quarta-feira, 22 de junho de 2016

Repolho "Vol. 1" (Grenal Records, 1997)


                  Depois de três demo-tapes que colocaram o Repolho no mapa do underground brasileiro os anos 90 e apresentaram o rock de colono para além dos limites curtos do oeste catarinense, eis que o Repolho chegou ao primeiro disco.

Showbizz, ed. 152, março de 1998
              Um disco de rock, mas que não se prende às marcas de estilo. Passeia por referências geograficamente próximas, tais como DeFalla, Graforreia Xilarmônica e Teixerinha, nominalmente citados da hilariante “Guadalarrara”, mas se mostra aberto para outras interferências, principalmente quando estas se encaixam nas características de quem se encontra no elo entre a permanência da tradição rural e a insistente contemporaneidade urbana de interior, da qual ‘rock de colono’ consegue ser uma tradução bastante humorada.

              O samba torto “A fossa nova do astronauta” faz citação “incidental” ao hit “Papel machê”, do João Bosco, tente não rir ao desvendar a adaptação da vocalização original. O rap “Chapecó” presta tributo pouco elogioso à cidade natal do Repolho, enquanto “Funke tchuca” traz linguagem localizada de alto teor alcoólico. O álbum traz mais outras ótimas canções, como "Bunitinho", "Lasanha", "Tiquitita duque mellow]" e o reggae "Uêra uê"

               “Vol. 1” foi lançado apenas em CD pelo selo Grenal Records, propriedade fonográfica independente com apenas dois discos no catálogo, capitaneada pelo produtor do disco, Marcelo Birck, produção dividida com Thomas Dreher.

                 Uma produção não convencional, na qual a fidelidade de timbres e execução perde espaço em meio a colagens, ruídos de fundos e possibilidades de virar arranjos pelo avesso. Uma constante troca entre elementos kitsch e cult que no final dão num disco muito divertido.

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terça-feira, 21 de junho de 2016

Pin Ups "Jodie Foster" (Devil Discos, 1995)


                 O quarto disco do Pin Ups - incluindo o projeto acústico Gash - A mellow project by Pin Ups - é marcado por uma série de rupturas e continuidades. 

               As rupturas se deram na formação e na sonoridade. "Jodie Foster" é o último álbum que contou com a participação de dois membros originais, o vocalista Luís Gustavo e o baterista Marquinhos (aka Marco Butcher). O som aqui deixa de ser o noise/guitar/shoegaze, que marcou a primeira fase barulhenta da banda, e passa para sons mais melodiosos, com um pé fincado no estilo de bandas do underground norte-americano.

Bizz, ed. 120, julho de 1995
                  Das continuidades, o álbum abriu caminho para que o Pin Ups entrasse numa nova fase, agora com a baixista Alê assumindo o microfone em todas as músicas. também é o primeiro disco que leva como título o nome de algum ator conhecido do cinema internacional, a mesma tática seria usada nos dois álbuns seguintes.

                  É um ótimo disco, ainda que divida opiniões entre os próprios membros da banda, com atesta a entrevista publicada no livro "Rcknrll", de Yury Hermuche, lançado em 2015. Traz canções que figuram entre os melhores momentos do repertório do Pin Ups, como "Feel do strange" e "Sell out". Além de "Witkin", um hit do disco, que também ganhou vídeo-clipe, levado pela voz da Alê.

                   "In a hole" é o único cover presente no álbum, original do Jesus and Mary Chain. No final do disco, um bônus track apresenta uma sessão de Pin Ups em formato acústico, com um jeito bastante próximo do que a banda soaria nos anos seguintes.

                  "Jodie Foster" foi o segundo e derradeiro trabalho da banda lançado pelo selo Devil Discos. A capa pavorosa (que balinha desfocada é essa?) é obra do Rafael Lain, que também assinou as capas dos álbuns seguintes. O disco teve boa repercussão e a mídia especializada foi bastante elogiosa ao quarteto.

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terça-feira, 7 de junho de 2016

Adão Dãxalebaradã "Escolástica" (Ambulante Discos, 2003)


               No filme "Cidade de Deus" uma cena apresenta um guia espiritual batizando Dadinho com seu novo nome, Zé Pequeno. Essa é a cena mais conhecida de Adão dos Santos Tiago (1955-2004), mas Adão teve muitas outras atividades além de ator de poucas cenas. 
              De passagens pelo tráfico às atividades sociais, da prisão ao pacifismo, com espaço para a música e composição. Conta-se mais de quinhentas canções compostas por Adão, poucas gravações, sendo que algumas estão registradas somente em vídeo, como as presentes no documentário "Adão ou Somos Todos Filhos da Terra", de 1998.

