam o mesmo resultado que eu, porque não é só a questão de lançar a música de forma independente, a minha própria música era totalmente fora de parâmetros também.

Como foram os shows? Este trabalho ficou restrito ao sul ou você pode viajar com este álbum? Sempre havia uma banda te acompanhando?
           Zé do Bêlo - Eu fiz Florianopolis, Curitiba, fui bem recebido, apareceu muito na imprensa e TV porque a produção do Branco era de primeira, eu ia sempre no esquema voz e violão, e fiz muitas cidades do Interior do RS, impulsionado pela participação nos comerciais da Polar, mas tinha contratantes que queriam banda, daí eu montava uma banda pra estas ocasiões, e a partir de 2001 convidei o saxofonista king Jim, pra fazer um trio violão, sax e percussão, como ele é muito competente passou a exercer papel de produtor musical, compositor e produtor de gravações e vídeo-clipes. Negócio de banda é complicado, eu prefiro tocar sozinho acompanhado do King Jim e do Alemão da Vila no tambor, apesar que a banda com o João Guedes no baixo e o Luiz Maurinho nos teclados ficou sensacional.
                Quer ouvir? Download aqui!