                  Outra parte das músicas, primeiramente acompanhadas somente pela voz e o atabaque de Adão, está no álbum "Escolástica", lançado pouco antes da morte de Adão Dãxalebaradã, nome de origem iorubá que significa "princípio, meio e fim". Trata-se de uma produção esmerada de Antonio Pinto, que ficara cativado quando visitou o barraco de Adão no Morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro. Um ponto de encontro entre o Brasil e a África.

                 A África é um tema recorrente e a musicalidade do álbum também transita pelos sons do velho continente, com passagens pelo rap, reggae e outros arranjos com harmonias suaves e por vezes melancólicas, incluindo até a sertaneja "Vida curta". 
     
                  "Armas & paz" abre o disco com mensagem pacifista e anti-bélica, o que gerou uma "antipatia" com traficantes da comunidade de Adão, a divisão rítmica da métrica aponta para os raps próprios do funk carioca, mas música foge das batidas convencionais do funk carioca ao oferecer um recheio rico de programações eletrônicas, guitarras limpas e mixagem dub, o que aparece em boa parte do disco.

              A sequência, "África", carrega um pouco do banzo e olha com saudade e tristeza para as origens negras. O reggae "Computador" traz mensagem solidária aos marginalizados, personagens caros aos versos de Adão, tais como proletariados explorados, favelados, negros e crianças de rua, personificados também na letra que dá título ao único disco de Dãxalebaradã, "Escolástica".

                  O material do álbum foi reunido em sessões separadas, numa delas Adão gravou as vozes em estúdio. O produtor Antonio Pinto se encarregou de montar a banda de Adão a partir das gravações das vozes, um trabalho que levou bastante tempo, mas que teve colaborações importantes, como Rappin' Hood, em "Deus é um negrão", e Céu, em "Xirê", por exemplo. Além das 11 canções, o CD traz mais dois remixes, "Vida curta", por DJ Periférico, e "Armas & paz", com o DJ Camilo Rocha e DJ Yah!


                 O disco é como uma pesquisa etnográfica-social. Apresenta valores culturais afro-brasileiros, como a Umbanda e Candomblé, presentes também na pesquisa de timbres, sons e na inserção por gêneros negros e mundiais da música.

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quinta-feira, 2 de junho de 2016

Rock do Curdistão "O melhor e o pior do Rock do Curdistão" (2MG, 2001)


                 Quem vê a capa cima, estranha, com dois pequenos fantasmas, um tocando guitarra e outro segurando um bebê, sob a fotografia de uma paisagem árida de algum lugar do Oriente Médio, não desconfia que dentro da embalagem de acrílico se encontra um dos discos mais complexos e fortes do rock brasileiro produzido fora dos grandes esquemas.

                   “O melhor e o pior do Rock do Curdistão” é o único álbum da banda de Marcos Andrada, projeto criado no final dos anos 90 para dar vazão às músicas que Marcos compôs após o fim do Vultos, banda paulistana que lançou o LP “Filme da alma”, pela Baratos Afins, em 1989, e participou do segundo volume da coletânea “Não São Paulo”, de 1987.

                 No Rock do Curdistão, Marcos Andrada se colocou na condição de cidadão curdo do rock no Brasil, relegado ao ostracismo de seu próprio quarto, à falta de reconhecimento e à desilusão de ter batalhado na música, mas sem maiores êxitos públicos.

                 Com mais de uma hora de duração, espalhado em 15 temas de autoria própria, o álbum mostra vários tipos de composições, barulhos, efeitos psicodélicos e o uso do estúdio como laboratório para compor, característica que dá em algumas canções lo-fi. As músicas soam diferentes entre si, tal como se fossem compostas por várias bandas, todas existentes dentro da mente de seu idealizador. 

                   O idioma se alterna entre inglês e português e a gravação volta e meia esbarra em algum erro de execução, porém, nada que incomode um ouvido atento à pedra preciosa em estado bruto que é "O melhor e o pior do Rock do Curdistão". 

                 O lançamento teve boa repercussão, principalmente após a participação do Rock do Curdistão no programa Musikaos, da TV Cultura, em 2001, na qual o desempenho de “Rock de Front”, “Tears of na actress” e “Porsche de James Dead”, mostraram força e tensão capaz de serem captadas até por quem assistia a banda pela TV.

                 Parte da história de Marcos Andrada está brevemente registrada no documentário “Incógnito”, de 2016, dirigido por André Pagnossim e Otávio Bertolo, no qual pode-se perceber o quanto os sonhos proporcionados pelo amor à musica são capazes de colocar alguém em outra órbita.

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quarta-feira, 1 de junho de 2016

V.A. "Banguela Hits - O último dente" (Warner, 1995)


                     Em 1993/94, depois da “derrocada” do rock brasileiro dos anos 80 e do estouro da Axé Music, Lambada e outras modas, havia muita banda nova de rock no Brasil, que em nada emulavam o rock que se popularizou na década anterior. 

                       Festivais independentes (Juntatribo, BHRIF, BIG e National Garage) e gravadoras independentes (Tinitus, Radical, Rockit!, dentre outras) davam conta de divulgar o novo cenário do rock brasileiro e fomentavam uma cena que começou a acreditar na vida além underground. As revistas especializadas em música apostavam nas novas bandas e o Banguela surgiu com esta proposta, lançar parte do bom material espalhado pelo Brasil. 

                Logo no primeiro lançamento do selo, em 1994, o homônimo disco do Raimundos, banda e selo se deram bem. O álbum (lançado nos formatos LP, CD e K7) em pouco tempo vendeu 100 mil cópias e alavancou as produções do selo. Ainda no ano de 1994 o Banguela lançou também os primeiros registros do mundo livre s/a e Little Quail & The Mad Birds.

                          Não é necessário afirmar que nenhum dos outros lançamentos foi páreo de vendagem em comparação ao “Raimundos”, entretanto, isso envolve outros fatores, tais como, divulgação, distribuição, aparição em TV, rádio e outras mídias, além da aceitação do gosto popular.
Revista Rock Press, edição 01

                      O Banguela lançou ótimos registros, mas não trabalhava os mesmos depois de lançados, com exceção do disco do Raimundos, todos os outros ficaram apenas em sua tiragem inicial de 3 mil cópias, saíram de catálogo em pouco tempo. Sem vendagens expressivas o selo encerrou atividades no seu segundo ano de vida.

                     "Banguela Hits - O último dente" saiu depois que o Banguela fechou as portas. A coletânea foi uma iniciativa da Warner, que distribuía os discos do selo, que organizou uma seleção com sete bandas que deixaram seus primeiros álbuns completos dentro do catálogo do Banguela. Cada banda foi contemplada com três músicas, com exceção à Graforreia Xilamônica que entrou aqui apenas com duas canções. É um bom trabalho, mas não conseguiu dar conta da abrangência de sons e estilos que o selo publicou. 

                      O Banguela saiu de catálogo para entrar pra história. Ganhou documentário em 2015, o “Sem dentes”, e hoje tem seus discos reavaliados dentro da importância musical dos 90’s.

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sábado, 28 de maio de 2016

Arthur Franquini "A guide to suicide - EP" (2004)


                  A foto acima não se trata da capa do disco perdido do Arthur Franquini, e sim da lista das músicas do EP "A guide to suicide", o álbum que sucedeu o segundo disco do Arthur Franquini, que também está "perdido", ou melhor, não disponível.

               "A guide to suicide" foi gravado cerca de um ano antes da morte do Arthur, em 2005. Produzido por Eduardo Ramos num esquema lo-fi, apenas voz e violão. O disco traz oito das últimas gravações de Arthur deixou, incluindo duas versões, "Excuse me while I break own heart tonight", do balada alt-country do Whiskeytown, e  "Too loose", do D Generation, a única canção com produção 'encorpada', na qual foram adicionados ruídos, efeitos no vocal e programação de bateria.

           O álbum não chegou a ser lançado em nenhum formato, exceto mp3. Por um tempo ficou disponível para download no site Trama Virtual, mas após a morte do Arthur o EP foi retirado do ar.
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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Ação Direta "Risotto Bombs live in Slovenja" (Bombardeio, 2000)


                 O quinto disco do Ação Direta comemorou os 15 anos de vida do quarteto de hardcore de São Bernardo do Campo/SP. Trata-se de um disco gravado ao vivo num squat, o Koper, na Eslovênia, uma das rotas dos 22 shows que o Ação Direta fez em sua turnê europeia de 1999.
   
                  O disco é cru e flagra bem a sessão daquela noite no leste europeu, a gravação do show está fidelizada no CD que não recebeu nenhum tratamento posterior no áudio. São 29 sons em mais de uma hora, em velocidade sônica, de hardcores com influências de grind, crust, metal e punk rock. Os melhores momentos são os que trazem as músicas do excelente álbum anterior, “Entre a bênção e o caos” (Pecúlio Discos, 1997), como “Miséria: mercado alvo”, “A vida sem arte”, “Por qual razão” e “Deuses, dogmas e a violência”.

              O título do disco, “Risotto bombs”, se relaciona com os pacotes de risoto recebidos como cachê e que serviram como alimentação diária durante boa parte dos shows pela Europa.

               Disponível no Youtube!